Ouvi a porta de casa bater. Alison mal entrou em casa e já me viu jogada no sofá com cara de poucos amigos.
–Boa tarde Lara — falou preocupada.
–Não sei o que essa tarde tem de bom, unnie — resmunguei.
–Nossa, que mau humor! — ela se sentou ao meu lado — O que te aconteceu? — perguntou com aquele tom fraternal dela.
–Você sabe, prima — falei magoada. Alison suspirou pesarosa.
–Escuta, eu sei que você não está gostando muito de Seoul, mas tente dar uma chance. Está aqui há menos de uma semana, ainda está se adaptando ao ritmo daqui. Talvez quando você se acostumar com as coisas, acabe nem querendo mais pensar em ir embora — riu tentando me alegrar. Dei um sorriso fraco.
–Vou tentar dar uma chance, mas não garanto nada...
–Por mim tudo bem. Mas me conte, o que realmente aconteceu? Você não ia sair com seus futuros colegas de classe?
–E saí — falei olhando para o chão.
–E como foi?
–Um desastre — bufei — Eu quero meus amigos do Brasil, Alison!
–Calma, não é assim que as coisas funcionam. Não se pega amizade da noite pro dia, tenha paciência dongsaeng! — agora ela pareceu direitinho com a minha mãe falando.
–Mas eu tenho! O pessoal daqui que é reservado demais e cheio de "não-me-toques" — franzi o cenho, irritada por me lembrar daquele encontro desastroso. Alison ficou pensativa, olhando para o nada.
–Em partes é culpa minha. Se ao invés de te apressar para vir, eu te trouxesse no início do ano letivo, você não estaria tão entediada — fiquei com pena da unnie. Ela se esforçava para eu me sentir em casa e estava mesmo se culpando por isso.
–Culpa sua nada. Esses coreanos é que são dificeis — rimos.
–Bem, chateada ou não, você pelo menos vai passar o natal comigo não é? — chantegeou.
–Ah, unnie! Isso é chantagem emocional — reclamei.
–Chantagem nada, falta apenas uma semana para o natal. Poxa, Lara, você vai deixar a sua prima querida passar o natal sozinha?
–Que mentira! Você não vai passar o natal sozinha nada, você tem amigos aqui, esqueceu? — revidei.
–Tenho, mas não quer dizer que estejam disponíveis. A Yumi e a Yuri vão passar o natal com os avós, a Amy foi visitar os tios em Nova York e a Kaori viajou com o namorado.
–Nossa, que amigos você tem ein? Nem te chamam para ir junto — provoquei.
–Eu também não quero incomodar ninguém, porque eu sei que a minha prima não vai me deixar na mão — voltou a me chantagear.
–E se eu não me adaptar até lá? — retorqui.
–Vai se adaptar sim, com uma semana inteira para torrar seu novo cartão de crédito — me mostrou um pedaço de plástico que eu reconheci como um cartão — não tem como você recusar.
Ok, agora ela venceu. Apesar de não me adaptar muito bem aos coreanos, eu me adaptei super bem aos shoppings e lojinhas daqui.
–Golpe baixo!
–Sabia — vibrou de felicidade — Obrigada, Lara — me abraçou.
–Não tem de quê, prima... Pelo cartão — agarrei o retângulo plastificado das mãos dela. Rimos.
–Ai, sua insensível — fingiu estar ofendida.
Alison sabia que eu só estava brincando. Gosto muito da minha prima, mas não sei se digo o mesmo de Seoul. Acho que se eu tiver que aguentar até o natal, não será problema.
Bem, até agora ninguém sabe nada sobre mim aqui. Dá vontade de abrir a janela e gritar para a Coréia do Sul inteira: " Hey, Coréia, será que dá pra ser mais amigável comigo?" Ri com meus pensamentos.
Alison me avisou sobre os coreanos serem tímidos, mas eu não imaginei que fossem tanto! Mas por um lado, talvez eu só tenha esbarrado com as pessoas erradas até o momento.
Até parece que não existe algum coreano do contra né? Um maluco meio rebelde que fale pelos cotovelos e dê gargalhadas descentes pela rua. Nada de risinhos discretos, se é pra rir, tem que rir com vontade não é? Ou então, deve ter algum brasileiro que me entenda! Ai, Lara, como você não pensou nisso antes? Se mata!!
Quando saí de meus desvaneios, o jantar estava pronto. Para minha sorte a unnie cozinhava bem, apesar de inventar algumas receitas loucas de vez em quando.
–Pizza! — dei pulinhos de felicidade.
– Gosta?
–Adoro!
Nos sentamos para comer e começamos um assunto qualquer. Alison tinha cada história louca para contar. E mesmo passando por umas saias justas ainda estava aí de alto astral. De repente ela quase engasga com a comida.
