Ismália
Ismália
Capítulo 16 min de leitura

Capítulo 1

As torneiras de ouro estavam abertas e jatos de água quente enchiam a banheira branca, iluminada apenas pela luz que vinha do corredor. O espelho já embaçado não refletia a figura de pé, parada a encará-lo como que hipnotizada pelo vapor estampado na superfície. A mão pálida da jovenzinha tocou o espelho, limpando parte do mesmo, em busca de seu próprio rosto. Imediatamente uma garota franzina de bochechas avermelhadas a encarou com olhos ensandecidos. As unhas de Ismália arranharam levemente a superfície fria no espelho, enquanto o rosto refletido ali se transformava em uma mascara de dor. A boca macia se crispara e nos olhos arregalados não parecia haver sobrado sequer uma gota de sanidade. Um gemido, um soco, um soluço. E uma chuva de cacos se espalhara pelo banheiro. O espelho deixara de existir, mas sangue vermelho tingia o mármore branco da pia. Ismália observou sua mão machucada, mas não se preocupou em limpar os cortes. Deixara o sangue correr, tingindo o mármore como uma tinta cara e brilhante.

A camisola verde se arrastou pelo piso quando a garota se encaminhou para a banheira, onde uma grande lua cheia mantinha-se refletida nas águas. Ismália ergueu os olhos e pela janela avistou aquela mesma lua, porém mais alta, longínqua. Livre. Tentou alcançá-la com a ponta dos dedos e não conseguindo, voltou seus olhos para a banheira, agora completamente cheia com sangue. A garota se afastou, tropeçando na barra de sua camisola. Por que tudo o que tocava se transformava em cacos e sangue?

Lívida, ficou de pé dentro da banheira. A morte acariciava suas pernas novamente em forma de água quente.

Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

Ismália fora uma garota cheia de vida durante suas doze primaveras. Seu lado intelectual um tanto quanto aguçado, lhe ajudava em seus estudos sobre teologia. Ela sempre quisera desvendar os mistérios do universo e todo o inexplicável tomava seus devaneios. Um tanto quanto precoce para a idade, mas já com muitas responsabilidades. A mãe doente sob seus cuidados era total e completamente dependente da única filha, já que o pai era um importante homem de negócios que nunca estava em casa. Ismália não tinha permissão de deixar o leito da mãe e apesar dos tempos modernos, não possuía muitos amigos, tão pouco saia a noite. Era ainda uma criança em questões de libido. Não possuía grandes ambições além de que sua mãe não vomitasse todo o jantar. Por vezes, cuidar de um enfermo podia ser torturante, mas aquele tipo de sofrimento estava prestes a terminar. Incompetente, Ismália falhara e sua mãe morrera. Fora então que as sombras noturnas de seu quarto passaram a ganhar vida e a lua não demorara a começar a sussurrar-lhe idéias. Idéias fascinantes.

Tudo que é vivo morre e a morte, sendo o maior mistério, deveria ser o fato mais intrigante da existência, sussurrava o luar. E tendo essa perspectiva, a jovem foi consumida por uma compulsão funesta. Buscava respostas nos livros, presa na biblioteca da família até a hora de dormir, quando retornava a seu quarto onde as sombras ganhavam vida e a lua, através da janela, a cumprimentava com idéias delirantes e moribundas. Seus diálogos passaram a ser apenas com a lua. Ninguém mais a fazia falar, seus olhos já não tinham vida e o médico da família não demorara a ser requisitado. Porém o veredicto não fora claro. A jovem mostrava sinais de catatonia, mas ainda assim continuava buscando textos sobre a morte, empenhada em pesquisas diárias e por outro lado, fora da biblioteca, tornava-se apática, com a aparência ausente, totalmente alheia ao resto do mundo. “Não pode estar saudável. Quem conversa com a lua?” – o pai se revoltara. Mas Ismália continuara a murmurar debruçada em sua janela, surda para as pessoas em seu quarto, cantarolando uma canção infantil com os lábios cerrados.

E no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...

Na banheira, a garota chafurdou em água quente, seus olhos fixos na lua cheia lá fora. O luar parecia incentivá-la com uma voz melodiosa, lembrando-lhe de que em breve descobriria todos os mistérios. Poderia tocar a lua e, quem sabe, desculpar-se com sua própria mãe por ter sido tão estupidamente errada, impotente e não ter conseguido impedir sua morte.

Ismália não teria mais que encarar seu reflexo indigno no espelho do banheiro. Quando a vida abandonasse seu corpo franzino, na pior das hipóteses ela se entregaria ao nada absoluto e silenciar a dor dilacerante que enlouquecia seu ser seria um conforto. Além do mais era extremamente necessário assassinar o ser patético que habitava seu corpo. E ainda, mais que tudo, cada nervo do corpo frágil de Ismália ansiava por descobrir aquele último mistério. O mistério do fim, da morte.

Com a voz doce da lua enchendo seus ouvidos e hipnotizando sua mente delirante, a garota afundou sua cabeça serenamente, deitando-se no fundo da banheira.

E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

A água quente envolvendo seu corpo trazia uma sensação calmante de alento. E foi assim que a garota se segurou abaixo da superfície, ainda admirando a lua através da água e da janela. Não tinha medo. Apesar da sensação desconcertante que fazia sua cabeça girar pela falta de oxigênio, Ismália focava sua mente apenas no luar que adentrava petulante, inundando a banheira onde se encontrava. A lua lhe fazia companhia naquele ultimo momento. Acariciava seus cabelos como a água a sua pele.

Deixou-se perder, mergulhando aos poucos na inconsciência. Parecia tão serena ao fechar os olhos que ninguém poderia sequer supor que seria a última vez que suas pálpebras estariam abertas. Bolhas escaparam dos lábios brancos e com um suspiro, água começou a invadir seus pulmões. Ismália sorriu e aquele tênue sorriso ficaria cravado em seus lábios eternamente, como que incrustado em mármore.

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...

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