À Espada Pelo Sangue
31 Capítulo 25 - Executivo, Careca e Tatuado
Notas iniciais
É impressionante a velocidade com que uma praça fica vazia depois de dois tiros para o alto. A confusão que o local ficou logo após o barulho, com trinta pessoas correndo para todos os lados, quase me fez querer fuzilar Hiro. Se os ciclopes quisessem fugir ali, não seria grande problema.
— Temos que achá-los! – falei, elevando minha voz acima dos gritos.
Hiro apontou.
— Ali. – disse – Eles estão tentando achar de onde vieram os tiros.
Ian abriu um sorriso.
— Assim eles facilitam as coisas pra nós, não é? – falou – Novata, você fica com o menor.
Dei de ombros. Sendo que eu lutasse, não tinha problemas em deixar os mais fortes para os outros. Eu tinha que reconhecer meus limites também, certo?
Nós serpenteamos entre os mortais assustados em direção aos Ciclopes. Antes mesmo que cobríssemos toda a distância até eles, a correria já havia cessado e a praça estava vazia, deixando-nos a sós com os monstros.
— Ora, ora. – o maior deles falou. Seu rosto era amassado, com o olho meio deformado, como se tivesse levado um soco e não houvesse se recuperado. Decidi identifica-lo como Careca, devido à sua falta de cabelos – Vejam, rapazes, parece que estamos em um dia de sorte.
O segundo Ciclope, que estava sem camisa, exibindo seu corpo tatuado com cenas sangrentas, esboçou um sorriso que supus ser pretencioso, já que era uma expressão difícil de ler em um rosto tão cheio de piercings. Eu de repente imaginei um monstro como aquele entrando em uma casa de tatuador e dizendo “quero uma com um semideus morrendo”. A imagem quase me fez rir.
— Ótimo, eu estava mesmo com fome. – disse o Tatuado.
O terceiro Ciclope era o menor, e usava uma roupa social. Ele olhou casualmente para o relógio. Decidi chamá-lo de Executivo.
— Isso vai atrasar minha agenda... – então suspirou – Mas acho que não tem jeito. Muito bem, meninos.
Ele assumiu uma expressão assustadora que fez minha vontade de rir desaparecer em um segundo.
— Vamos conseguir carne de semideus para o almoço de hoje. – sua voz soou faminta – Tentem não dilacerar de mais ou podemos perder alguma coisa deliciosa.
Olhei para Ian, imaginando se ele ainda queria que eu ficasse com o Executivo. Estava claro que ele era o líder ali. Mas o garoto estava com uma expressão tão tranquila que me perguntei se ele estava prestando atenção.
Hiro suspirou e sacou suas pistolas.
— Quando terminarmos, temos que colocar os restos em um vaso para podermos levar a JJ-sama como prova. – falou casualmente e então olhou para mim – Está pronta, May-chan?
Saquei Prostátida.
— Bom, não faz diferença se estou ou não, certo?
Ele riu.
E então, sem aviso, os dois se lançaram como raios sobre seus adversários.
Ian tirou a espada da bainha em suas costas um segundo antes de alcançar Tatuado, primeiro lançando um chute como distração. Quando o monstro se desviou, deu de cara com a lâmina prateada, que vinha em sua direção em um arco horizontal. Ele usou as costas da mão para desviar a trajetória, ao mesmo tempo que abaixava a cabeça para salvar seu pescoço. Ian então precisou pular para não ser derrubado por uma rasteira, e aproveitou o impulso para descer a espada na direção do monstro, como se fosse partir-lhe ao meio, mas este rolou no chão um segundo antes de ser atingido. Com um movimento rápido, ficou de pé e avançou novamente.
Ao mesmo tempo, Hiro tinha suas pernas ao redor do pescoço de Careca e apontava uma de suas pistolas para sua cabeça. Antes que fosse capaz de atirar, no entanto, o Ciclope agarrou suas costas e o jogou por cima da cabeça. O garoto rolou no chão para amortecer a queda, e, antes que eu pudesse mesmo registrar seu corpo se erguendo, já estava novamente atacando Careca. Ele saltou à altura da cabeça do alvo, chutou seu rosto e então girou no ar, com mais um chute. O monstro caiu no chão, e rolou para o lado, desviando dos tiros que agora lhe eram direcionados.
