Dualidade do Outono
“Uma vez, eu fui protegido por uma garota... Até agora, isso não mudou”
- USAR UM VESTIDO?! — Aki exclamou em voz alta, chamando a atenção de todos que passavam pelo pátio.
- Oe, não precisa avisar a escola inteira, idiota!! — bufou Susumu, sentindo uma grande vontade de meter a mão na cara de Aki, embora não se atrevesse, pois sabia o que aconteceria se machucasse o “sobrinho querido do professor Keiichi”.
A garota de cabelos brancos tapou rapidamente a boca, murmurando um “desculpe” meio sem graça. De fato, tinha chamado mais atenção do que gostaria, ainda mais agora que a escola andava muito mais movimentada com a aproximação do festival escolar anual. O ano havia passado bem rápido, e em alguns dias aquela tão esperada festa aconteceria. Todos os alunos estavam ajudando a enfeitar o colégio, e cada classe faria uma apresentação diferente para entreter os convidados. Contudo, os estudantes do segundo ano, conforme estipulado pelas diretoras, teriam que se vestir de modo diferente, cada qual por designação dos líderes e sub-líderes de seus respectivos clubes.
- Mas isso não é justo... Você e o Hikaru-senpai escolheram roupas tão legais para os outros... Por que só eu tenho que usar um vestido como se fosse uma garota?
- Porque você é o que tem mais feições afeminadas do que qualquer outro aqui. Além de ser nanico e não ter músculo algum. Uma peruca e um vestido em você é a mesma coisa do que ganhar uma garotinha para o nosso clube.
- Ma--
- Cala a boca! — interrompeu-a, agora irritado. — Você vai usar, querendo ou não. E irá se apresentar assim no Festival para todos. Assunto encerrado. — empurrou Aki para o lado, tirando-a de seu caminho, e indo se juntar ao seu grupo de... seguidores, por falta de uma palavra melhor.
A parte mais irônica? Aki, uma menina de verdade que se passa por um garoto a fim de se manter em um colégio masculino, agora terá que se vestir feito uma garota para uma apresentação. De duas coisas, uma: ou descobrem seu segredo de vez, ou pela primeira vez naquele colégio poderá agir e se mostrar como de fato ela é, sem que desconfiem de seu sexo.
~ Três dias depois ~
Fogos de artifícios, música alta, centenas de balões voando em direção ao majestoso céu azul daquela manhã de domingo. Mal haviam aberto os portões do colégio para a entrada dos visitantes, os pátios já estavam cheios. Pessoas do Japão inteiro iam ao famoso Festival das Folhas, promovido pela Taki Kyoto todos os anos, em meados do Outono. Diferente dos habituais festivais das outras escolas japonesas, geralmente durante a Primavera ou o Verão, a festa criada por aquele internato masculino tinha um certo charme especial com sua decoração e barracas exóticas. Embora as árvores estivessem totalmente desprovidas de folhagens, todas elas tinham os mais variados tipos de enfeites, desde balões e lanternas improvisadas até origamis e papéis de cartas pendurados. Pilhas de folhas amarelas, vermelhas, marrons... estavam dispostas de um jeito curioso, às vezes formando caminhos pelos jardins; caminhos verdadeiros, caminhos falsos, entradas verdadeiras, entradas falsas – um verdadeiro labirinto havia sido cuidadosamente preparado pelos alunos, e uma parte especial dele só seria aberta ao público no meio da noite, pois funcionaria como uma atração de terror em homenagem ao Halloween que seria celebrado na semana seguinte.
As barracas ofereciam bebidas quentes, ofurôs estavam disponíveis na área Intelectual, e as salas utilizadas como cafeterias especiais tinham até kotatsus (uma mesa especial para aquecer os pés e as pernas). Tudo naquele festival condizia com o gostoso Outono daquele ano, agradando a todo o público.
