VOCÊ
Ela ainda tinha pesadelos. Mesmo em sua doença, Buffy Summers não conseguia se desviar de seu dever, pois em sua mente, vez ou outra os monstros teimavam em incomodá-la. Quando a diagnosticaram com Alzheimer, sua irmã e seus amigos imaginaram que seria uma benção, afinal, ela enfim descansaria de seu dever.
Os anos lentamente se passaram, e Buffy esqueceu tudo. Com o tempo, ou sua família e amigos deixaram de visitá-la, ou simplesmente não existiam mais.
Alguns dias eram mais difíceis que outros, pois, apesar de sua situação, ela ainda tinha a força da caçadora, apesar de menos ágil. Os enfermeiros tentavam em vão controlá-la aquela noite, e nem toda a equipe de homens jovens e fortes conseguiam mantê-la na cama.
─Deixem-na. ─A voz masculina veio do meio das sombras, e imediatamente ela se acalmou.
John, um jovem moreno, metido em seu uniforme branco reconheceu o dono daquela voz e mandou que a soltassem. Os homens obedeceram, e colocaram-na sentada na cama. John estendeu a mão à figura.
─É um prazer, senhor Angel. Sempre chega quando mais precisamos.
Angel assentiu, fitando agora uma Buffy muito quieta.
─Como ela está?
─A senhora Summers tem andado agitada. Joga e vira à noite toda. Em certos momentos, pensa que somos monstros. Tenho pena dela e...
─Visitas?
─Oh, não, não. Apenas o senhor.
Os dos homens se encararam um instante, e o silencio logo se instalou entre eles. Angel era um homem estranho, e nunca trocava mais que algumas palavras com a equipe, e sempre aparecia à noite. Se John não recebesse seu “pagamento” extra, ele jamais o deixaria entrar no asilo àquela hora.
─Vou deixar o senhor com sua avó.
─Obrigado. ─Ele disse.
John saiu, levando a equipe com ele.
Quando se encontravam sozinhos, Angel sentou ao lado de Buffy e segurou suas mãos. Quase que instantâneo, o olhar de Buffy mudou e era como se ela o reconhecesse. Angel não sabia explicar, mas ela se lembrava. De todos, ele era o único cuja imagem não foi apagada de sua mente. Com ele, Buffy voltava a ser ela mesma. Depois de tanto tempo, Angel não decidiu se era uma benção ou maldição que ela o reconhecesse. Talvez ambos.
─Os monstros querem me manter aqui. ─Ela disse.
─Os enfermeiros não são monstros, Buffy, e você precisa ficar aqui para seu bem.
─Onde estão os outros?
─Mortos... Resta apenas nós... ─Doeu-lhe aquela afirmação, contudo, Angel sabia que não esconderia nada de Buffy, mesmo que ela esquecesse depois.
─Todos eles?
Angel apenas balançou a cabeça. A reação triste de Buffy era a mesma todas as vezes em que ele lhe respondia aquela pergunta. Não agüentando aquele olhar muito tempo, Angel ficou de pé e puxou a mão de Buffy com ele.
─O que acha de darmos um passeio? É uma noite agradável.
Mais que depressa, ela concordou e ambos saíram pelas ruas de mãos dadas, como nos velhos tempos.
Angel levou-a para um parque, onde eles sentaram ao lado de uma fonte. Buffy tocou a água fria, distraída com a sensação contra sua pele. De repente, seu olhar se tornou frio e duro, e ela encarou o vampiro.
─Sinto como se eu não me lembrasse de nada.
─É normal, Buffy. Sua... doença...
─Se não me lembro, como saberei quem sou eu?
─Você continuará sendo você. ─Fez uma pausa, e olhou para o céu estrelado. ─Todas as noites, eu olho para cima e lembro de você, de nós... Para mim, não importa que não se lembre, seu legado será mantido em nossos corações.
─Como pode, se todos que eu conheci se foram?
Angel deu um leve sorriso e puxou Buffy para seu ombro.
─Porque você é inesquecível, Buffy Summers.
─Obrigada, Angel.
Buffy se encaixou melhor no peito de Angel, e juntos observaram os pontos luminosos no céu.
Como o dia amanhecia, Angel sabia que era hora de devolvê-la à sua dura realidade.
Deixou-a no cubículo que resumia à sua nova casa e esperou que adormecesse. Era sua promessa que ficaria sempre a seu lado. Segurou sua mão, e beijou-lhe.
─Eu ainda te amo. ─Sussurrou.
─E eu nunca vou esquecer você...
