“Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca de sua alma?”
Mateus 16:26
Correndo com a maior velocidade que meu corpo me permitia, usei o que restava da minha presença de espírito para chegar até a fundação de pedra entre as árvores da floresta em chamas.
Lá, o chakra monstruoso de uma raposa-demônio se debatia contra os jutsus de sombra, controle de mente e toda sorte de ataque que ainda conseguiam atrasá-la debilmente, apenas ganhando pouquíssimo tempo. Suas caudas se sacudiam em ferocidade e formavam ondas de kamaitachi, que arrancavam árvores do solo e cortavam pessoas em partículas, como se nunca tivessem existido. Olhos vermelhos brilhavam puro fogo e olhavam furiosamente em todas as direções, enquanto eu pulava através dos galhos até aterrissar estoicamente no chão.
Observei. O monstro era algo quase indescritível. Seu rugido era ensurdecedor, como o som de águas volumosas. Seu tamanho era por si só aterrorizante. Seu chakra era selvagem e maligno. Mas o que traduzia aquela como sendo a visão do pior pesadelo de um homem era a expressão de seus olhos. Cruéis, maldosos, cheios de um prazer de mórbida devastação. Para mim estava claro que o monstro simplesmente se divertia com a nossa tentativa fútil de auto-preservação.
Por causa disso olhando para a raposa um pensamento rápido me passou pela mente: meus shinobis eram apenas homens e mulheres.
A Kyuubi se movia de forma diferente. Com aquele... Aquele passo naturalmente longo que devorava a distância e a carregava de forma tão fácil. Como se o bijuu fosse dono da terra abaixo de seus pés, como se todos os outros estivessem tendo apenas a benevolente permissão de usá-la.
E eles, os shinobis de Konoha, apesar de serem a força ninja mais sólida do mundo, eram apenas humanos.
E eu era apenas humano.
Qual é a definição da palavra ‘shinobi’? Ser shinobi é algo além de ser uma simples ferramenta, uma mera máquina de morte. Ser shinobi é ser humano. É ser um humano cuja alma cheira a sangue.
Mas isso não é algo que te ensinam, assim, no primeiro dia de aula da Academia. Não é nem ao menos algo que te ensinam no seu tempo de genin. Passam-se os anos e você percebe que é algo que nenhum sensei vai te ensinar.
Esta noção você aprende na carne; aprende sangrando e fazendo sangrar.
É algo que você só entende quando está cercado por cadáveres de pessoas com a qual se acostumou a conviver — respirando, se movendo, lutando lado a lado. E nem mesmo anos e anos sob o código shinobi são capazes de te preparar para esta visão. Mesmo todo o seu controle de emoções vacila quando você está rodeado pelos corpos inertes dos seus amigos.
Um, dois, três, quatro... vinte e sete, vinte e oito... sessenta e cinco... Perdi a conta, era impossível contar. Em um raio de setecentos metros computados a partir dos portões, uma quantidade inumerável de cadáveres se estendia como um tapete, um carpete carmesim. Um mar de sangue.
Jiraiya-sensei e Kakashi passaram correndo por mim, eu podia sentir o calor da batalha vagamente de onde estava. Mas algo parecia estar paralisando as minhas pernas e impedindo-as de seguir. Como se eu soubesse que se eu me movesse mais um centímetro à frente estaria assinando uma sentença de morte, como se estivesse deixando que algo precioso sangrasse até o fim.
E quem imaginava que isso um dia iria acontecer? Logo eu que sempre fui o primeiro a pular para a batalha, a terminá-la em um piscar de olhos. Mas só você pôde me fazer hesitar, só você foi capaz de fazer essa mudança em mim.
Segurando-o contra o peito com os braços consegui fazer um único selo, fumaça me indicando à minha frente que eu criara um Kage Bunshin com sucesso. Aquela era a única idéia que me passara pela mente, eu tinha ao menos que tentar.
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