À Espada Pelo Sangue
59 Capítulo 48 - Perco Uma Aposta
Notas iniciais
O plano não era complicado.
Hiro havia invadido a rede eléctrica da delegacia, e aguardava, no hotel, pelo sinal de Izumi para derrubar a energia do prédio. Nesse momento, Alicia derrubaria demônios do lado de fora, nós desceríamos até o teto da delegacia usando um cabo em estilo tirolesa, e então entraríamos. Eu, Matthew e Ian estávamos encarregados de encontrar Kess. Alicia e Izumi eram as distrações, e a líder chamaria atenção em solo, atraindo os inimigos para fora enquanto procurávamos lá dentro.
Só que...
Claro que as coisas dariam errado em algum ponto.
— Ele está perto. — Matthew disse logo após minha fala com Ian — O suficiente para eu já conseguir ativar a Habilidade. Mas o sinto fraco... Deve estar machucado ou algo assim.
Izumi assentiu.
— Ótimo. Isso quer dizer que você poderá lutar em sua melhor capacidade, e também que ele saberá que estamos chegando. — ela olhou para nós e levou a mão ao comunicador em sua orelha — Hiro, pode começar.
— Hai, Nee-san.
Alicia, ao meu lado, tirou a alça da sniper do ombro e caminhou até a borda do prédio, em seguida segurando a arma em posição de tiro. Alguns segundos depois, toda a delegacia se apagou, com um som grave.
Foi instantâneo. Assim que Hiro cumpriu sua parte, Alicia disparou a primeira vez.
Seus olhos intensos, bem abertos, nem chegavam perto da mira da arma, e seu rosto exibia uma expressão serena. E o cabelo dela... Estava mudando para roxo, o que me fez erguer as sobrancelhas.
— Mas que diabos...
Dois, três, quatro corpos atingidos em um espaço de dez segundos, enquanto ela sussurrava as palavras da magia de absorção. "Deuses... Que poder insano!" Pensei.
— Izumi, sua hora. — Matthew avisou.
Lembrei que ele havia citado que a habilidade de Alicia só funcionava por dez segundos, e então precisava de um minuto para se ativar novamente. Nesse momento, ela usava a mira da arma, ao invés de seus Olhos de Águia.
Izumi foi se mesclando às sombras até desaparecer e, alguns segundos depois, reapareceu lá embaixo, já sacando sua Katana. Ela a brandiu e partiu para cima dos outros que haviam restado, enquanto outros saíam de dentro do prédio para ver o que estava acontecendo.
— Vamos. — Matt chamou, e eu e Ian assentimos.
Um por um, posicionamos as mãos na tirolesa e descemos até o terraço mais baixo. Senti o frio na barriga quando chegou a minha vez, mesmo depois de avistar Ian e Matt prontos a me ajudar a descer do outro lado, e por um segundo fechei os olhos de medo. Foi o meu erro.
Atrapalhou os meus cálculos de pouso. Quando meus pés tocaram o chão, pisei em falso, mas soltei as mãos antes de firmar os passos. Senti meu corpo oscilar, e então me vi caindo, rumo ao chão, seis andares abaixo.
Berrei em desespero, apertando os olhos com força enquanto meus braços se agitavam descontroladamente no ar. Menos de um segundo depois, senti alguém agarrar minha mão e então um abraço contra o meu corpo. Uma ventania fortíssima veio de baixo e o impacto foi mais macio do que eu esperava.
Quando abri os olhos, vi quem havia pulado para me proteger. Com o corpo servindo de proteção para o meu, estava Ian.
— I-ian?! — sussurrei.
Apesar de não ter me machucado seriamente, minha voz ainda custava a sair, e era difícil respirar ou me mover, meus músculos ainda congelados de pavor. Já Ian permaneceu com olhos fechados, aparentemente desacordado, mas ainda me envolvendo com força. Comecei a entrar em desespero com a possibilidade de ele estar morto. Apressada, encostei meu ouvido em seu nariz, verificando se estava respirando.
— O que está fazendo? — a voz dele soou e eu quase morri de susto.
Afastei o rosto depressa e me deparei com seus olhos bem abertos. Alívio percorreu todo o meu corpo.
— Graças aos deuses! — suspirei, inconscientemente encostando a testa em seu peito — Por um momento pensei que estivesse morto.
Ele tirou do meu corpo os braços, que ainda me apertavam, e disse baixinho:
— Bom, morto ainda não, mas se continuar em cima de mim desse jeito, vou começar a ter problemas para respirar.
