Winter: Fairy Tale
Winter: Fairy Tale
Capítulo 110 min de leitura

Capítulo Único

O outono se transformou em inverno. Inverno em primavera. Primavera em verão. E por fim, era outono novamente.

Sem que eu percebesse, lá se foram dez anos da minha vida. Esperando naquele mesmo lugar por uma promessa que deveria ser coberta pelas folhas secas que se acumulavam no chão do parque Hyde.

O vento frio do outono inglês balançando meu cabelo, loiro, que caia até pouco acima da cintura, preparava as árvores para o inverno.

De certa forma, tudo aquilo me lembrava daquele dia. Daquela promessa.

— Estúpida.

Os olhos azuis, mais brilhantes do que o normal, já não conseguiam segurar as lágrimas. Mesmo que não houvesse mais motivos para chorar.

Afinal, foram dez anos. Tanto tempo de uma promessa idiota que ele, provavelmente, já se esquecera. Mas também, fora a promessa que me deu um motivo para viver.

Eu me perguntava se esse era o motivo de me segurar tanto a uma coisa tão boba assim. Talvez fosse. Meus pensamentos sobre isso cessaram anos atrás. De fato, vir ao Hyde acabara como mais uma rotina para mim, Sophie.

Sophie Kreuz, esse era o meu nome. Eu era a sábia sem sabedoria, mas ao menos meu sobrenome se adequava perfeitamente à minha vida: Eu não conhecia ninguém que carregasse uma cruz tão pesada quanto a minha; E mesmo que conhecesse, meu egoísmo não me permitiria reconhecer.

Meus olhos foram fechados para este mundo. Há muito, muito tempo atrás. No dia daquela promessa. É estranho pensar que a mesma coisa que me dera um motivo para viver tenha me tornado assim.

Todos sabiam que esses olhos azul-índigo estavam muito longe. Tão longe, que não era possível voltar mais.

E mesmo assim, eles ainda mostravam o sofrimento aprisionado dentro de mim. Coberto por sorrisos falsos que tentavam enganar a mim mesma.

— Ele não veio.

Meus dedos brancos, de tanto pressionar a saia, não doíam mais. Tudo o que restava era aquela sensação de formigamento.

Era hora de dar adeus ao Hyde. Por hoje. Amanhã minha rotina continuaria. E depois de amanhã. E depois de depois de amanhã. E depois...

Eu mordi o lábio inferior com força. O sangue, que não circulava nos meus dedos por algum tempo, descia pelo queixo pálido e pingava no cachecol.

Estava cansada disso. Dessa rotina. De esperar em vão por alguém que eu sabia que nunca viria.

— Amanhã...

Embora minha mente não aceitasse a verdade.

Afinal, ele viria... amanhã, não é?

Eu tinha certeza que sim. Ele prometera, afinal.

Ainda me lembro das palavras que disse, neste mesmo banco, embaixo desta mesma árvore. Estava nevando aquele dia, o longo cabelo negro dele descia até um pouco abaixo de seus ombros, largos, fortes. Ele era quase um Deus grego. O meu Deus grego.

— Amanhã. Poderia me encontrar aqui amanhã? Eu... queria te dar um presente — Foram as palavras dele, Andrew.

Ditas entre sorrisos inocentes e, de certa forma, tímidos.

Ele... nunca quebraria uma promessa...

———ooo———

Aquele era um dos invernos mais frios que presenciara em todo o meu tempo na Inglaterra. Talvez muita coisa tenha mudado nesses últimos anos. De fato, desde que saí do aeroporto, tenho a impressão de que os invernos se tornaram mais rigorosos. Ou talvez fosse meu corpo, agora fraco, que não agüentava mais o clima britânico.

O táxi continuava seu trajeto pela Victoria Embankment. Alguns minutos mais e estaríamos em Hasker Street, Kensington. A rua onde ela morava. Com suas casinhas ao estilo vitoriano.

Ela adorava aquele lugar. Da última vez que nos vimos, ela ainda morava com sua irmã mais velha, Laura.

Perguntava-me se elas ainda moravam juntas. Provável que não, já que Laura estava noiva quando saí da Inglaterra. Mas ela continuaria lá, eu sei. Ela não largaria aquela casa. Ou as lembranças que tinha ali.