Entretanto, a melhor atração, sem dúvida alguma, eram os estudantes. Em particular os do segundo ano, que arrancavam risinhos dos outros garotos e muitos, mas muitos suspiros mesmo, das garotas. Os membros do Clube de Artes usavam fantasias de animais, os do Clube Intelectual faziam uma versão de Alice no País das Maravilhas, e os de Esportes uma apologia aos famosos haréns invertidos dos mangás shoujo. Todos os rapazes desse clube vestiam roupas descoladas, sensuais, atraentes, com exceção de uma pessoa: Aki. Justamente a garota havia sido escolhida para ser a protagonista do mangá, ou seja, seria literalmente a única mulher desse harém.
Adam olhava impaciente para o relógio na parede. Queria ir logo até o Auditório, onde ocorreria o desfile dos segundos anistas do Clube de Esportes. Não porque algum dos rapazes lhe interessassem, mas porque estava realmente ansioso para ver Aki usando um vestido. Pelos comentários que ouvira de algumas pessoas, seu amigo parecia estar realmente atraente e lembrava uma garota de verdade, o que havia deixado muitos visitantes impressionados. O que eles não sabiam, e nem o próprio Adam, é que Aki é uma garota de verdade. Ironias da vida.
- Pode ir se quiser, o movimento diminuiu um pouco agora que todos estão indo para o Auditório. — uma voz um tanto fria soou, obrigando Adam a dispersar seus pensamentos e se voltar para o dono dela. Era Kohaku, seu colega de clube, usando um traje impecável de Mad Hatter. Ou melhor, segundo a maioria das garotas que entraram naquela sala, ele estava mais para um Sexy Hatter.
- Mesmo?! Prometo voltar logo!! — exclamou animado, largando a bandeja que segurava sobre uma das mesas. Eles e mais dois outros colegas do Clube Intelectual estavam trabalhando como garçons em uma réplica perfeita de cafeteria montada na sala de aula do terceiro ano. — Valeu, cara! — deu um tapinha no ombro de Kohaku e saiu correndo porta afora, acenando.
Adam Spencer, inglês, moreno, era outra sensação entre as garotas. Estava vestido como monarca, uma versão masculina da Rainha de Copas. E, certamente, nenhum rei sequer usara uma roupa daquelas alguma vez. Usava um corpete de couro com muitos zíperes na região do tórax e um par de cintos em cada lado do peito, sendo que tal corpete cobria apenas um terço de seu abdômen. Usava também uma longa capa vermelha, uma fivela em forma de coração com uma coroa prateada em cima, e uma tira circular de couro no pescoço, formando uma espécie de colar bem justo. Era comum ver garotas dando ataques quando ele passava por elas, e embora aquilo o deixasse realmente constrangido, não dava bola para nenhuma delas.
~*~
- Andem logo com isso, bando de maricas! Não temos o dia todo. Esse buraco tem que ficar pronto antes do anoitecer! — gritava, ou melhor, praticamente rosnava o sub-líder do Clube de Esportes. Susumu estava preparando mais uma de suas brincadeirinhas, o que não era nenhuma novidade. Sua gangue cavava um profundo buraco, formando um túnel, que daria diretamente na parte mais baixa – e sombria – do labirinto nos jardins. E a pobre vítima que caísse ali, com certeza levaria um bom susto com as “surpresinhas” que o sub-líder havia preparado..
~*~
Já eram quase nove da noite e o festival não dava sinais de terminar tão cedo. Somente por ser uma ocasião especial, os estudantes não precisavam obedecer ao toque de recolher. Como já estava bem escuro e o tempo havia esfriado um pouco, a maior parte das atividades se davam nas salas de aula ou no auditório, com apresentações diversas. Agora, a principal atração eram as brincadeiras associadas ao Halloween, e o labirinto já havia sido fechado para que ninguém acabasse perdido por acidente.
