À Espada Pelo Sangue
30 Capítulo Extra – A História de Mais Alguém: Imperfeição
Notas iniciais
O Conselho: a instituição que cuida dos interesses da Família Greno em vários aspectos, seja na Guerra, nas relações entre os ramos familiares ou no contato com o mundo mortal. O Conselho é formado por um Líder, e Doze Generais. O Líder é escolhido pelos deuses, e os videntes têm a responsabilidade de profetizar quem será. Os Generais são os lutadores mais fortes dentre todos de sua geração, e cedem seus lugares a alguém mais jovem ao renunciarem ou ao serem desafiados e derrotados.
Ainda fazem parte do Conselho: três Videntes, dentre eles um líder, o qual possui grande influência por ser sempre o mais poderoso. Estes, ao revelarem suas previsões, devem sempre cobrar um preço por elas. Está é uma regra imposta, dentre as muitas das Regras Sagradas, pelo deus Apolo a fim de prevenir que qualquer pessoa tivesse acesso fácil a um conhecimento tão perigoso.
Dois Feiticeiros, também conhecidos como Criadores por estarem encarregados pela programação genética e encantamento das armas, e um Juiz responsável por julgar os problemas da família de acordo com a lei dos deuses. O último é outro cargo que confere acesso aos deuses, pois o Juiz também deve alertar o Olimpo se a interferência divina for necessária, e pode consultá-lo em necessidade. Um Mestre, o qual verifica o ensino e treinamento da próxima geração de guerreiros, garantindo que estejam prontos para assumir seu destino.
E, por fim, um Investigador.
O membro-fantasma que é escolhido por quatro pessoas: o líder dos Videntes, a deusa Atena, Lady Hera e o Investigador anterior. Seu papel é um mistério conhecido apenas por quem os escolhe, assim como sua identidade e seus poderes, mas os rumores dizem que o tal cargo foi criado pelos deuses para evitar que a Família ruísse, sucumbindo à tentação pelo poder. Dizem que este membro é responsável por exercer o papel de um detetive, ficando de olho nos demais membros, e de "cuidar" deles caso saiam da linha. Tais rumores, apesar de jamais terem sido confirmados, sempre fazem cada pessoa em posição importante pensar bem antes de arriscar quebrar as Regras Sagradas, e impulsionam muitos a manter os olhos abertos a quem os cerca.
Com um membro com tamanho poder, o Conselho deveria ser capaz de manter-se a salvo.... No entanto, há anos este cargo está em débito, pois nunca mais se ouviu relatos de algum movimento do Investigador. Segundo as regras, enquanto o presente não renunciar ou falecer, ninguém pode ser posto em seu lugar. É uma regra deveras conveniente, e ninguém ali faz questão de trazer de volta esse assunto. Ninguém faz questão de ter alguém se metendo em seus interesses pessoais.
— Senhorita Asada. – diz o homem, com uma voz grave.
— Cullmann-sama. – a garota diante dele retruca em um tom doce, porém firme.
As curtas palavras trocadas entre os dois é um simples cumprimento, mas faz com que todos na sala sintam a tensão nas pontas dos dedos.
De um lado, o alemão de rosto duro e porte poderoso, o lendário guerreiro de sua geração, o Líder de Guerra Cullmann. Com olhos azuis impiedosos, cabelos e barba loiros, seus cinquenta e quatro anos pouco aparecem em seu corpo, a não ser pelas rugas e marcas de expressão espalhadas por seu rosto. A maior parte de sua constituição atlética e acostumada às batalhas, no entanto, está coberta pela armadura que é quase sua segunda pele. O machado de Prata Olimpiana, companheiro de longa data, pende em sua cintura, dando-lhe um ar ainda mais imponente.