Não pude mais observar. Antes que eu me desse conta, Executivo já me alcançava, e precisei pular para trás, desviando de sua investida.
Brandi Prostátida, mas a lâmina passou por cima de sua cabeça, sem apresentar perigo. Como um jogador de Futebol Americano, ele agarrou minha cintura e tentou me derrubar, mas encaixei minhas pernas em sua barriga antes que caíssemos e o joguei por cima de mim, fazendo-o dar uma cambalhota no ar. Caí de costas no chão duro, e minhas costelas reclamaram.
— Droga. – murmurei.
Precisava ficar mais atenta.
Coloquei-me de pé e preparei minha espada mais uma vez, virando para Executivo. Ele levantou e me lançou um olhar faminto.
— E não é que...
Ataquei, sem dar-lhe espaço para falar. Com um arco diagonal, obriguei-lhe a recuar e então me adiantei mais uma vez com uma estocada direta. Ele desviou para a direita e me lançou um chute desajeitado, o que só serviu para deixá-lo mais desequilibrado. Eu me abaixei e fiz um movimento para lhe dar uma rasteira, mas ele saltou para fora do meu alcance. Assim que seus pés tocaram a terra, ele se lançou contra mim novamente, simulando um soco em meu rosto. Estendi Prostátida para receber o golpe, mas ele não veio. Ao invés disso, fui derrubada por um chute no ombro esquerdo, e precisei rolar para o lado a fim de evitar a cotovelada que vinha em direção ao meio peito. O cotovelo dele atingiu o chão com força e ele fez uma expressão de dor.
Fiquei de pé rapidamente, a tempo de chutar-lhe a cabeça antes que levantasse. Apesar de desequilibrado, ele não caiu, mas segurou meu pé e tentou me puxar. Fui mais rápida e saltei, usando a outra perna para chutar-lhe o rosto mais uma vez, obrigando-o a me soltar. Mas não consegui manter-me de pé, e acabei soltando minha espada pra aparar a queda com as mãos.
Ele se levantou antes de mim, e chutou Prostátida para longe. Eu me apressei para alcança-la, mas ele se colocou em meu caminho.
"Droga" reclamei mentalmente "pense, May, pense". Estava claro que aquele era um inimigo que eu não podia abater simplesmente com minhas habilidades físicas. Fechei o punho com força.
"Muito bem." disse a mim mesma "Vamos usar o cenário, então".
Corri para o lado oposto ao que Prostátida havia sido mandada, em direção aos equipamentos de exercício físico que haviam na praça.
— Volte aqui, pirralha! — gritou Executivo, disparando atrás de mim.
Com o canto do olho, vi Ian chutar Tatuado entre as pernas, fazendo-o cair ajoelhado com o rosto vermelho. Apesar da dor, o ciclope ainda foi capaz de segurar o braço dele, impedindo-o de cortar sua cabeça fora. Hiro ainda lutava com sua série de movimentos impressionantes enquanto mantinha sua expressão de tédio. Careca não parecia tão relaxado, com a cara ainda mais deformada.
Alcancei as barras de ferro que se erguiam a dois metros do chão. Com um salto, eu as agarrei, usando o impulso para dar um giro completo e atingir as costas do meu adversário, que, graças aos meus cálculos, estava na posição exata para isso. Ele foi lançado para longe, ralando a cara no chão asfaltado.
Saltei para o solo e corri até ele, golpeando-o com os punhos ainda antes que se levantasse. Com pressa, peguei a presilha de Layla em meu cabelo e ela se transformou em uma adaga de Prata. Eu a ergui acima da cabeça, prestes a cravá-la no peito de Executivo...
Congelei.
O que veio a seguir aconteceu muito rápido.
A primeira coisa que notei foi que não conseguia segurar a adaga apropriadamente, pois, além de minhas mãos estarem suando, de alguma forma era difícil empunhá-la. Apertei o cabo com mais força, mas isso causou uma dor em meus braços. Com o desespero começando a brotar em meu peito, e com Executivo começando a se recuperar, senti o peso da arma aumentar, e de repente manter os braços levantados era um esforço enorme, obrigando-me a abaixá-los. Cambaleei para trás, para longe do ciclope, com os ombros caídos e dedos ardendo ao segurar a adaga. Soltei um grunhido de frustração e dor ao fazer mais um esforço para erguer a arma e atacar novamente, mas o peso aumentou, e eu sentia como se estivesse segurando um objeto de quarenta quilos.
