À Espada Pelo Sangue
60 Capítulo Extra - A História de Mais Alguém: No Acampamento Meio-Sangue
Notas iniciais
Michael observa, extasiado, enquanto Mayara avança contra quatro inimigos em uma velocidade assombrosa e os derruba facilmente. E, quando ela ergue o rosto para olhá-lo novamente, ele percebe que o brilho intenso que vê ali não lhe é familiar. Desde quando ela é tão forte? A partir de que momento passou a carregar aquela visível sede de batalha no olhar?
Ele nota sua sincronia com o moreno de olhos verdes. É inegável, na visão aguçada e experiente do filho de Apolo, que os dois formam uma dupla perfeita em batalha, reagindo instintivamente aos movimentos um do outro. Aquela cena, na verdade, o faz lembrar de Annabeth e Percy lutando juntos na Guerra contra os Titãs. Só que com uma clara difetença: poder. O casal preferido do Acampamento não pode competir com esses dois nesse sentido. Mayara e o moreno exibem um espetáculo absurdo de habilidades das quais Michael nunca havia ouvido falar. Assim como o garoto de cabelos castanhos que sai voando agora.
— Eu te ligo depois! — Mayara grita para ele, e se apoia no moreno, numa posição muito mais próxima do que Michael gostaria.
Ele lembra do garoto. Fora ele que aparecera em seu sonho na outra noite. E recorda claramente que Mayara havia corrido direto para ele naquele sonho.
Michael balança a cabeça para afastar a pontada de ciúmes e resolve desfazer a Mensagem de Íris, percebendo que aquele não é um bom momento para falar com ela.
— Pronto, Mike? — Shayla o desperta de seus pensamentos.
Ele se vira para encarar a irmã, que está metida em uma armadura de couro, com um arco e uma aljava no ombro e a adaga embainhada na cintura. Michael acaba pensando que não sabe o que é mais surpreendente: se a força de Mayara ou a força de Shayla.
Shay cresceu muito. Desde a saída de Mayara do Acampamento, ela focou firmemente em seu treinamento, e o resultado foi espantoso. Ele sempre soube que ela era especial, mas a garota superou suas expectativas. Sua magia de cura, habilidades com o arco e a adaga, sua vidência, e mesmo uma rara magia de combinação de calor e luz... Ela é um combo perfeito, uma filha de Apolo com basicamente todas as habilidades que se pode herdar do deus. Ela se tornou conhecida como a "garota prodígio" do chalé 7.
O garoto assente, e ela lança um olhar ao arco-íris que ainda se forma na água que jorra da mangueira que irriga a grama do centro de treinamento de tiro com arco.
— Falou com ela? — pergunta.
Michael ergue as sobrancelhas.
Shayla normalmente não toca no assunto "Mayara". Na verdade, quando se trata da amiga, a garota apenas franze o cenho e se aquieta, assumindo um ar pensativo. Quando Mike perguntou o motivo, ela levou minutos antes de responder:
— Ela está mudando. E eu não sei mais se ainda a conheço tão bem quanto costumava. Isso me assusta. Então estou apenas evitando a dor.
Isso fez com que Mike assumisse para si a regra de não mencionar a filha de Atena por conta própria na frente da irmã.
— Eu liguei numa hora ruim. — ele explica, respondendo à pergunta — Ela está em meio a uma batalha agora.
Shayla assente.
— Mas... Ela está...
— Bem. — o outro responde, já sabendo qual a preocupação — Ela está bem. E incrivelmente forte, poderosa de um modo assustador.
Ele faz uma pausa e lhe olha.
— Talvez você esteja certa. — suspira — Acho que ela não é a mesma May que deixou o Acampamento. Tem um brilho diferente no olhar, uma confiança e firmeza...
A garota o fita por alguns instantes e assente novamente. Michael não gosta da preocupação em seus olhos.
— Mas não acho que isso é ruim, Shay. — ele continua — Ela está ficando mais forte, corajosa. Se você pensar bem, está acontecendo o mesmo com você.
A filha de Apolo não responde por alguns segundos, mas não desvia os olhos. E então afirma:
— Exatamente.
Michael suspira, e resolve deixar o assunto de lado.
— Vamos, garota prodígio. — fala, pegando sua mão — Temos uma barreira mágica para reforçar.
— Vocês precisam me escutar. — uma voz os faz dar um salto, alarmados.
De pé a alguns metros, está Laura, a irmã de Mayara. Ela está com os cabelos claros presos em um rabo de cavalo com um prendedor colorido, uma blusa com unicórnios estampados e uma saia estilo colegial japonês — que Shayla tem certeza de que foi Kyle que deu a ela. O conjunto deixaria sua imagem um tanto infatil, mas os olhos cor de mel e astutos dela os prescrutam de uma forma que os leva a duvidar de sua pouca idade.