À sua frente, mas a vários metros de distância, a garota japonesa de 16 anos e beleza avassaladora, famosa por sua lâmina mortal, a Herdeira da liderança do Conselho de Guerra, Izumi Asada. Seu cabelo negro está preso de forma ornamentada, emoldurando seus doces, porém astutos, olhos escuros. Seu corpo jovem, esguio e forte está coberto por um yukata* delicado. A delicadeza, no entanto, para por aí.
Em contraste com todo o porte da garota, está sua Katana: uma lâmina tão afiada que é capaz de partir um lenço de seda em queda livre. Correm os rumores de que Izumi Asada formou seu laço com a arma quando tinha apenas oito anos, e, desde então, tem se destacado na Guerra. Sua força e capacidade são reconhecidas a ponto de ela ser conhecida como a Leoa dos Greno.
Quando ela tinha nove anos, o Líder dos Videntes do Conselho de Guerra previu sua ascensão como Herdeira. Dois anos mais tarde os outros dois videntes também confirmaram seu destino, e, desde então, cada um de seus encontros com aquele que ocupava a posição que um dia seria sua parece deixar o ar mais pesado.
— Izumi, minha querida. – uma voz cruza o salão.
JJ, com seus olhos cor de mel sempre gentis e seus cabelos loiros bagunçados, caminha até a garota, ignorando a tensão do encontro. Ele se curva em respeito.
— JJ-sama. – ela diz em um tom de respeito, correspondendo ao cumprimento – É um prazer revê-lo.
Ele sorri, e então nota sua companhia.
— Hiro. – cumprimenta – É bom ver que está bem.
O garoto se curva, um pouco surpreso. Poucas são as pessoas que o notam quando Izumi está por perto, mas JJ sempre é capaz disso.
— Sejam bem-vindos ao meu distrito. – o vidente eleva a voz e fala ao restante dos convidados – Vocês serão devidamente acomodados e anunciaremos o início da reunião durante o jantar.
Um breve aplauso se segue, e então as pessoas começam a se dispersar.
— Nee-san, vamos. – Hiro murmura para a irmã.
Passando os olhos pela aglomeração, Izumi finalmente vê um flash de cabelos vermelhos e sorri discretamente. Ela então se vira para Hiro e diz:
— Vamos.
— Hiro, lute sério.
— Estou lutando, Nee-san.
— Não, não está.
Horas antes do jantar, no dojo* preparado especialmente para eles, os dois irmãos treinam com espadas Kendo*, feitas de bambu e específicas para o exercício. Mas a garota não parece satisfeita, e repreende o irmão em japonês, claramente querendo evitar que qualquer pessoa de fora pudesse entendê-los, apesar de os dois estarem sozinhos.
Os dois se separam e Hiro segura a espada relaxadamente com uma das mãos. Izumi lhe lança um olhar afiado.
— Venceria tão fácil assim que nem vale a pena tentar?
Hiro enfia a mão livre no bolso da calça jeans que vestiu assim que foram instalados. Ao contrário de Izumi, que veste um short de exercícios e uma blusa folgada apropriados para o treino, o garoto sempre usa o que lhe dá na telha, e, no momento, aparenta estar mais pronto para um passeio que para uma luta.
— Por que me trouxe, Nee-san? – pergunta, direto.
Izumi se desfaz da postura de luta, deixando sua guarda tão baixa quanto a dele, e dá um suspiro.
— Porque eu sei que você odeia estar em casa. E também porque tinha a esperança de fazer com que você finalmente viesse com tudo contra mim, já que estamos longe dos olhares de Otou-sama*.
— Trocar quatro paredes do Japão por quatro paredes da América... – ele desvia o olhar – Pelo menos estas não estão eletrizadas.
A garota aperta o cabo da espada, com um misto de emoções com as quais não sabe lidar invadindo-a. Ela sente o perigo da conversa e a redireciona para uma questão menos emocional.
— Quanta sessões? – resmunga.
— O que?
— Quantas você aguenta agora antes de se esgotar?
— Trinta e seis.
Ela sente um arrepio na espinha, como se seu corpo estivesse tentando imaginar...
