Não vou mentir, após ter matado aquela mulher, senti uma pontada de desespero e medo. O Rei, pai da menina, iria sem dúvidas querer minha cabeça servida em uma bandeja de prata quando soubesse o que havia acontecido à sua filha; e então dois reinos seriam destruídos com a trágica perda de seus herdeiros. Com isso, o legado de ambas as Família Reais não seria passado adiante.
Eu não poderia importar-me menos com o fato. Optei por minha integridade física e mental à integridade do Reino; não fui egoísta e sim lógico. Certamente, eu morreria após fecundar minha esposa – se fosse capaz de realizar tal ato. A falta de afeição que eu tinha àquela mulher resultaria na apatia para com a minha própria criança e por mais frio que eu fosse, eu não poderia dar a essa pequena e inocente criatura uma vida tão infeliz como a minha. Se nascesse menino, aliás, cresceria para se tornar um homem mais viril que seu próprio pai; e eu sentiria inveja de meu próprio filho.
Toda vez que era necessária a minha presença perto de um homem, um misto de inveja e atração tomavam conta do meu ser. Dependendo do tipo de homem, o segundo sentimento era mais forte. Os Bailes Reais eram sempre um pesadelo para mim; primeiro porque eu era obrigado a dançar exclusivamente com mulheres. Elas me enojavam, principalmente porque eu me via espelhado nelas, porém de modo pior: como algo que pendia para o feminino, mas que sempre permanecia no meio de ambos os sexos, uma aberração da natureza. Eu não queria aquilo, eu queria ser um homem viril ou uma mulher feminina. No entanto, era garantida a mim a posição de garoto afeminado ou garota masculina; o rapaz sem barba e a moça sem seios. Voltando à questão dos Bailes, o segundo e, talvez, principal fator que me fazia odiar este tipo de evento era a presença de homens. Eu me vestia como eles, porém nunca seria um. Por vezes, invejei a posição da mulher em uma dança. Queria sentir-me pressionado contra o peito largo e quente de um macho, queria sentir o rude começo de barba roçando contra minha bochecha, queria sentir minha delicada mão sendo esmagada por uma áspera e forte... Mas eu tinha de me contentar observando casais alegremente dançando enquanto eu me movimentava com amargura ignorando meu par feminino. Porém, eu sabia que a partir do momento em que algum homem me tocasse, eu desmoronaria. Não aguentaria o toque, não me permitiria compartilhar de meu defeito com ninguém. Eu morreria ao tocar um homem, assim como morreria ao tocar uma mulher. Estava condenado por todos os lados, não havia escapatória.
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