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Outubro

Return To Zero

Outubro
Capítulo 29 min de leitura

Capítulo 2

O celular de Oliver havia apitado pela terceira vez aquela manhã e, até então, ele havia ignorado. No quarto toque, recebeu as mensagens que o apressavam para seu compromisso.

“Trabalho.

Agora.”

– O senhor me desculpe, mas eu estou muito ocupado cuidando de uma garota que eu encontrei num beco, na tempestade passada. — disse para si mesmo no banho.

***

Caminhou silenciosamente pela sala, cuidando para não acordar Merrydan. Já havia se esparramado no sofá e o abrigo lhe cobria parcialmente as coxas. Os cabelos muito louros lhe caiam pelo rosto, dando um ar de fragilidade.

Observou-a por alguns instantes e, antes que pudesse sair do comodo, seu celular tocou. Praguejou baixo antes de atendê-lo.

– Oliver falando. — disse com a voz rouca.

– Posso saber onde você está? A reunião vai começar logo mais.

– Ah… Eu… Bem… — ele pigarreou nervosamente — Sabe o quê é… A tempestade passada. Acabei pegando ela e amanheci meio… — agora ele tossiu como se quisesse expelir os pulmões — Meio mal…

– Meio mal? Com essa tosse, parece até que está morrendo. — o homem do outro lado da linha suspirou — Tudo bem, fique e descanse.

– Muito obrigado. — ele tossiu mais alguma vez, certificando-se de manter a voz rouca — Prometo que amanhã vou acordar recuperado!

Após fungar algumas vezes, ele desligou. Meneou a cabeça e descobriu dois grandes orbes azulados que lhe miravam, curiosos. Merrydan havia despertado.

– O que foi isso? — ela perguntou, com um sorriso nos lábios.

– E-Escuta… Não é da sua conta!

E se foi para o quarto, trocar de roupa. Jogou-se na cama antes, se perguntando o que ele estava fazendo. Ele mesmo não entendia porque tinha feito aquilo. Era perigoso, não? Trazer um desconhecido para casa. Mesmo que uma garota tão bonita quanto Merrydan.

Demorou-se mais do que o necessário no quarto e só saiu de lá quando sentiu o aroma doce de panquecas que saia de sua cozinha. Vestiu-se rapidamente e encaminhou-se para o local, descobrindo Merrydan toda esticada, tentando alcançar um armário ao alto. O abrigo revelava, de forma sutil, seu quadril, e no rosto havia uma expressão de esforço.

Oliver se aproximou e pegou dois copos do armário, entregando-os para Merrydan, que os colocou na mesa, aparentando irritação.

– Você é muito pequena.

– Você que coloca seus armários muito em cima, isso sim.

Merrydan serviu-o de panquecas e manteiga, e os dois comeram em silencio. Oliver ainda se perguntava porque havia feito aquilo.

Reparou que ela comia de forma delicada. Os cabelos curtos e os olhos grandes e azuis lhe conferiam a aparência das pequenas princesas que protagonizavam os livros de sua infância.

Merrydan insistiu em lavar a louça e, sem muita discussão, Oliver foi fazer qualquer outra coisa na sala. Logo depois, ela apareceu no comodo, vassoura em mãos, declarando que o chão estava coberto por poeira e que ela iria varrer.

– Não, você não vai. — ele retrucou.

– Claro que vou. — disse, decidida. Ela se sentia em debito com o rapaz, e precisava fazer em algo em troca pela bondade. Ela podia limpar o chão, lavar a louça e fazer o café. Ou simplesmente arranjar um outro lugar para ficar — Não vai arrancar nenhum pedaço.

Oliver acabou concordando com a ideia. Sentou-se no sofá e pôs-se a observar a loura varrer o chão. Notou as bochechas coradas dela, e achou graça.

E quando ela terminou, não havia mais nada interessante para se fazer. Por algum motivo, assistir televisão não parecia a melhor opção. Oliver se levantou, foi ao seu quarto trocar de roupa e verbalizou:

– Eu vou sair um pouco. Fique aqui.

– Onde você vai?

– Sair.

E retornou para casa por volta de uma hora depois, com uma sacola em cada uma.

– Merrydan, voltei. — não houve resposta. Deixou uma das sacolas sobre o sofá e começou a procurar a garota pela casa. Sentiu uma certa pontada no estomago quando cogitou a ideia de ela ter ido embora. Não, ela não faria isso. — Merrydan, onde você está?

Checou seu quarto por último e lá estava ela. Enrolada nos lençóis e nos travesseiros. A respiração baixa, quase imperceptivel. O abrigo, mais uma vez, revelando suas alvas coxas.

Cerrou o punho pensando em como o corpo da garota parece querer se libertar daquele pano. Tentou controlar o impulso de apertar aquele pele que aparentava ser extremamente macia. O que foi em vão.

Se aproximou quietamente e estendeu a mão.

Mudou de ideia no último segundo, e puxou o abrigo, cobrindo-lhe novamente.

Merrydan acordou com o toque, sonolenta, bocejando.

– Você demorou, Oliver. Onde você foi?

Ele se afastou, envergonhado. Será que ela tinha sentido…?

– Eu… Eu… — ele pigarreou, jogando a sacola rosada na cama — Anda logo e veste isso. Estou te esperando na sala.

Saiu batendo a porta. O rosto ardia de forma incontrolavel e a respiração estava alterada. Jogou-se no sofá esperando a garota.

E logo ela chegou, usando vestido branco de mangas longas, mas que deixava seus ombros à mostra. Também usava um par de sandálias brancas, que ficaram muito delicadas e um sorriso no rosto, mais valioso que qualquer colar de perolas.