Antes mesmo que tenha tempo de pensar na sensação, Hiro já está atrás dela, batendo com seus joelhos na parte de trás dos dela, fazendo suas pernas fraquejarem. Com a mão livre, ele rapidamente pegou a espada da mão de Izumi e agora a posiciona paralela e horizontalmente às costas dela, enquanto a outra está abaixo de seu queixo, como em posição de decapitação.
Surpresa, Izumi cai de joelhos.
— Assim não dá, Nee-san. – Hiro diz, ainda na mesma posição – Falar sobre essas coisas... Você sabia que ia despertar minha sede de sangue, não é?
A outra esboça um sorriso de canto.
— Quem sabe?
— Heh...? Quer tanto assim que eu lhe mostre tudo que tenho?
Izumi assume uma expressão séria, e deixa que o silêncio dure mais alguns segundos, antes de dizer:
— Hiro, você é forte. Desconfio que mais forque que eu, que Himeko Nee-sama, ou mesmo que Otou-sama. Se quisesse...
— Eu sei. – ele interrompe, colocando um ponto final na conversa.
Izumi se cala, meio surpresa, meio resignada. Ela então suspira.
— Entendo.
— Asada Izumi-sama.
Ela ergue os olhos para a entrada.
Parado ali, vestindo um kimono tradicional, está um garoto. Ele tem cabelos vermelhos que parecem tingidos, mas na verdade são naturalmente cor de fogo, e olhos quase dourados, como os de um gato. Seu rosto tem as marcas de sua família: três linhas paralelas em cada uma de suas bochechas tatuadas em momentos importantes com uma tinta temporária vermelho claro, indicando sua linhagem japonesa de alguma forma ligada aos Argonautas. Se Izumi é conhecida como a Leoa, ele é conhecido o Tigre.
Além de forte e habilidoso, é conhecido por sua inteligência e capacidade dedutiva, o que levou muitos a imaginarem se ele não seria o próximo Investigador. Mas Izumi o conhece o suficiente para saber que não. Eles fizeram uma promessa um com o outro. Ela não espera que ele lembre, e não sabe como perguntar, mas mantém a esperança de que ela a cumpra.
Com apenas dois anos a mais que Izumi, ele a conhece bem, e os dois compartilharam muito quando eram mais novos, até que uma pequena rivalidade entre os Akashi e os Asada surgiu e eles passaram algum tempo sem se ver. Quando os problemas foram superados, ambos já eram mais velhos, e uma reaproximação publica era mal vista pelo seu pai. Mas os laços que tinham se mantiveram em cada encontro, e Taiga é o mais próximo que ela pode chamar de um amigo.
— Akashi Taiga-sama*.
Hiro gira a espada de bambu na mão, liberando Izumi e lança ao garoto um sorriso.
— Taiga-kun. — diz, como sempre ignorando a etiqueta de chamá-lo pelo sobrenome — Eu ja estava de saída. Vai tomar meu lugar e treinar com Izumi Nee-san?
Akashi retribui o sorriso e se curva ao entrar no dojo.
— Com prazer
— Izumi, ajeite a postura.
— Querida, não fale enquanto come.
— Asada-sama, os convidados a esperam.
— Vamos, dê um sorriso.
— Segure a Katana com mais força, menina.
— Izumi, nunca abaixe a cabeça para ninguém.
— Izumi Nee-san, não preciso que me ensine a lutar.
— Você precisa aprender a andar direito com o Yukata, Izumi.
— Seja forte.
— Olhe seus oponentes nos olhos.
— Mais forte.
— Seja gentil.
— Você é uma dama, mas também é uma guerrreira, querida.
— Coloque mais força nisso, menina.
— Nunca faça isso na frente de outras pessoas, entendeu?
— Você é o orgulho da nossa família.
— Não fique se achando só porque é mais forte, Izumi.
— Fique mais forte.