Nunca consegui entender o porquê. As lembranças daquela casa não eram muito agradáveis para alguém desejar tanto protegê-las. Afinal, a mãe dela fora assassinada à sua frente quando ainda era criança. Depois veio o suicídio do pai, que não agüentava mais a pressão do mundo sobre ele. Tudo acontecera ali, naquela casa.

E mesmo assim, ela queria proteger aquelas memórias. Ou talvez, ela estivesse tentando fugir de alguma outra coisa presa a elas. Ela nunca falou sobre o assunto.

Meu olhar, que oscilava entre a janela e o painel do carro, finalmente recaiu sobre o retrovisor. Tinha um certo receio — medo até, — de me olhar no espelho agora. O rosto pálido e magro com o olhar negro e, de certa forma, vazio, beirando a morte. A cabeça coberta por nada mais do que a toca que comprei assim que saí do hospital, em Paris.

O câncer consumira todo meu cabelo, toda a minha vida. Talvez a única coisa que sobrara fora o resquício desse amor do passado, dessa promessa que deveria ser esquecida.

E era esse o motivo de estar em Londres novamente. Para ver a alemã que um dia fizera meu coração bater mais rápido. A garota que me dera um motivo para encarar a doença, ao invés de fugir de mim mesmo.

Sophie Kreuz se tornara quase uma santa para mim. Em contrapartida, eu não sei se ela vai me perdoar. No fim, eu era o garoto que fugiu, sem cumprir sua promessa. O garoto que a abandonou.

— Chegamos — a voz do taxista me trouxe de volta à realidade. — São 25 euros.

Paguei-o e desci do carro. Como Hasker Street era uma rua exclusivamente residencial, ele não conseguiu estacionar em frente à casa de Sophie. Não que eu me importasse de andar um pouco, não estava com pressa. Mas meus ossos pareciam congelar com aquele clima.

Fiquei parado por algum tempo, observando a fachada típica da região — Kensington, — antes de tocar a campainha.

Ninguém veio.

Repeti a mesma coisa. Nada. Perdi a conta de quanto tempo fiquei ali. De quantas vezes toquei a campainha. O carro da irmã dela — ao menos na época em que ainda morava em Londres, — estava estacionado à frente da casa, mas ao que aparentava, não havia ninguém em casa.

— Droga — mordi o lábio inferior sem perceber. E me arrependi disso depois.

Meu corpo realmente se enfraquecera depois de todas aquelas sessões de quimioterapia. Depois de todos aqueles remédios e nenhuma comida saudável — os médicos diriam o contrário, mas eu achava carne vermelha saudável.

Pensei em ligar para ela. Mas não tinha seu número. Pensei em ligar para a irmã dela também, mas o único número que achei na agenda do celular fora o daquela casa.

— Droga. Droga. Droga — chutei o chão. E me arrependi disso depois. — Droga Sophie, por quê?

Estava colocando a culpa nela, mesmo que não fosse. Afinal, uma mentira era mais doce do que uma verdade, não? Talvez por isso aquela promessa fora tão boa.

— Poderia me encontrar aqui amanhã? — eu murmurei, rindo.

Minha viajem já estava marcada para aquela noite. Passagens compradas, bagagem arrumada. Tudo pronto para minha nova vida — se é que aquela tortura no hospital por tantos anos pudesse ser chamada de vida.

Eu só não queria acreditar que não nos veríamos mais.

Alguma coisa salgada nos meus lábios. Lágrimas. Eu não estava chorando, as lágrimas apenas desciam enquanto eu caminhava pela Hasker Street. Não sentia mais o frio. Não sentia mais nada.

Minha cabeça estava ocupada apenas com ela.

E foi então que lembrei. Como não pude lembrar antes? Prometemos nos encontrar no Hyde, não foi? Ela... estaria lá, esperando por mim.

Eu sabia que ela não estaria. Afinal, foram dez anos. Ninguém em sã consciência esperaria por alguém por dez anos. Não por uma promessa idiota como aquela.

Mas minhas pernas se moviam por vontade própria, na direção do parque.

