Acordei dolorida. Tinha algo cutucando minhas costas. Me virei no saco de dormir, e descobri o cabo da maior faca da cozinha me incomodando. Suspirei, me lembrando da noite anterior. Meu estômago me dera cinco segundos para chegar ao banheiro e sentir até minha alma saindo pela boca. Eu pegara o saco de dormir velho, a faca, e me trancara no banheiro para dormir. Era o cômodo mais fechado da casa. Uma pequena janela com grade que dava para o fundo da garagem, e a porta de madeira com um ferrolho que se soma a uma tranca a chave. Eu não sabia se tinha sido uma boa ideia, mas me sentia segura ali. Não poderia dormir no meu quarto com aquilo na janela. Se é que havia mesmo algo na janela… E se tivesse sido mais uma alucinação? Eu teria dormido no banheiro como uma louca faria. Esfreguei os olhos, suspirando outra vez. Me levantei devagar e me olhei no espelho da pia. Tinha olheiras e o cabelo como um ninho de ratos. O curativo no meu pescoço tinha um dos esparadrapos solto. Me sentia doente. Não havia comido nada além de croquetas e mais croquetas desde que o episódio da torre acontecera. Precisava me alimentar direito. Escovei os dentes com as mãos tremendo. Estava ansiosa de deixar o cômodo. Mas não havia quem chamar. Terminei, e olhei para a saída, receosa. Recolhi a faca, e com as mãos geladas, abri as fechaduras. E em seguida a porta, vagarosamente. Espiei o lado de fora. Não havia nada de anormal a princípio. Mas quando dei dois passos para fora, algo chamou minha atenção. Pelo canto do olho, vi algo comprido e branco enroscado na janela da cozinha. Derrubei a faca ao perceber o que era. Uma pena. Longa e larga. A parte interna era branca e manchada de cinza, e a de fora era escura e lustrosa. Com as pernas bambeando, não resisti ao impulso de ir até lá e tocá-la. Era macia, mas mais resistente do que aparentava ser. Estava revestida de algo parecido com óleo para cabelo, e isso lhe dava reflexos de luz. Meu coração estava acelerado. Não havia falcão-peregrino grande o suficiente para o tamanho daquela pena. Eu sabia a que aquilo pertencia. A quem aquilo pertencia. Eu não precisava ir ao psiquiatra. Precisava ir até a Catedral.
Andei de um lado para o outro por alguns minutos, a pena em mãos, criando coragem para sair. Estava vestida para correr, e tinha preparado uma mochila pequena. Lá tinha croquetas de pescado fritas, uma blusa, e as duas maiores facas da cozinha. E ainda, duas cordas grandes. Respirei fundo. Era próximo das 9h. Eu precisava ir antes que a torre enchesse de turistas. Para o que eu precisava fazer, não podia ser vista. Tranquei a porta. Meus cães estavam acuados no fundo da garagem. Imediatamente me arrependi de não tê-los recolhido na noite anterior. Deviam estar aterrorizados com a coisa. Me aproximei deles, fazendo carinho em ambos. Eles ficariam melhor com o tempo.
Corri pela rodovia sem olhar em volta mais do que o necessário. Já havia movimentação e pessoas montando feira no centro, em frente a prefeitura. Segui pelas ruas laterais até a praça da catedral. Ciganos vendiam artesanatos por ali, e homens faziam bolhas de sabão gigantes com pedaços de madeira, barbantes, e bacias de água com detergente. A catedral estava sendo aberta oficialmente. Não havia nada de estranho no topo da torre. Nenhum turista a vista. Comprei o ingresso da torre, e comecei a subida em espiral. O lugar vazio me dava calafrios. O vento do topo estava gelado. Mas em vez de subir ao balcão dos sinos, continuei pelo caminho da torre que estava proibido por fitas. Era uma área de risco da antiga construção, e não havia parede no extremo do recinto. Dava para o céu aberto, e se eu olhasse para baixo, via o telhado da catedral ao lado. Estava colado na torre, mas muito abaixo de onde eu me encontrava. Eu precisava chegar ao telhado sem chamar atenção. As pessoas na praça pareciam distantes e pequenas.
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