- Aaaah!! Ele estava incrível!! — bagunçava os cabelos, desesperado, andando de volta ao prédio onde eram realizadas as atividades de seu clube. Seu turno no trabalho já havia terminado, mas não conseguia esquecer a visão de Aki desfilando pelo palco. O desconforto do amigo era visível, e ele próprio havia lhe confessado que estava sendo obrigado a usar aquelas roupas femininas, mas mesmo assim... Aki estava perfeito. Ou melhor, perfeita. Ele usava um belo vestido com vários tons de azul, e o tecido de seda fina caía muito bem em seu corpo tão pequeno. Sem mangas ou decote, pois dois laços subiam, dando a volta em seu pescoço, impedindo a visão de qualquer detalhe de seu colo. Contudo, ele certamente devia ter posto algum tipo de preenchimento na região dos seios, pois um certo volume era visível. O que Adam não sabia é que aqueles seios eram de verdade. Enfim, Aki também usava um par de sapatos prateados de salto alto e uma peruca cujos cabelos, também brancos, iam até metade de suas costas. Além disso, a maquiagem que Nariakira havia feito nele estava perfeita, bem melhor do que a de muitos modelos. — Se ao menos ele fosse uma garota de verdade, eu poderia... Mas mesmo ele sendo um garoto, eu também poderia... Aaaargh!! Não!! Eu não sou gay, eu não sou gay, eu não sou g-... — parou abruptamente, assustado. — Quem está aí? — olhou em volta, acuado. Ouvira o som de várias folhas secas se quebrando ao redor, e sabia que, na área em que estava, não devia ter mais ninguém.
Pela primeira vez, não era paranóia sua.
~*~
- Finalmente acabou. — Aki suspirou, aliviada. Agora poderia tirar todas aquelas frescuras que haviam posto em seu corpo e assim conseguiria mexer-se livremente como antes. Nem sabia como conseguira ficar tanto tempo com aqueles sapatos de salto alto. Não estava acostumada a usá-los, sempre preferiu seus bons e velhos tênis. Pelo menos havia feito sua parte, e agora cabia ao Clube de Artes encerrar a noite com a peça de teatro que estavam ensaiando a meses. Entrou no vestiário, aparentemente vazio, e fechou-se em um boxe para trocar de roupa. Já estava prestes a abrir o fecho de seu vestido, quando ouviu a conversa de dois rapazes que tinham acabado de entrar no recinto.
- ...aquele cara tá ferrado! Quer apostar quanto que ele molha as calças antes de sair daquela merda?
- Hahaha!! Vai saber! Não vejo nada de assustador em alguns fantoches de monstros.
- O chefe escolheu com cuidado o alvo dessa vez. Aquele tal de Spencer é um medroso de primeira categoria. Fique vendo!
“Spencer?” Aki prendeu a respiração por um momento, colando a orelha na porta do boxe para ouvir melhor a conversa do outro lado.
- Queria ver isso! Umas fotos cairiam bem.
- E você acha que o chefe não vai tirar? Você devia ter visto a cara do Spencer quando o encurralamos e o jogamos no buraco que cavamos. Ele deve ter parado na pior parte daquela merda de labirinto.
- Vai sair correndo com o rabo entre as pernas! Huahuahuahua... — e as vozes foram diminuindo à medida que os garotos se afastavam, até cessaram por completo assim que saíram do vestiário, apesar de suas risadas ecoarem bem audíveis ainda.
A porta do boxe se abriu com estrondo, e Aki saiu com os olhos arregalados. Sem pensar direito, agindo mais por impulso, largou tudo e saiu correndo em direção aos jardins. Sabia da fraqueza de Adam. Sabia o quanto ele morria de medo de assombrações. Se ele cair na armadilha de Susumu, certamente irá acreditar que alguma coisa está o perseguindo, ainda mais estando preso naquele labirinto tão escuro.
Adam corria perigo, e tinha pouco tempo para encontrá-lo.
Tirou seus sapatos de salto e os jogou em um canto qualquer, perto de alguns arbustos, sem a menor cerimônia. Também retirou sua peruca, deixando seus curtos e rebeldes cabelos brancos soltos ao ar livre. Respirou fundo duas vezes e, sem querer saber de mais nada, disparou pelo caminho. Descalça, conseguia correr muito mais rápido, e por ser ágil graças ao treinos e também pequena, possuía uma mobilidade muito maior. Não descansaria enquanto não encontrasse seu amigo.
“ADAM!!”
Desperate, desperate...
