Two Sins, One Passion
Two Sins, One Passion
Capítulo 213 min de leitura

II - Her vision

20 de novembro

Querido diário,

Fui para a diretoria outra vez. Descobri que foi a Lisa que espalhou pelo colégio tantos contos estúpidos sobre mim. Não agüentei, e descontei toda a minha raiva sobre ela. Acabei quebrando o espelho do banheiro com o impacto. Ela me jogou contra ele, e acabei perfurando meu rosto. Agora estou aqui, de castigo novamente. Não ligo mais para isso, você sabe.

Só estou tentando cumprir todos meus afazeres antes de partir...

Um acidente de carro. Papai foi fechado por um caminhão e acabou indo para a contra mão. Isso foi há três anos atrás. Mamãe entrou em depressão, ficou doente e tentou se matar. Mas depois que ela encontrou a “ele”, parece ter acalmado o espírito.

Essa é a única coisa pela qual eu o agradeço. Tê-la salvo.

Afinal, “ele” é só mais um crápula maldito.

Ah, “ele” é o meu padrasto. Mamãe está junto dele há um ano, mais ou menos. Insuportável.

Apareceu-me com um sorriso lindo estampado no rosto, e apesar de nunca poder substituir papai, talvez ele pudesse ser um bom amigo.

Foi o que pensei.

Não deixa mamãe fazer nada que ela quer, reprime meus estudos, mal me deixa tocar piano... e ousa levantar à mão para mim.

Coisa que papai nunca fez.

Não que eu seja uma garota rebelde. Nunca fui. Pode não parecer, mas eu sempre fui muito tímida. Mal tenho amigos e sempre estou em casa.

Mas como você reagiria diante de situações como as minhas?

Parece que desde que papai morreu, a minha vida tornou-se um inferno completo. Além de Yuki – o nome do meu adorável padrasto –, minhas notas estão tão baixas que talvez terei que repetir de ano. Não consigo mais tocar com leveza, muito menos cantar. As pessoas lá da escola começaram a zombar de mim. E apesar de ter pleno apoio de mamãe e de meus amigos, eu não consigo mais suportar tudo isso.

O que foi que eu fiz?

Por que comigo?

Não consigo achar mais uma razão para viver...

Em meio a tanta turbulência, pensei ter encontrado um motivo para voltar a ter o mesmo sorriso que exalava, e que tantas pessoas me elogiaram por causa dele.

Um garoto da minha sala, chamado Takashi. Enquanto todos estavam contra mim, ele apareceu radiante, com um lindo sorriso, olhos deslumbrantes...

Parecia um anjo...

Sempre me ajudou a estudar, a cumprir as tarefas, a ensaiar – ele toca violão . Saía comigo para os mais divertidos karaokês da cidade...

O que veio disso?

Preciso mesmo perguntar?

Apaixonei-me por ele, em pouco tempo. Quem sabe eu não encontrasse no amor um refúgio pessoal para os meus problemas... e conseguisse contorná-los.

Porém, creio que quanto mais acreditamos em algo, mais nosso olhos cerram-se para a realidade.

Mergulhei em um mundo infantil e hipócrita, e não percebi o quanto estava sendo enganada.

Minhas amigas nunca gostaram muito dele. Brigamos várias vezes por isso. E me arrependo amargamente de tê-las feito chorarem por mim. Mas foi graças a elas que descobri o quanto Takashi era mais um garoto estúpido.

Duas semanas depois de me declarar a ele, descobri que ele era um mulherengo filho da mãe, que aproveitava de garotas inocentes – como eu era – para aumentar sua popularidade.

Algo parecia estar entre mim e ele, desde o começo. Um sentimento de culpa, ou de medo me permeou quando falei com Takashi pela primeira vez. Me parecia mais um pressentimento.

Devia tê-lo seguido...

Percebam, há como minha vida ficar pior?

Podem ter certeza que sim.

Mamãe está grávida. Sim, eu vou ter um irmãozinho. Agora, ela merece todos os cuidados possíveis, e sua atenção está centrada para a nova vida que carrega. Então, raciocinem comigo: estou totalmente a mercê das vontades de Yuki.

Aquele maldito sempre vem com a conversa de que ‘não posso substituir Hiro – papai – jamais, mas quero que nos tornemos amigos’ e coisa e tal, mas o que ele faz para que isso ocorra?

Que droga!

Tenho vontade de gritar, gritar e gritar! Bem alto, para que todos ouçam!

Talvez, a única coisa que possa me acalmar agora é a música.

