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Pepe e So

Carolina Pietski

Pepe e So
Capítulo 19 min de leitura

Capítulo Único

Era uma vez... não, pensando bem, ainda é. Ora, esqueça e recomecemos.

Há um mundo diferente, talvez você não saiba, onde uma menina sem igual vivia aventuras inimagináveis. Seu nome era Sophia, mas todos a conheciam como So. Somente So. Possuía estatura mediana, cabelos ruivos e um par impressionante de olhos cinzentos, atentos e curiosamente sagazes.

Era incrivelmente corajosa. Alguns diriam até que sábia. Suas aventuras eram lendárias.

Ela possuía um amigo, seu fiel escudeiro, ao qual chamava carinhosamente de Pepe. Ninguém nunca soube se esse era seu nome verdadeiro e ninguém nunca se interessou em perguntar. Pepe, por sua vez, era alto, desengonçado com aquele jeito de menino que acaba de entrar na adolescência e cresceu demais em pouco tempo, seus cabelos eram escuros, sua pele de um moreno suave e seus olhos eram verdes. Um típico príncipe quanto à aparência, assim como o era em atitudes.

Os dois eram amigos, irmãos. Viviam suas aventuras juntos e possuíam cumplicidade e confiança na medida exata do carinho e amor que sentiam um pelo outro. Era muito. Por isso se davam tão bem. Por isso suas aventuras eram tão bem-sucedidas. Mesmo nenhum dos dois lembrando quando exatamente se conheceram. Eles apenas existiam juntos.

Porém, ocorreu que, em um dia nublado de outono, ou Folháceas, como era chamada esta estação em Gobler, o Planeta dos Tesouros, Pepe e So separaram-se.

Não me entenda mal, nem tire conclusões precipitadas, não foi por querer, não houve uma discussão, nem nada parecido. Eles só distraíram-se. E, nesta distração, tudo mudou.

Naquela manhã fatídica eles estavam procurando pistas de um novo tesouro a ser encontrado. Era muito cedo, o sol ainda não havia desperto completamente, parecia que, com preguiça, tentava sem sucesso se desvencilhar das nuvens que lhe faziam as vezes de cobertor.

Abriam caminho pela floresta, com uma coragem e determinação muito maiores que seus 13 anos de idade poderiam revelar. Eram, e estavam, confiantes. Logo encontrariam o tesouro.

Se não fosse um porém. Um porém imprevisível.

Andando pela mata fechada e ainda escura, tentando ao máximo não fazer barulho para o caso de haverem inimigos à espreita, eles iam em frente. Nas mãos de Pepe, o papel tão precioso que os levaria para o seu destino final. O grande tesouro perdido, o qual, ouviu-se dizer, era o maior de todos.

O pequeno pedaço de papel que os guiava possuía cerca de 10 centímetros em cada um de seus quatro lados irregulares que revelavam que suas bordas haviam sido queimadas em algum momento. Estava amassado, amarelado, manchado também, mas ainda legível. Já passara pelas mãos de muitos aventureiros antes de chegar a Pepe e So. Muitas pessoas, pessoas demais, tiveram seu caminho e suas expectativas frustradas ao não encontrarem o precioso presente deixado por algum desconhecido nada qualquer ou, quem sabe, pelo próprio Espírito-Mãe, a essência mais primária de Gobler, o Planeta dos Tesouros.

Sim, havia essa dúvida. Ninguém nunca soube quem plantara tão precioso bem no cerne de Gobler, nem se sabia exatamente no que ele consistia. Apenas desconfiava-se. Mas para os crédulos e esperançosos, somente essa desconfiança já era suficiente para se mobilizarem por todo um mundo em busca dele, mesmo que fossem guiados somente por um pedaço de papel velho, com símbolos estranhos e quase ininteligíveis.

Dizia a lenda que 7 desses papeis estavam espalhados pelo Planeta. Somente poucas pessoas conseguiam entender o que neles estava escrito. E todas estas pessoas possuíam uma característica em comum. Pepe e So a possuíam.

Assim que conquistaram o direito sobre o “mapa” (não entrarei em detalhes sobre isso, levaria muito tempo, tudo o que é preciso saber é que essa missão envolveu coragem, um homem maldoso e um cavalo indomado), eles a entenderam e partiram nessa nova e perigosa aventura, em busca do que eles achavam ser o mais nobre e valioso dos tesouros. Mas não quanto ao valor material. Era espiritual, inacreditável e glorioso. Pelo menos era o que pensavam aqueles que a ele buscavam.

Sobre todos estes pequenos detalhes que eles conversavam aos sussurros enquanto faziam seu caminho através de árvores, grama e espinhos. Pensavam no que iriam fazer quando achassem o tesouro. Olhavam para o céu, viam as nuvens cruzando rápidas por ele, como se atrasadas para um encontro muito importante, viam os pássaros, o sol ainda tentando quebrar o resto de escuridão. Viram tudo isso, mas não perceberam o momento em que se separaram. No segundo em que o silêncio encobriu os dois, So sentiu uma pontada dolorida em seu peito, caiu ao chão, sem conseguir falar nada, e Pepe, sem perceber o que havia acontecido, seguiu em frente. Cada vez embrenhando-se mais nas trevas da floresta e afastando-se de sua amiga.

Deitada no chão frio e úmido de orvalho, com folhas grudando-se em sua pele, em suas roupas e em seus cabelos, ainda apertava as mãos junto ao peito que, embora já não doesse mais, latejava como se sentindo o eco da dor que o afligira anteriormente.

So respirou fundo, olhou em volta, levantou-se devagar, cautelosamente, como se tivesse medo que o movimento desencadeasse a dor excruciante novamente. Suspirou e gritou:

– Pepe! – sua voz ainda era fraca, tentou novamente, reunindo toda a força que continha dentro de si. – Pepe! Onde você está?