Gritei, ofegando, e a deixei cair. Seu impacto com o chão não soou como algo pesado atingindo o solo, mas não tive tempo para pensar naquilo. De alguma forma Executivo já estava de pé novamente, e, antes que eu pudesse me recuperar, ele me agarrou e jogou no chão.
Eu me contorci com a dor, mas consegui minimizar os danos usando minha mochila como aparador entre eu e o solo. Como ela estava cheia de roupas e tecido, cumpriu bem o objetivo. No entanto, o ciclope não hesitou em me agarrar novamente. Dei uma cotovelada em seu peito, mas meus braços ainda estavam doendo, então a força não foi suficiente. Preparei-me para ser jogada no chão novamente, mas ele me segurou debaixo do braço, como se fosse me carregar para algum lugar. Fiz uma careta ao sentir o odor que aquela posição me obrigava a sentir.
Eu percebi que não poderia fazer nada contra ele no estado em que estava. Pelo menos não sem uma lâmina. Não me arriscaria tentar a espada do meu pai como havia feito com a de Layla, mas isso não era tudo que eu tinha. Com pressa, tentei alcançar as facas de atirar em minhas botas.
Executivo se virou para os outros dois ciclopes e gritou:
— Ei, vocês dois! Esqueçam esses aí, uma é suficiente. Vamos logo!
Ergui o olhar para na direção de Hiro e Ian. Ambos estavam se saindo melhor do que eu, mas, ao ouvir a voz de Executivo, Ian se virou para nós, descuidado, e deixou a brecha para que Tatuado se levantasse.
— Cuidado! — gritei.
Ele me lançou um olhar preocupado, e então ele girou a espada na mão, voltando a lâmina para trás e traspassando o corpo do ciclope tão facilmente que me perguntei se ele não poderia ter feito isso antes. O monstro se desfez em pó.
— Hiro! — gritou.
— Hai!* — o garoto respondeu.
Assombrada, vi os cabelos negros de Hiro passarem como mágica para um branco alvo, e então pequenos raios de eletricidade o circularam. Com sua rapidez incrível, ele saltou sobre Careca e agarrou sua cabeça com ambas as mãos, descarregando eletricidade nele. Em um segundo, o ciclope explodiu.
— Droga. — ouvi Executivo xingar.
Ele me segurou com mais força e desatou a correr. Acordando da surpresa, voltei a tentar alcançar as facas, mas, no momento em que meus dedos tocaram uma delas, o braço de Executivo caiu no chão, e eu caí junto. No momento seguinte, Hiro acabava com o restante do corpo, e eu fiquei coberta por pó de monstro.
Tossi.
— Ew! Isso com certeza é nojento — foi tudo o que consegui dizer.
— Você quase morreu e tá reclamando que tem pó em você? — Ian disse — Eu falei para ter cuidado, não falei?
— Tá, tá, pingueira de água. – resmunguei, limpando meus braços — Mas eu não ia morrer.
— Como é?
Tirei as facas das botar e as girei nas mãos, com um sorriso. Ele não pareceu convencido.
— Você sabe mesmo usar isso? — ele balançou a cabeça — Não, mais importante: pingueira de água?
— Quem sabe? — respondi, dando de ombros e ignorando a segunda parte. Até eu tinha que admitir que não era um apelido muito criativo. Pensando nisso agora, não era a primeira vez. Talvez eu devesse desistir de criar apelidos — Mas importante mesmo é que se eu o acertasse, ele morreria, certo? Eu não planejava atirar.
— Ei, vocês dois. — Hiro chamou e eu o olhei. Sua aparência estava de volta ao normal, com seus cabelos pretos caindo nos olhos escuros, mas para mim ele parecia diferente. Eu me dei conta de que o havia visto usar um poder incrível pela primeira vez, e minha visão dele realmente mudou. Agora eu tinha real noção da força dele — Vamos logo ao ponto de encontro. Graças a vocês eu vou ter que recarregar antes de chegarmos à casa de JJ.