– Oliver, você comprou isso pra mim? — ele assentiu — Mas é tão lindo! Eu gostei tanto!

– Que bom. — ele sorriu minimamente — Eu quero sair com você hoje.

– Sair…? Mas você já gastou comigo, com esse presente. — ela baixou os olhos para analisar o próprio corpo — Deve ter custado uma fortuna…

– Para de falar a vamos logo.

Oliver tomou Merrydan pela mão e caminharam pelas ruas sem pressa alguma, sem dizer uma só palavra. O clima estava fresco e o chão ainda estava úmido da tempestade passada.

Pararam em um parque onde um conjunto de garotos jogava bola. Sentaram-se nos bancos próximos e puseram-se a assistir o jogo. Merrydan estava muito animada, mas Oliver parecia se conter.

Afinal, ele estava se contendo. A presença de Merrydan provocou um sentimento intenso nele, que ele não sabia descrever. A única coisa que ele sabia é que o sorriso da loura era o suficiente para mantê-lo distraído por uma eternidade.

Seu estomago roncou e ele percebeu que estava com fome.

Não queria voltar agora. Não quando podia desfrutar de toda a alegria e frescor infantil que Merrydan lhe transmitia. Avistou um carrinho de hotdogs que se aproximava e pediu licença para Merrydan, encaminhando-se para o local.

Avistou, no mesmo local, um homem usando um terno elegante junto ao carrinho, que tentava, com muito esforço, carregar vários hotdogs.

– Oliver! — o homem chamou — O que está fazendo aqui?

– Eu… Ahn… Bem… — ele pigarreou visivelmente nervoso

– O chefe disse que você estava doente e que não viria pra reunião.

– É, eu estou… — ele tossiu mais uma vez — Bem doente. Bem doente mesmo. E você, onde vai com esses hotdogs?

– Ah, não sei o que aconteceu mas teve um problema na cantina e estamos todos sem almoço. — um dos hotdogs escapou do braço do homem e, muito habilidosamente, Oliver o pegou — E você não parece muito doente não, Oliver.

Antes que ele pudesse responder, Merrydan o interrompeu, grudando em seu braço.

– Ollie, o que você ‘tá fazendo? ‘Tá demorando.

– Ollie…?

– É, seu apelido. Oliver. — ela riu, divertida — Eu te chamo de Ollie, e você me chama de Merry, que tal?

– Merry? — o outro homem indagou, surpreso — Então esse é o seu resfriado, huh?

– N-Não é isso, eu só…!

– Tudo bem, eu entendo. Você trabalha demais, precisa de um descanso. — o homem riu, se afastando — Boa sorte, hein?!

– Espera, eu…! — Oliver suspirou ao vê-lo desaparecer em uma curva. Virou-se para o vendedor — Um, por favor.

O vendedor mostrou que não havia mais salsichas e foi embora. O estomago de Merrydan roncou. Ele entregou o hotdog para ela e foram sentar em um banco qualquer.

– Vai me dizer porque estava lá?

– Lá onde?

– No beco.

– O que tem ele?

– Por que estava lá?

– Por que sim.

– O que estava fazendo lá?

– Nada.

– Não podia fazer nada em outro lugar?

– Não.

Ele bufou, irritado. Tentou novamente.

– Você não tinha para onde ir?

Merrydan fez uma curta pausa, mirando o hotdog sem interesse.

– Sim.

Ficaram em silencio, dividindo o lanche. Oliver notou a mancha de mostarda no vestido branco mas, novamente, não queria voltar. Ainda tinha tanto para perguntar à ela, e esse parecia ser o melhor momento.

Infelizmente, algumas nuvens negras começaram a se amontoar no céu. Merrydan recusou a última mordida no hotdog, segurou a mão de Oliver com certa firmeza e disse:

– Me leve pra casa.

Em meio aos pingos de chuva, ambos caminharam cada vez mais lentamente. A tarde estava estranha. Parecia infindável. Aos poucos a chuva se tornava mais grave, ao longe, o clarão de relâmpagos que iluminava todo o céu cinzento. Estrondos altos que faziam Merrydan apertar os dedos ao redor da mão de Oliver.

Ele parou, obrigando-a a parar também. A chuva aumentou de forma drástica enquanto ele puxava Merrydan para mais perto de seu corpo. Os olhos azulados estavam levemente assustados, porém curiosos. A boca rosada, entreaberta, exalava suspiros delicados.

Sem muita pressa, Oliver analisou o rosto corado da garota, sentindo o coração disparar. Sentindo um calor que era estranhamente disfarçado pela chuva. Pressionou o corpo dela contra o seu, tocando seu lábios timidamente.

Esperou uma reação.

De imediato, Merrydan nem respirou.

Relaxou o corpo aos poucos, fechando os olhos e retribuindo o beijo de forma calma.

Um vento forte soprou sobre a pele molhada dos dois, fazendo com que eles se abraçassem mais, aprofundando o beijo de forma intima. Outro barulho alto, mas não era um trovão.

– Saiam da rua, seus malucos! — gritou o homem atrás do volante, do carro que havia buzinado.

Oliver riu, correndo com Merrydan pelas ruas molhadas, enquanto a chuva aumentava cada vez mais. Entraram rapidamente em casa e, mesmo com as roupas pingando, passaram um bom tempo se examinando na sala.

– Você tem algo pra fazer hoje?

– Só faculdade. Por quê?

Ela se aproximou.

– Fica comigo.

A uma distancia perigosa, Merrydan roçou os lábios pela boca de Oliver, acariciando seu rosto.

Ele a puxou para um beijo. E para mais outro. E outro. E ainda outro. E muitos outros, que duraram até o anoitecer.

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