— Lau... — Shayla se aproxima dela e apoia as mãos nos joelhos, ficando da altura da menina — Você não devia estar estudando magia de cura com Will e os outros agora?
Ela alterna o olhar entre Shayla e Michael.
— Isso é um aviso. — diz, ignorando a pergunta — Apesar de evitarem falar sobre a May, os destinos de vocês estão entrelaçados. Você — ela aponta para Mike — Você a fará um pedido impossível. — ela se vira para Shayla — E ela pedirá a você algo que não conseguirá fazer.
A menina recua alguns passos.
— Talvez vocês pudessem evitar tudo se não fossem visitar a Barreira agora. — continua — Mas então outra vida servirá de preço, esta sem salvação. Prestem atenção: quando a hora chegar, vocês serão testados. Um revelará sua fraqueza e outro revelará sua força. Cuidado com a terra, ela tentará lhe roubar.
Os dois fitam a menina com os olhos arregalados, sem entender o que se passa, mas ela não lhes dá a chance de perguntar. Laura lhes vira as costas, e volta para o chalé 6, onde um Drake preocupado a procura.
Eles permanecem em um silêncio mortal, até que Shayla finalmente consegue dizer:
— Mike... O que foi isso?
O outro nega com a cabeça.
— Nosso destino e o da May.... — ele sente sua mente começar a trabalhar para interpretar as palavras de Laura.
— Entrelaçados. — Shayla entrou no mesmo estado — Isso é algum tipo de profecia?
— Não uma profecia. — Mike diz, fitando-a — Ela disse "um aviso". Nada de versos ou rimas...
— Mas... Ela falou de futuro, não foi? Disse que May me fará um pedido que não conseguirei atender...
Ele foca os próprios pés.
— E eu farei a ela um pedido impossível...? — murmura — Mas...
— Se pudesse pedir algo a ela agora, o que seria, Mike? — sua irmã sonda, curiosa.
Ele leva a mão à nuca, hesitante.
— Eu... Eu não sei. — confessa — Talvez eu pedisse que ela volte logo.
— Então... Esse seria um pedido impossível de ser atendido? — Shayla franze o cenho, também de cabeça baixa.
Michael imita a expressão, de repente ansioso com a situação. Mas o garoto sabe que aquele é um caminho perigoso a se seguir na conversa. Tentar interpretar previsões normalmente não é uma boa ideia, sempre levando a confusões.
— Não sabemos se é mesmo este pedido, Shay. — ele se apressa — Pode ser qualquer outra coisa. Mas vamos deixar isso de lado por enquanto... Não é seguro tomarmos conclusões ainda.
A garota concorda, mas então um pensamento a alcança:
— Acha que... Devemos deixar de ir à barreira...?
Ele fixa o olhar ao dela.
— "Outra vida servirá de preço", foi o que ela disse. — responde.
— "Esta sem salvação" — completa Shay — Isso quer dizer que, seja lá o que está pra acontecer, se for conosco... Há salvação?
— Eu... Acho que sim.
— Mike, Shay! — alguém os interrompe e eles percebem Will se aproximando — O que estão fazendo? Quíron quer que a barreira do Formigueiro seja reforçada ainda hoje, ou não vai rolar o Caça à Bandeira. Têm que ir antes que escureça.
Os dois trocam um olhar tenso, mas acabam concordando silenciosamente: eles precisam ir.
E é com o coração afundado em temores que eles caminham até a floresta, para os arredores do Formigueiro.
Talvez tenha sido o fato de os dois estarem imersos em pensamentos, ou de o ar estar tenso, ou mesmo a simples falta do que dizer, que tenha feito com que a caminhada até a floresta e aos arredores do Formigueiro fosse feita em completo silêncio. De fato, Shayla e Michael não trocaram mais nenhuma palavra até aquele momento, quando tudo começou a dar errado.
E agora Shayla gruda as costas às do irmão, Lámpsi em sua mão e o suor escorrendo por seu rosto.
— Não faça movimentos desnecessários. — Michael sussurra — Não adianta mais correr, elas nos cercaram.
Shayla aperta o cabo de sua adaga com força, sentindo que seu coração está cada vez mais incontrolável.
— O que faremos, Mike? — ela deixa sua voz escapar carregada de seu medo.
— Calma. — ele diz, o que soa como se estivesse entoando. A voz profunda de Michael penetra seus ouvidos e recupera parte de seus sentidos, fazendo-a respirar fundo.