Não houve resposta, mas um movimento furtivo em uma folhagem próxima fez com que So se esquecesse do medo da dor e se lembrasse do medo de um perigo iminente. Virou-se rapidamente para o local de onde saíra o som de algo se movendo, no mesmo momento pegando seu punhal escondido dentro de uma de suas botas de caça. Não havia nada lá, aparentemente. Somente folhas caídas, plantas e troncos de árvores.

Arriscou-se a dar um passo naquela direção, em seguida mais um. Seu coração acelerou, sua respiração ficou mais rápida e superficial, podia quase sentir suas pupilas dilatando-se. Deu outro passo, punhal à frente, preparado. De repente, atreveu-se a dar um salto em direção ao lugar, afastando as folhas e revelando... nada.

A essa altura, sua cabeça latejava, mas sem pensar duas vezes, apesar de sua imensa coragem, saiu correndo daquele lugar, pressentia que havia algo mais naquela floresta que um simples predador, com os quais estavam acostumados e tanto viam. Foi na direção que sabia que deveria tomar para encontrar Pepe. Foi em direção ao tesouro.

So andou por horas. O sol finalmente havia conseguido se erguer de seu leito de nuvens e havia cruzado parte do céu. Ainda que o Grande Astro já estivesse brilhando com intensidade, viam-se nuvens espessas ao longe, armando-se para uma tempestade. Reparando nisso, So apressou seu passo e finalmente atravessou os últimos galhos na orla da floresta e saiu na pequena praia de areia branca e água cristalina que era seu destino.

O tesouro estava próximo. Assim como Pepe, que, conforme o plano combinado, seguira em frente, mesmo sem So.

Agora ela podia vê-lo ao longe. Longe demais para que ele pudesse ouvir qualquer chamado seu. Ela seguiu em frente, disposta a alcançá-lo.

O tesouro, pelas instruções do pequeno pedaço de papel, ficava no meio de uma pequena ilha que ficava perto da costa, mas ainda assim era necessário atravessar um pequeno trecho a nado, Pepe já o havia atravessado, o que explicava as roupas molhadas que se viam de longe. As águas não eram fundas, mas o mar era revolto.

Sem hesitar, a menina corajosa e destemida mergulhou nas águas rasas. Assim que sua cabeça voltou à superfície, um rangido alto, vindo da floresta, ressoou em seus ouvidos. So olhou para trás. Um vulto percorreu a orla, sacudindo folhas e espantando pássaros.

Negro. Era tudo o que Sophia podia enxergar depois daquele breve instante em que vira o impossível. Pontos negros, de repente, assolaram sua visão. Podia somente enxergar como as nuvens cinzentas e tristes estavam se aproximando rapidamente, tomando conta do céu e transformando o azul do mar.

Podia ver Pepe, andando em círculos no meio da pequena ilha com areia dourada, de certa forma o lugar perfeito para o mais majestoso presente.

Mas ele não encontrara o tesouro. Frustrado, ele ergueu os olhos e viu So, no meio do mar, sendo arrastada pelas ondas, sem conseguir se mover, apenas com parte de sua cabeça para fora da água. Sophia chorava. Pepe chorava. As nuvens também desataram a chorar. So foi submergindo, presa em uma paralisia inexplicável. Viu apenas Pepe, seu fiel escudeiro, seu amigo mais próximo, seu irmão, olhando para ela com olhos tristes e enevoados, dizendo sem uma palavra pronunciar: “Nos vemos em breve”.

Foi então que Sophia apercebeu-se que o maior tesouro, na verdade, já fora encontrado há muito tempo: a amizade, o amor, a bravura. Que a característica que permitia aos exploradores lerem o papel, já era o próprio tesouro. Por isso ninguém nunca havia se vangloriado de ter encontrado tudo isso somente ali. Todos, ao chegarem àquele local de sonho, com suas belas paisagens, também percebiam que sempre tiveram esse presente dos céus, mas nunca haviam o visto como realmente o era: um dom, uma graça, uma virtude.

Ela fora agraciada durante toda a sua vida com o melhor e mais magnífico Tesouro. Sorriu. Fechou os olhos. E deixou-se afundar.

– Um, dois, três... afasta! Um, dois, três... afasta!

Um zumbido, baques no peito de uma menina inerte produzidos por um aparelho, no momento, inútil. Algumas pessoas vestidas de azul e outras de branco. Uma maca. Uma mãe chorando, um pai sofrendo, tudo à beira da piscina do próprio lar.

Os médicos suspiraram, olharam para os pais e balançaram a cabeça negativamente. Nada mais a fazer. Mais uma vida que se fora. Pobre pequena menina esquizofrênica que nunca tivera amigos e que, levada por seu mais real devaneio, pulara na piscina e decidira nadar, embora não o soubesse.

E eu? Assisto a tudo com os olhos de quem já viu isso acontecendo milhares de vezes. Não pensem que é fácil ser o vulto negro que fica à espreita, esperando para levar mais uma alma boa deste mundo.

Desta vez tentei avisar. Tentei deixá-la preparada para o que viesse. Tentei fazer com que fosse mais fácil. Não consegui. Somente a assustei, por isso não gosto de meu trabalho: há variáveis demais para se agir com presteza.

Então os mortais chegam a mim, chorando ou com revolta, com a pergunta mais comum: já que foi você que levou a menina, o que aconteceu a ela?

Querem saber? Eu respondo.

So virou Sombra. Lembrança linda, de uma menina única, que nada mais fazia além de acordada sonhar com seu próprio mundo real.

Fim.

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