Nós recolhemos os restos dos ciclopes em uma garrafa de água vazia antes que seus corpos começassem a ser refazer, e eu peguei de volta minha espada. O brilho de sua lâmina estava gratificantemente mais intenso, e o sentimento de ansiedade cresceu em meu peito. Mal podia esperar para finalmente formar o laço com Prostátida e ficar mais forte. Transformei-a em minha pulseira novamente e caminhei até onde a adaga de Layla estava.
Hesitei.
— Não é sua, não é? — Ian perguntou, por cima do meu ombro.
Balancei a cabeça.
— É de Layla, minha madrasta.
— Por isso você não pôde empunhá-la. — falou — Esta arma tem um dono, então você só pode usá-la com a permissão dele. Do contrário, ela irá se recusar a lutar.
— Se recusar... — murmurei, pensativa.
— Vamos, não podemos demorar muito. — ele pegou a adaga do chão, girou-a na mão para transformá-la e me entregou.
Nós então continuamos a caminhada na direção do ponto de encontro.
Segurei o lado do meu corpo, onde minhas costelas reclamavam. Graças aos deuses o ferimento não havia se aberto novamente, mas mesmo assim ainda doía com minha respiração pesada.
— Ei, Hiro. — Ian chamou casualmente — Vamos mais devagar.
Eles diminuíram o passo e eu respirei melhor, secretamente agradecida pela diminuição do esforço.
— Ah. — falei — Obrigada pela ajuda lá.
Hiro balançou a cabeça, aceitando minha gratidão.
— Foi uma pena ter acabado tão rápido, no entanto. — disse — Eu ainda queria ter testado alguns golpes...
Eu o encarei, com o queixo caído.
— Você os estava usando para treinar?
Ele deu de ombros.
— Não é como se fosse fácil demais acabar com eles, mas em comparação com os demônios... Bem, o melhor jeito de treinar é lutando sério, não é?
Olhei para Ian.
— Você também...?
O garoto me encarou, mas não respondeu. Estava prestes a repetir a pergunta quando Hiro disse:
— Ian faz o mesmo. Mas ele tem suas reservas quanto a isso.
— Urusai.* — Ian ralhou.
Hiro respondeu alguma coisa em japonês e o outro o fuzilou com o olhar, rebatendo na mesma língua.
— Ei, vocês poderiam não me excluir da conversa? — reclamei.
Os dois se calaram, Ian com revirando os olhos e Hiro com um sorriso provocador.
— Aliás, Hiro. — continuei — O que foi aquilo?! Aqueles raios!
O sorriso dele diminuiu, e ele apoiou as mãos entrelaçadas na nuca.
— Não são raios. — falou — E, antes que pergunte se sou filho de Zeus, já digo que não sou. Minha Habilidade lida com eletricidade por ser filho de Hefesto. Eu posso armazenar eletricidade dentro de mim e usá-la quando quero.
— E quanto aos seus cabelos?
Ele soltou um riso meio debochado.
— Meio ridículo, não? — disse — Nossas Habilidades têm algumas exigências. A primeira delas é que sempre há um fator neutralizador, ou seja, algo que pode nos impedir de usá-la livremente. Outra condição é que nossa aparência precisa mudar de alguma forma quando a ativamos, que é a razão para que meu cabelo mude de cor.
— Não acho que seja ridículo — brinquei — Você fica charmoso com o cabelo platinado, Hiro.
Ian soltou uma risada rápida.
— Ian, urusai. — Hiro repreendeu, usando a mesma palavra de antes.
"Um dia ainda consigo um dicionário japonês" pensei.
— Ah — falei, lembrando de mais uma pergunta — Você disse que é filho de Hefesto, Hiro, e Matt falou algo sobre isso também. Mas achei que fosse irmão de...
O olhar de Ian me disse desesperadamente para parar por aí e eu não consegui completar a pergunta. Ele balançou a cabeça discretamente, indicando que deveria encerrar o assunto. Isso só ativou mais minha curiosidade, mas, ao ver o rosto sério de Hiro, decidi seguir o concelho de Ian e mudei de assunto:
— Quer saber? Esquece. — falei rapidamente — O que eu queria mesmo saber é se eu poderia chamar Pandora de volta agora.