Sobressaltada, eu me dei conta da situação, e nós nós encaramos por alguns segundos, eu com os olhos arregalados, Ian com o rosto corado. Rapidamente voltei a mim e me apressei para ficar de pé sobre a grama, em seguida estendendo a mão para lhe ajudar a levantar e sacando Prostátida.
Assim que ele levantou, vi um corpo possuído correr em nossa direção, e, puxando Ian para trás de mim, brandi a espada e passei a lâmina pelas pernas, levando-o ao chão, em seguida posicionando minha espada no lugar certo para o feitiço.
— Ei! Vocês estão bem? — a voz de Matthew soou de cima do prédio e eu ergui o olhar para vê-lo, presumindo que a ventania que amortecera nossa queda havia sido graças à ativação do seu poder.
— Estamos! — gritei de volta — Siga com o plano! Nós nos encontramos lá dentro!
Eu não sabia se ele era capaz de me ouvir, mas pareceu entender o que eu disse, e sumiu de nossas vistas. Eu e Ian nos encaramos e assentimos um para o outro, combinando sem palavras como agir.
Ele tomou a dianteira, correndo comigo em seu encalço e tirando mais dois inimigos do caminho e nós nos esgueiramos até a entrada da delegacia, colados à parede.
Levei a mão à orelha, tocando o comunicador.
— Izumi, precisamos de uma ajuda aqui na entrada! — chamei, e, dois segundos depois ela se materializava ao meu lado, em seguida avançando e abrindo o caminho para que eu e Ian alcançássemos as escadas para o primeiro andar.
O prédio estava escuro, devido à falta de energia, e eu precisei piscar algumas vezes para enxergar. Mesmo assim, havia muito barulho vindo dos andares onde estavam as celas, com os presos gritando e batendo nas grades. Comecei a me perguntar se Kess estaria com eles ou em algum outro lugar, enquanto fazia meus pés correrem rápidos pela sala repleta de computadores e divisórias para áreas de trabalho estreitas. Estava vazia, já que não havia energia e todo o prédio estava em alerta, o que nos dava mais liberdade para fazer o que precisávamos. Corremos de porta em porta, entrando com pressa nas salas.
Cheguei à última delas, e rodei a maçaneta, escancarando-a de vez. Dei de cara com mais uma sala de reuniões vazia, com uma mesa de madeira grande. Mas, nessa, as cadeiras estavam espalhadas e papéis foram deixados sobre a mesa. E, junto a eles, haviam espadas, adagas e arcos. Arregalando os olhos, adentrei na sala e observei os papéis mais de perto.
Red Missions, dizia uma das pastas, que eu abri.
— Novata? — a voz de Ian me fez dar um salto — O que achou aí?
Virei para ele.
— Eu não tenho certeza. — falei e ergui a pasta para ele, que fez uma expressão sombria ao ler o título.
Ele deu meia volta.
— Vamos, precisamos encontrar Kess o quanto antes, para finalmente darmos o fora dessa cidade.
Apressada, tirei de dentro da pasta os papéis e dobrei-os, em seguida metendo-os no bolso da calça. Nós dois corremos para o próximo andar, onde havia um vestiário com armários e a sala de armas. Assim que chegamos, demos de cara com três pessoas e eu me preparei para avançar, até notar que seus olhos estavam normais, indicando que eram apenas mortais comuns, e não hospedeiros. Abaixei a espada, enquanto os três — dois homens e uma mulher — se viravam para nos fitar, sobressaltados, já apontando para nós as suas armas.
— Mãos para cima! — gritou um deles, e eu obedeci, assustada.
Ian se apressou, estralando os dedos em um som que ecoou por todo o andar.
— Nós somos apenas seus colegas. — ele disse calmamente, num tom que me fez lembrar os truques Jedi do filme Star Wars — Vocês precisam nos deixar passar.
Eles levaram dois, três segundos antes de finalmente abaixarem as armas e nos darem passagem.
Relaxei, percebendo que aquilo era manipulação da Névoa, e então tive uma ideia. Virei para os três.
— Onde está o garoto? — perguntei — O que foi trazido ontem.
Eles se encararam confusos por um instante, até que a mulher informou:
— Provavelmente estava a caminho do carro para ser transferido quando a energia caiu.
Eu e Ian trocamos um olhar.
— Droga.
— Saiam logo daí.— Matthew ordenou, enquanto nós ouvíamos os sons de sua batalha pelo comunicador — Se já saíram com ele, ainda estão muito perto, pois ainda posso sentir sua presença. Procurem no estacionamento e nas ruas ao redor.