Tenho um piano em casa – presente de vovó — e toco-o desde que tinha cinco anos. Bom, se vocês se perguntam, eu tenho dezesseis anos. Um bom tempo de prática, não é? Não sou esnobe, mas tenho um prazer imenso em tocar esse instrumento.

Sentada frente a ele, lembranças encharcam minha mente...

- Vamos, Mi-chan! Toque para ouvirmos!

- M-mamãe, eu tenho vergonha!

- E se papai sentar aqui com você, você toca?

- Ah, quem sabe!

- Então toque uma música bem bonita para seu pai ouvir, Mizuho!

Papai tinha um sorriso lindo. Junto à ele, meus medos sumiam completamente.

Até aquela maldita noite de chuva...

Acho que nunca chorei tanto em minha vida.

E ainda continuo a chorar. Sempre, todos os dias...

... sempre sozinha.

23 de novembro

Querido diário,

Essa é uma das últimas vezes que eu escrevo em você. Mas não se preocupe. “No dia”, vou deixar você à mostra, para que alguém possa lê-lo, e entender o por quê de meu ato. Saí com minhas amigas hoje. Elas são minha única companhia agora. Mamãe está muito enjoada por causa da gravidez, então também tive que fazer todos os afazeres de casa. Yuki não me irritou hoje, mas proibiu-me de cantar. Às vezes tenho vontade de socar a cara dele, apesar de que aquele rosto sempre me parece muito triste.

Enfim, não é hora de ter piedade de ninguém.

Não agora.

Pergunto-lhes: o que vocês fariam no meu lugar?

Qual a saída que vocês encontrariam?!

Pois eu não acho nenhuma...

“Aquele que não descobriu pelo que morrer, não é digno de se viver.”

Pois eu não descobri um motivo para agüentar essa angústia...

Esse sofrimento...

A minha saída? Fugir de minha própria vida...

As pessoas tratam o suicídio com tanta naturalidade, não é mesmo? É motivo de piadas até. Todos ficam boquiabertos, questionando-se o por quê de tal pessoa ter privado-se de sua própria vida.

Mas eles não ligam.

Nunca ligam.

Existe até uma lista das formas mais dolorosas para se matar. Cortar os pulsos? Atirar na própria cabeça? Se lançar do alto de um prédio? Oh, lindas possibilidades, não?

Eu pensei em fazer algo discreto, silencioso...

... mas talvez fosse melhor tomar toda a atenção daqueles que, um dia, vivenciaram a minha realidade.

Estão se questionando, não estão? Por que cometer suicídio? Oh não! Tente resolver seus problemas, eles são fáceis! Existem pessoas que te amam, não faça isso!

Existem...?

Ou aparentam existir?

“Pássaros negros estão voando sobre mim. E apesar da cor, uma imensidão azul os cobre, tornando-os agradáveis. A melodia que emana de seus cantos acalma meu coração. Gostaria de voar com eles. Como eles. Para sempre, para o céu. Buscando o ardor de uma alegria, de um sorriso, até que eles se transformem em puras e doces pombas brancas.”

Isso que vocês acabaram de ler é um trecho de uma música que eu mesma fiz. Gostaria que alguém a visse um dia...

27 de novembro

Querido diário,

Amanhã é o grande dia. Como estamos de folga na escola, não farei muito alarde em casa se eu sair. Talvez Yuki tente me impedir, mas como mamãe ainda passa mal por causa da gravidez, creio que ele vá se preocupar mais com ela. Ah, claro! O local que eu escolhi... Bom, foi a empresa onde papai trabalhava. É um prédio de vinte andares, então, creio que vá fazer algum estrago. Essa é a última vez que eu estou escrevendo em você, meu doce e inseparável amigo. E preciso lhe confessar algo: sinto que alguém está me observando. Estranho? Eu sei.

Então, deixarei papai com você, tudo bem? Guarde bem a foto dele.

Agora, terei que retirar-me. Já passa de meia-noite, e eu preciso dormir.

Quem sabe eu não sonhe com algo agradável, pelo menos uma última vez, não é mesmo?

Adeus, meu amigo.

Requiem for Mizuho in, 28 of november.

Papai, me perdoe por não poder lhe fazer companhia aí, no Paraíso.

Irei sentir sua falta, mais do que eu já sinto aqui.

Posso derramar minhas lágrimas sobre você, só mais uma vez?

Sua foto irá rasgar-se, de tão molhada. Me perdoe! Hahaha, me perdoe! Mas... eu não consigo fugir disso.

A culpa... não é minha...

Me perdoe...

Mas o inferno não deve ser tão pior do que a minha vida está agora.

Meu nome é Yukimura Mizuho.

E é aqui que eu me despeço.

Um ato injusto, imoral, errado?

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