Vi os ombros de Ian relaxarem e ele pegou uma garrafa de água em sua mochila, bebendo o líquido. Os arranhões em sua pele cicatrizaram.
— Não sabemos sobre os outros. É melhor esperar.
Concordei, apesar da tentação de montar.
Caminhamos por mais alguns quarteirões até Hiro dizer que havíamos chegado. Matt, Kess e Charlotte já estavam lá.
— Lotte — Ian chamou e caminhou até ela.
A garota se virou para nós, e eu estreitei os olhos.
— O que é aquilo...?
Ela estava segurando um bastão de Prata com uma lâmina em formato de foice em cada uma das extremidades, apontando para direções opostas. A arma como um todo tinha quase a altura de sua dona, o que me fez perguntar como ela conseguia manejar aquilo.
— É a arma de Tori-chan. — Hiro disse — Legal, não é?
— É enorme. — comentei — Deve ser difícil de usar.
— É encantada para ajustar o tamanho. — ele respondeu — Pode medir até um metro, em seu tamanho mínimo.
Arregalei os olhos.
— Pelos deuses, onde vocês arranjam coisas tão legais?
Ele riu, o que quase me fez derreter de alívio. Aquela expressão que fizera quando comentei sobre Hefesto era algo que eu não queria ver por muito tempo.
— Temos nossos meios.
— Onde está Izumi-chan? — Charlotte perguntou quando nos aproximamos.
— Aqui. — uma voz atrás de nós respondeu eu dei um salto.
Izumi surgiu da sombra de uma árvore plantada na calçada ao nosso lado.
— Desculpe, May-san. — ela sorriu — Te assustei?
Fiz um gesto.
— Só estou me acostumando com essas habilidades loucas de vocês.
Ela riu e então me observou por um segundo, notando os arranhões espalhados por meus braços e rosto. Eu sabia que eles não durariam muito, mas ela pareceu preocupada.
— Está com algum ferimento sério? Teve uma luta difícil?
— Estou bem. Não foi tão ruim.
— Para uma novata. — Ian acrescentou.
— Vai arrumar o que fazer, garoto. — rebati.
— Você se arriscou de mais. — ele reclamou — Por sua causa Hiro teve que descarregar boa parte da energia dele.
— Ah, eu sinto muito! — falei — Mas eu poderia ter saído daquela sozinha.
— Ah, jura? É, talvez você tivesse conseguido a tempo do Julgamento no Mundo dos Mortos.
— Sinceramente, guarde os seus comentários para você antes que eu...
Minha voz morreu assim que meus olhos registraram o nome da rua escrito na placa atrás dele.
— Antes que você o que? — Ian continuou provocando, mas não consegui me mover, meus olhos cravados nas letras.
— May? — Matt chamou — Tudo bem?
"Nunca ande por ali, filha. É perigoso, entendeu?" A fala do meu pai ecoou em minha mente, com as inúmeras vezes que ele havia repetido que eu devia evitar aquela área a todo custo. Eu nunca havia desobedecido àquela ordem e, como consequência, não estava familiarizada com aquelas ruas que sempre estiveram tão próximas... Se estávamos ali... Então isso significava...?
Encarei a placa, com o coração acelerado e os pensamentos correndo, frenéticos. Impossível. Como eu não percebi...? Revisei em minha mente a lembrança de Izumi apontando o local no mapa. Não havia dúvidas.
Como eu não percebi?
Talvez tenha sido a falta de atenção, ou o fato de eu ter estado tão ansiosa, ou mesmo o fato de logo em seguida termos focado no covil dos Ciclopes, deixando-me sem tempo para pensar. Talvez eu estivesse repetindo o erro de não prestar atenção aos detalhes mais importantes...
"Por que estamos aqui?"
A resposta era simples, mas eu não podia aceitar.
— Por que... — o sussurro escapou de meus lábios.
Ian deixou sua posição ofensiva cair e se virou para olhar para a placa.
— Ah... — eu o ouvi dizer.
Antes que eu me desse conta, uma lágrima silenciosa abria caminho por minha face. Incapaz de conter o impulso, virei na direção que seguiríamos e corri pela rua em um passo desajeitado.
— May, espere! — ouvi Matt chamar, mas continuei a correr naquela direção.
E só parei quando estava de frente para a minha casa.
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