— Entendido. — respondi, com as costas coladas às de Ian, enquanto encarávamos seis oponentes, que vinham nos cercando pelos flancos. Ele me lançou um olhar por cima do ombro.
— Fazemos? — perguntou.
— Tem certeza de que consegue? — devolvi.
— Cala a boca e se agarra em mim. — ele respondeu.
Sorri, e nós avançamos. Defendi uma investida de espada, fazendo a outra lâmina correr pela minha e chutando as costas do oponente, sem me importar em fazer o feitiço. Tínhamos que sair dali o quanto antes. O segundo que veio até mim foi atingido no estômago e cortado ao meio. Nesse momento, Ian e eu já alcançávamos a janela. Eu a abri, enquanto o garoto dava cabo de mais um inimigo, e então ele assentiu para mim. Agarrei seu pescoço com uma mão, e ele passou o braço por minha cintura, subimos na janela e... Pulamos.
Rapidamente a fonte de água que havia alguns metros abaixo, no chão, explodiu, com a água se erguendo no ar para nos receber, e nos pousando no chão com um impacto diminuído. Pensei que, se até aquele dia ainda restara em mim algum medo de altura, havia sumido com aqueles dois mergulhos rumo ao chão, em um espaço tão curto de tempo.
Mal firmei os pés, e já precisava me defender de uma lança. Eu sinceramente detestava aquela arma.
Desviei para a esquerda, meio desajeitada, e senti a ponta raspar na pele do meu braço. A lança fez uma curva, e desferiu um arco horizontal rumo ao meu pescoço. Atirei-me ao chão, rolando e erguendo meu corpo próximo ao demônio, rapidamente enfiando minha espada em seu lado e recitando o feitiço.
Senti minha respiração ficar mais ofegante, e desviei o olhar para Ian, que girava sua espada ao enfrentar dois ao mesmo tempo. Cheguei por trás do mais próximo e usei Prostátida em um movimento de decapitação, derrotando-o ao mesmo tempo que o garoto acabava com o segundo inimigo.
Ele olhou para mim.
— De nada. — debochei.
Ele jogou a espada com um movimento rápido, e ela passou zunindo à minha direita, fincando-se em um corpo um pouco atrás de mim.
— E, com isso, é a terceira vez que venço a nossa aposta. — ele declarou, caminhando até a arma e a tirando do corpo depois de realizar o feitiço.
— Terceira? — perguntei, enquanto chutava a cabeça de mais um demônio e o cortava ao meio com um movimento de Prostátida.
Ele fez a água da fonte varrer mais três inimigos para longe, prendendo-os contra o muro ao transformá-la em gelo.
— Primeira: meu aviso salvou o seu pescoço lá na prisão. — respondeu — Segunda: pulei de um prédio, lembra? Aliás, você deveria ter prestado mais atenção naquela hora, baka.
— Urusai. — devolvi.
— De nada. — ele imitou meu tom de voz, e eu revirei os olhos.
Levei a mão ao comunicador.
— Alicia, pode abrir o caminho para nós? — falei — Precisamos chegar ao estacionamento, do outro lado.
— Verstanden*! - ela respondeu. Não fazia ideia do que significava, mas deduzi que podia contar com sua cobertura.
Ian e eu corremos, e cada oponente que surgia era derrubado antes mesmo que pudéssemos alcançá-los. Depois de dez segundos, imaginei que a precisão dela diminuiria, mas a diferença era mínima. Perguntei-me o quanto ela havia treinado para chegar àquele nível. Chegamos ao estacionamento, e vimos, em meio aos outros carros, uma van escura, com as portas abertas. Sendo colocado lá dentro, amordaçado e ferido, estava Kess.
Senti a raiva tomar conta de mim e relaxei o aperto no cabo de Prostátida, antes de, com a lâmina riscando o chão, avançar contra os sete demônios que se encontravam ali. Ian vinha ao meu lado, o semblante como sempre concentrado antes das lutas.
Interceptei o mais próximo, que havia erguido a perna em um chute contra mim, levantando a mão e segurando seu pé. Sem lhe dar a mínima chance, atravessei seu corpo com minha espada, e parti para o próximo. Rolei no chão para evitar uma flecha que fora apontada para mim, e tentei imitar o movimento de Ian ao lançar minha espada em direção ao hospedeiro, mas ele desviou e a lâmina apenas raspou em seu braço, enquanto o mesmo já preparava outra flecha no arco curto.