— Ande com graça.
— Lute com destreza.
— Afie sua lâmina.
— Você é a Leoa dos Greno.
— Seja perfeita.
"Seja perfeita"
Ela ouve muitas coisas de outras pessoas. Ouve de mais. Mas a última frase foi a conclusão a que chegou depois de perceber as expectativas de todos ao seu redor. "Seja perfeita", era o que estava dito nas entrelinhas. Ela se cobra. Ela é o que sua família espera e precisa. Vai ascender à liderança do Conselho dessa forma. E cada vez que encontra um defeito em si mesma, ela o esmaga.
Jamais poderia mostrar sua fragilidade a alguém. Ela é a Herdeira da liderança do Conselho de Guerra. Ela é a garota em cujos ombros está o futuro da família. Ninguém jamais pode suspeitar de suas inseguranças, porque ela é o exemplo a ser seguido por toda uma geração. Ela não pode ter falhas.
Diante da pergunta insistente de Taiga, ela aperta o cabo da espada com mais força e faz mais uma vez o movimento mortal no ar que dividiria em dois qualquer um caso fosse uma lâmina de verdade ali. Akashi Taiga continua a fitá-la.
— Asada-sama... – diz – Se seu silêncio deve ser tomado como resposta , vou concluir que estou certo. Caso contrário, devo ouvir de seus próprios lábios a negativa para minhas afirmativas.
Os olhos de Izumi encaram o garoto de volta. Ele é um pouco mais alto que ela, mas o fato de ela precisar erguer um pouco o queixo para fitá-lo apenas a faz parecer mais imponente.
— Poderia a Leoa dos Greno ter uma fraqueza tão boba quanto essa, Akashi-sama? – fala, abrindo um sorriso.
O outro não titubeia.
— Somos todos dotados de defeitos, Asada-sama. E a insegurança para lidar com seus sentimentos, aliada ao fato de nunca se abrir com ninguém, são os únicos que posso ver em você.
— Pode mesmo afirmar com tanta certeza que não me abro com ninguém?
O garoto encurta a distância entre os dois.
— Sim, posso. Eu posso afirmar muito sobre você, apesar de você nunca ter me contado nada do que sei. Sei que sou seu melhor amigo, mas ainda assim você não me mostra suas fraquezas. Só posso assumir que este é o seu defeito mortal.
Ele faz uma pausa e anda para ainda mais perto dela, o suficiente para que as palavras ditas a seguir em um tom baixinho fossem ouvidas. Sua mão estendida toca as pontas dos dedos dela.
— Mas não tem problema, Izumi. – fala, e ela sente seu coração acelerar ao ouvir-lhe chamar seu primeiro nome – Porque eu sou um detetive. Então se você tem dificuldade para dizer ou entender o que sente, eu descobrirei para você. Não precisa mudar ou fingir para mim que é perfeita, mostrar que é melhor que todos. Pode me deixar ver suas fraquezas. Sabe por que?
Ela não responde, os lábios selados e os olhos grudados nele.
— Porque isso não vai mudar em nada o que sinto por você.
Ele encosta a testa na dela por alguns segundos, e ambos experimentam um momento de hesitação, até que ele beija sua face e se afasta, caminhando para fora do dojo.
Izumi tem vontade de correr atrás dele. “Eu amo você também”, ela quer dizer. Mas percebe que não consegue. Ainda não é capaz de se expressar desta forma.
Antes que seu coração seja preenchido pela frustração mais uma vez, um pensamento reconfortante cruza sua mente.
“Ele sabe. E, se ainda não sabe, vai descobrir. Por que ele é um detetive. Não preciso mudar para ele”.
Duas horas mais tarde, Taiga Akashi desafia o Terceiro General. Como fruto de sua vitória, ele ocupa a Terceira Cadeira como um dos Doze Generais. E, diante disso, Izumi sabe: ele estará lá quando ela assumir a Cadeira do Líder.

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