As sirenes, as fitas amarelas isolando todo o perímetro, a movimentação de policiais quase que ofuscada pelo grande burburinho de curiosos se espremendo uns contra os outros ao redor da cena... eu já estava acostumado com tudo aquilo, afinal, já fazia cinco anos desde a minha primeira cena de crime. O meu primeiro cadáver eu vi de perto aos vinte e cinco anos e, poucas horas depois, conheci o meu primeiro fantasma nesse trabalho. Sendo sincero, por mais que eu já estivesse habituado a todo sangue e mau cheiro, eu ainda me lembrava de cada um deles, inclusive do primeiro; mas nada nunca havia me preparado para aquela cena.
Era uma casa alugada no subúrbio, acima de qualquer suspeita. Não era uma fábrica abandonada ou uma colônia de sem-teto debaixo de um viaduto, mas sim uma casa colorida de um pavimento e com um belo e bem cuidado jardim na frente. Como com as outras vítimas, a diversão começava já ali: aterrorizar para o resto da vida uma vizinhança pacata, fazer com que famílias passassem meses desconfiando umas das outras e com medo até das sombras das árvores à noite. A mesma casa, o mesmo subúrbio, a mesma vítima... já do lado de fora era praticamente impossível de não desconfiar dele.
Um policial me abordou assim que cruzei as fitas de isolamento, porém, ao dar uma segunda olhada no meu rosto, liberou a passagem. Acontece que cinco anos podia não ser muito tempo para os oficiais e sua hierarquia – com cinco anos de formados na academia de polícia, alguns ainda permaneciam patrulhando as ruas e aplicando multas de trânsito – mas eu tinha feito um trabalho bom o suficiente para que àquela altura todos já me conhecessem. Quase impecável, diga-se de passagem, mas isso eu obviamente devia ao fato de nunca estar sozinho quando o fazia.
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