Desacelerei o tempo, correndo até ele e segurando a flecha antes que ele tivesse a chance de soltar a corda do arco. Arranquei-a do lugar e a finquei em seu abdômen, derrotando-o. Desativei meu poder rapidamente, sem querer forçar-me de novo, e voltei-me para o terceiro inimigo, mas a lâmina de Ian o atravessou antes que eu pudesse fazer algo. Ele derrubou o corpo, abrindo minha visão para ele, e então me estendeu Prostádita. Segurei o cabo e agradeci com um aceno, em seguida posicionando minhas costas contra as dele, enquanto mais três inimigos se juntavam aos três que haviam restado.
— Você bem que podia prendê-los com gelo, não é? — reclamei.
— E você bem que podia acabar com todos desacelerando o tempo, não é? — Ian devolveu.
Bufei, mas acabei sorrindo. Essas alfinetadas um no outro ajudavam a jogar fora o nervosismo da batalha, restando apenas a tensão saudável que mantinha os sentidos alerta.
— May? — a voz que me alcançou dissolveu meu sorriso, e eu girei a cabeça, procurando a fonte dela, até dar de cara com uma Mensagem de Íris a alguns metros, onde se via Michael.
— Novata! — Ian alertou, e eu defendi, desajeitada, de uma investida de espada, o que fez minha mão sentir um impacto doloroso.
— Ah, droga. — murmurei, e então ativei minha Habilidade.
Desferi um arco mortal contra o inimigo à minha frente, logo correndo para o próximo e derrubando-o com um chute giratório que o fez deixar cair o cano de ferro de carregava como arma. Enfiei Prostátida em seu flanco e recitei o feitiço o mais rápido que pude, em seguida perfurando um terceiro com estocadas diretas e velozes. O quarto veio a mim antes que eu pudesse vê-lo, atingindo a parte de trás dos meus joelhos e me fazendo perder o equilíbrio, mas apoiei as mãos no chão e girei as pernas no ar, atingindo sua cabeça e derrubando-o. Mais uma vez, posicionei minha lâmina para o feitiço, sentindo minha força diminuir.
Ofegante, desativei minha Habilidade, e pisquei com força, tentando amenizar minha visão já embaçando. "Droga" reclamei mentalmente "Só porque estava voltando ao normal". Ergui o corpo, e lancei a Ian um olhar, que já terminava com o último demônio, e suspirei, grata.
Olhei mais uma vez para onde a Mensagem de Íris estava, vendo um Michael espantado nos encarando, mas resolvi ir até Kess primeiro. Corri até a van, e Ian veio logo atrás, rapidamente removendo sua mordaça e as cordas que prendiam seus braços atrás das costas. O garoto, que eu pensara estar desacordado, abriu os olhos de vez, assustando-me. Estavam um de cada cor.
— Matty. — ele murmurou, levantando-se do banco.
— Ele está bem — respondi, tentando puxá-lo para baixo novamente — Está vindo para cá.
— Não. — ele respondeu, fitando-me intensamente — Ele está cercado lá. Se eu for até ele, nosso poder aumenta e ele será capaz de vencer.
Dito isso, ele saltou para o chão e, com as mãos fechadas ao lado do corpo, fez uma ventania fortíssima começar. Alguns segundos depois, ele foi erguido do chão, e voou até a janela do quarto andar, passando por lá.
Eu e Ian nos encaramos, e então também nos apressamos para fora da van. Com um olhar, concordamos: tínhamos que ir atrás dele. Ian estendeu a mão para o chão e o asfalto estourou, jorrando água para fora das encanações.
Fitei a imagem de Michael, que permanecia ali, com uma expressão pasma.
— Eu te ligo depois! — gritei, enquanto agarrava o pescoço de Ian para subirmos até o quarto andar.
Mas, assim que começamos a subir, todas as janelas daquele andar explodiram, e um corpo foi lançado para fora. Larguei Ian imediatamente, caindo uns dois metros, de pé, e ele fez a água aparar a queda do hospedeiro e depositá-lo no chão, para onde corri e rapidamente preparei o feitiço de absorção. Ao fim, lancei um olhar para a janela. Matthew colocava a cabeça para fora, com uma expressão preocupada.
Fiz um sinal positivo, antes que seu rosto virasse uma massa indefinida aos meus olhos, e me levantei. "Acabou" pensei, aliviada, então virando-me para encarar Michael mais uma vez. Mas a Mensagem de Íris não estava mais ali.
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