Ela encara a enorme Formiga a alguns metros de si, com suas presas intimidadoras abrindo e fechando com estalidos altos. Há mais quatro delas, rondando os dois, apenas esperando uma abertura para atacar.
Michael continua:
— Primeiro, guarde sua lâmina. — ela obedece — Quando eu mandar correr, corra, entendeu?
Ela franze a testa, pensando que ele havia dito quase agora que correr era inútil.
— Entendeu, Shayla? — reforça, intenso.
Ela acaba assentindo.
— Ótimo.
Ela sente as costas dele desgrudarem das suas, e olha por cima do ombro para vê-lo avançar em lentos passos na direção da Formiga mais próxima. O garoto repidamente desembainha sua espada e a brande diante do monstro, capturando completamente sua atenção. E que atenção assustadora. A Formiga dá o bote, saltando na direção de Mike em conjunto com outras três, que são atraídas pelo brilho da espada do rapaz.
— Mike! — Shayla chama.
— Agora! — grita — Corra, Shayla!
A garota hesita, desesperada, vendo seu irmão ser cercado mais de perto.
— CORRA! — a ordem rugida a faz obedecer, e ela dispara para a floresta, a mente atormentada trabalhando em um jeito de salvar Michael.
Suas pernas se movem à medida que as lágrimas correm seu rosto, e a clareira onde foram encurralados vai sumindo de vista.
"Meu arco" pensa, ofegante, enquanto para no meio do caminho, lembrando que fora por ali que a arma caíra. Ela o avista a alguns metros no chão e corre até lá, abaixando-se para pegá-lo, e já posicionando a aljava nas costas. Mas, quando ergue o corpo e vira para correr de volta, dá de cara com o inseto enorme.
Shayla grita, caindo para trás, enquanto a Formiga se aproxima a passos largos. Ela larga o arco e busca sua adaga, rapidamente se levantando e se preparando para enfrentar o monstro. As garras dele a alcançam, mas ela agilmente desvia para a esquerda, e finca Lámpsi numa fenda da armadura natural da Formiga, como foi instruída várias vezes nos treinamentos. O bicho se contorce, mas o ferimento ainda não foi o suficiente para derrotá-lo.
"Entre os olhos, ou corte as pernas" Shayla relembra enquanto se esquiva das investidas coléricas da Formiga. Ela gira sua adaga na mão, abaixa o corpo para evitar um ataque direto, ficando praticamente logo abaixo da cabeça do montro, e então desfere um arco horizontal que atinge as patas dianteiras, cortando-as fora. O monstro solta um som esganiçado, e começa a cair sobre Shayla, que rola para longe antes que possa ser esmagada. Ela se recupera e volta a atacar antes que a Formiga tenha chances, cravando sua lâmina entre os olhos da criatura e segurando firme até que o corpo comece a se desfazer em pó.
E então se preprara para correr de volta para Michael.
Shayla grita, caindo de joelhos e jorrando para fora de si todo o seu poder. Uma redoma de energia protege seu corpo e o de Michael, que está imóvel no chão, enquanto tudo do lado de fora é alcançado por um calor brutal, como se o próprio Sol visitasse a clareira. Formigas, grama e o próprio Formigueiro ardem em chamas e tudo começa a vir abaixo, varrendo os montros e qualquer perigo. Mas, talvez, já seja tarde de mais.
Shay sente sua garganta começar a queimar, suas forças se esvaindo e seu próprio corpo se esgotando.
Ela se deixa cair no chão, a redoma se desfazendo e tudo ao redor de seu círculo protegido transformado em cinzas. Com dificuldade, ela lança um olhar a Michael justamente no momento em que o peito de seu irmão exprime para fora um último suspiro dolorido, a agonia estampada em seu rosto ensaguentado agora se esvaindo e dando lugar a uma expressão vidrada e sem vida. Morto.
— Não — ela balbucia, tomada de um desespero avassalador — Não, Mike....
Shayla sente lágrimas dolorosas escorrerem por seu rosto, mas estica o braço da melhor forma possível, até tocar os dedos estendidos de Michael.
Ela sente a luz do Sol sobre si, sente o coração pulsar mais lenta e pesadamente, sente os pêlos da nuca se eriçarem e as mãos formigarem, com as pontas dos dedos ardendo em contato com os de seu irmão. Com um sussurro angustiado, diz em grego palavras que lhe fluem:
— "Cure e Preserve. Tome o necessário, meu próprio sopro".
E então, vendo uma luz forte se alastrar ao redor dos dois, Shayla é tragada pela inconsciência.
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