— Eu deveria pegar um táxi. — murmurei, mas minhas pernas não concordaram. Eu merecia aquela tortura.

Costumávamos andar da Hasker Street até o parque Hyde. Era divertido. Contávamos piadas, conversávamos sobre coisas triviais, fazíamos planos. Mas agora eu era uma pessoa quase consumida pelo câncer, alguém que mal conseguia andar direito. E era inverno!

Meu corpo não concordava com minha razão. Perguntava-me se era masoquista, mesmo sem saber. Não havia outra explicação para aquilo. Ou ao menos, não uma aceita pela minha razão.

Quase uma hora depois, eu estava lá, no Hyde. Era patético o tempo que eu levei para andar dois quilômetros.

Mas tudo aquilo saiu da minha mente quando a vi. O sorriso amarelo quase não coube no rosto quando vi Sophie deitada no banco. Ela parecia dormir como um anjo, provavelmente me esperando.

Aproximei-me para tocá-la.

Não. Minhas pernas não se moviam. Sentia um peso no meu coração. Minha razão finalmente vencera: nenhuma moradora do Kensington estaria dormindo em um dos bancos do Hyde. Ao menos não em um inverno como esse.

Sophie não usava um casaco, nem um cachecol, ou luvas. Ela simplesmente estava ali, com a neve sobre o corpo dela. Sua pele parecia um pouco azul. Definitivamente estava um pouco azul.

E ela não se mexia. Não que eu esperasse alguém dormindo se mexer tanto. Mas ela não parecia nem respirar.

Engoli seco, e finalmente minhas pernas se moveram.

Minhas suspeitas se confirmaram quando toquei seu rosto. Estava gelado. Talvez ainda mais do que a neve que caia agora. Ela não estava respirando, não tinha pulso.

— Não...

Pensei em deixar meu corpo cair por ali mesmo. Mas ele não me obedeceu. Estava desafiando minha razão de novo. Meu coração se impondo sobre mim.

— Ela dorme como um anjo — Sorri. Aquele mesmo sorriso que não cabia no rosto.

E foi aquela palavra que me lembrou, o porquê dela proteger tanto aquelas memórias, o porquê dela gostar tanto daquela casa. Ela me disse uma vez, quando nos encontramos, por trás daquele sorriso falso que escondia todas as feridas que nunca iriam cicatrizar.

— Você... é o meu anjo, sabia? Eu nunca vou esquecer do dia em que sorriu para mim, o dia em que me encheu de vida novamente.

Fora ali, na Hasker. Estava saindo da casa de um amigo e me encontrei com ela por acaso. Ou talvez destino. Ultimamente tenho acreditado nessas coisas estúpidas.

Balancei a cabeça e, depois de tirar toda aquela neve acumulada sobre Sophie, tirei o casaco e a cobri. Não podia deixar que ela pegasse um resfriado. Céus, eu nunca deixaria algo assim acontecer.

E então, resolvi tirar o cachecol e enrolar em seu pescoço, desnudo. Não entendia como ela podia usar uma blusa daquelas em pleno inverno britânico. Sentia frio só de olhar para ela.

Mas agora ela parecia melhor.

Sorri. E então decidi dar-lhe o presente que prometera. Um anel, de noivado. Certamente a esperaria acordar para fazer a proposta, mas queria ver como ficaria no dedo dela, naquele momento.

Lindo. O anel se adequava perfeitamente a ela. Talvez até a complementasse.

Devo dizer que me perdi do mundo, olhando-a assim. Mas foi só por um tempo, lembrei que ela não poderia deitar no banco frio. Odiei-me por não ter percebido isso antes, mas me sentei e coloquei a cabeça dela sobre meu colo.

Por um momento tive a sensação de que ela sorria, de verdade. E então ela voltou àquela expressão angelical. Dormindo calmamente. Sem fazer nenhum barulho.

Tirei a touca. Perguntava-me o que ela diria quando me visse assim, sem os longos fios negros que um dia estiveram ali. Mas balancei a cabeça novamente. Não era hora de pensar nisso.

Por hora, eu só queria estar ao lado dela.

Para sempre...

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