No compasso do silêncio
No compasso do silêncio
Capítulo 26 min de leitura

Zapateado

Lílian era mestranda em Antropologia cultural, havia estudado na UFPB (Universidade Federal da Paraíba), saiu de Salvador para João Pessoa por um sonho que a sua família não entendia direito. Se formou e voltou para a capital bahiana sem um emprego, teve de trabalhar no comércio e com artesanato até conseguir se classificar para o mestrado na UFBA. Seus pais se preocupavam com o futuro de uma filha inteligente que estudava uma coisa que não dava dinheiro. A mãe dizia que ela devia ter feito medicina ou odonto, ao menos ia ajudar as pessoas e ganhar muito dinheiro para ter um apartamento bom em Pituba ou na Barra.

Lílian conseguiu estudar inglês e espanhol graças aos cursos comunitários. Não era pobre, mas uma classe média baixa, onde o dinheiro não sobrava para complementar os estudos com cursos extracurriculares.

Ainda no ensino fundamental já fazia aulas de dança afro e de ballet, tudo em centros comunitários. Um dia viu uma apresentação de flamenco e se apaixonou, mas não tinha como pagar as aulas. Uma professora lhe ofereceu uma bolsa parcial quando tinha 17 anos. Ao ir para João Pessoa, Lílian levou os sapatos consigo, na esperança de poder estudar lá também. Achou uma escola, mas não tinha bolsa. A dona do estúdio lhe disse que dava aulas num projeto para mulheres vítimas de violência doméstica, num bairro periférico, se ela quisesse, podia ir, mesmo sem se encaixar no perfil atendido. Ali, a baiana se sentiu acolhida e aplicou suas primeiras noções de Antropologia na prática. O projeto durou até o fim do sétimo semestre da universidade. Então, Lílian dançava em parques e no campus para não perder a técnica, já que vivia em uma república feminina e não tinha espaço e nem podia atrapalhar as colegas com os seus taconeos.

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