–Alison! — me espantei.
–Ah, eu me esqueci — gritou.
–Do que mulher? — perguntei curiosa.
–Caraca, como eu pude esquecer isso? — riu dando um tapinha na testa.
–Fala logo abestada! — ri do meu próprio comentário.
–Abestada é a vó! — reclamou rindo — Prima, já que você não está se dando muito bem com os seus colegas, por que não procura por um amigo de aluguel? — propôs naturalmente.
–Amigo de aluguel? — intriguei-me.
–É. Já que as pessoas com quem vai estudar não combinam com você, porque não escolhe alguém que tenha mais a ver?
–Prima, isso é uma loucura.
–Não é nada. Hoje em dia, amigos de aluguel são comuns. Aqui em Seoul não deve ser diferente. Talvez você ache até um brasileiro por aqui! — se entusiasmou com a ideia.
–Não sei unnie, não parece dar certo. Tipo, você contrata uma pessoa para ser sua amiga, mas poxa, se é amigo mesmo não cobraria né? — debochei.
–Dongsaeng, se a pessoa não cobrar, vai viver de que? De vento? — rimos — Entenda, isso é o que o amigo de aluguel faz para viver, então, feliz ou infelizmente, ele irá te cobrar por isso.
–Aff, prefiro gastar dinheiro com outras coisas do que com mais um chato, certinho que não dá gargalhadas!
–Dongsaeng, você não prestou nem um pouco de atenção no que eu disse — suspirou — quer saber? Deixa isso pra lá. Amanhã eu também vou sair da faculdade direto pro trabalho, então você vai ter que se virar sozinha com o almoço.
–Mas por que? — reclamei.
–Desculpe Lara, preciso fazer hora extra! Natal não é natal sem dinheiro né? — rimos.
–Concordo.
No dia seguinte, quando acordei, estava sozinha em casa. Nada pra fazer, como sempre. Alison já tinha ido para a faculdade e deixara um bilhete grudado na geladeira.
" Tem bolo de chocolate no microondas. Quanto ao almoço, eu comprei comida congelada, mas se não quiser pode almoçar fora."
Ataquei o bolo de chocolate junto com um suco que achei na geladeira. Pensando por um lado, hoje é o ultimo dia que ficarei sozinha pela manhã. As aulas da unnie terminam hoje. Mas isso se ela não resolver fazer mais hora extra e acabar trabalhando em horário integral.
Talvez eu pudesse ir trabalhar com ela. Assim não passaria o dia mofando dentro de casa e ainda ganharia um dinheiro! Pensei animada.
Por falar em dinheiro, me lembrei do cartão de crédito novinho e com um saldo bem gordo só para mim. Ainda não pensei em como gastá-lo.
Emburrei. Se eu estivesse nessa mesma situação no Brasil, só precisaria ligar para minha melhor amiga e pensaríamos juntas no assunto. Além de nos divertirmos muito no shopping.
Depois de tomar café e perder a vontade de ir às compras, recolhi a louça e a lavei. Sem nada de bom para fazer, resolvi arrumar algumas coisas pela casa, como a estante de livros da unnie e a bagunça do armário das panelas.
Eu sabia que aquela arrumação não adiantaria de nada, logo o furacão Alison estaria de volta para bagunçar tudo de novo. Mas como não tinha nada melhor para fazer...
Quando terminei, resolvi entrar na internet. Tinha esperanças de que alguma amiga minha estivesse online no MSN. É, eu estava enganada.
Resmunguei algumas palavras incompreensíveis e fiquei vagando pelos sites, sem muito interesse. Abri o google pela nonagésima vez quando resolvi investigar o que a unnie me propôs. Logo apareceram inúmeras respostas ao tema. Cliquei na primeira página e comecei a procurar alguém interessante. Meus olhos pararam num anúncio intrigante.
"Personal Friend por uma semana"
Engraçado, esse era o único anúncio simples ali e me chamou muito a atenção. Em todos os outros o sujeito dizia mais sobre si, como a idade, a altura, a personalidade e os lugares preferidos. Mas esse não, esse era diferente.
Diferente até no jeito de cobrar. O tal amigo de aluguel cobrava por semana, enquanto todos os outros cobravam por dia ou por hora. Fiquei intrigada com o anúncio e resolvi contratá-lo.
Um lado meu me cobria de perguntas quanto a índole dessa pessoa e a veracidade do anúncio, outro lado meu estava enérgico, achando isso tudo uma grande aventura.
Os níveis de adrenalina subiram em meu sangue. Eu me sentia nervosa, enjoada, empolgada e ansiosa. Queria saber mais sobre o tal 'amigo de aluguel'. Queria saber se personal friends realmente valem a pena. Mas o melhor de tudo, eu queria que o dia passasse logo.