Não sabia quem ou o que o pegara, só sabia que, definitivamente, aquele era o último lugar o qual gostaria de visitar. A queda havia sido bem rápida, mas como tinha sido jogado de qualquer jeito, acabou caindo de cara no chão. Arranhou um pouco seu abdômen e fez um pequeno corte na bochecha esquerda, mas nada grave. Quando conseguiu se recompor, deparou-se com uma área sombria, deserta, silenciosa. A pouca luz que entrava pelas frestas das paredes lhe permitia a noção mínima de caminhos a seguir. Quatro entradas levando a quatro corredores estreitos: um à sua frente, outro atrás, um à direita e outro à esquerda.
O problema não era a escuridão ou o fato de estar sozinho naquele lugar estranho. O problema eram os ruídos perturbadores que ouvia por todos os lados, e como se não bastasse, podia sentir muito bem que estava sendo observado.
E o desespero o tomou.
You\'re reaching out, and no one hears you cry
You\'re freaking out again, cause all your fears remind you
And all the dream has come undone
You feel so small, then lost that you\'re the only one
You wanna scream, cause you\'re desperate
Olhava para todos os caminhos, sem saber qual seguir. Qual o levaria para a saída? Qual o meteria mais fundo nas entranhas da escuridão? O pânico não o deixava raciocinar direito. Numa decisão deveras aleatória, optou por seguir pela esquerda. O corredor era bem estreito naquele ponto, então teria no que se apoiar a princípio. As paredes eram feitas de arames entrelaçados, repletas de folhas, desde as mais vivas até as mais secas, desde as mais coloridas às mais negras, ligando inúmeras vigas de metal umas nas outras.
Os sons guturais pareciam aumentar, mas não sabia dizer com precisão de qual direção vinham. Apertou o passo. Tinha certeza de que algo o perseguia. E não era sua sombra. Começou a gritar por socorro, precisava sair daquele lugar logo. Porém, ninguém parecia lhe escutar.
Era pior do que a vez em que caíra em um poço e quebrou o braço. Pior que qualquer filme de terror que já vira na vida. Alguém queria pegá-lo, machucá-lo, envolvê-lo em algum tipo bizarro de acidente. E, assim como acontecia em todos os filmes de suspense e terror, estava sozinho.
Nem que gritasse a plenos pulmões, conseguiria diminuir o desespero que o esmagava.
You want somebody, just anybody
To lay the hands on your soul tonight
You want a reason to keep believing
That someday you\'re gonna see the light
Corria.
Os barulhos tornavam-se mais altos, vultos pareciam se destacar no meio da escuridão. Precisava sair dali, precisava se esconder em algum lugar onde aqueles malditos seres do outro mundo jamais o pegariam. Por que era sempre com ele? Eles não podiam perseguir outra pessoa? Ele nunca fez mal a ninguém!
Quando teria paz? Quando encontraria alguém que mandaria aquelas criaturas embora? Quando... encontraria um pouco de luz e sairia daquelas trevas que insistiam em sugá-lo?
You\'re in the dark, there\'s no one left to call
Your sleep\'s your only friend
But even sleep can\'t hide you
From all those tears and all the pain
And all the days you wasted pushing them away
It\'s your life, it\'s time to face it
Estava escuro demais, mal enxergava onde pisava. Gritava por ajuda, mas nenhuma resposta lhe era dada. Acabou tropeçando nos próprios pés, caindo no chão com um forte baque. Não se levantou, ali permanecendo. Seus olhos estavam trêmulos, mas talvez mais por causa da raiva que estava sentindo com toda aquela humilhação. Não importava quantas vezes se esforçava, sempre se deixava levar por seu medo.
Uma vez, um certo alguém aliviara aquela dor. Todavia, essa pessoa não estava ali. Essa pessoa estava em algum canto do colégio, possivelmente se divertindo com seus amigos no festival.
— Aki... — murmurou, chateado. Finalmente se levantou. Não tinha o que fazer, estava sozinho ali. Tinha que encarar seja lá o que fosse que estava o seguindo. Afinal, sua vida dependia disso.
You want somebody, just anybody
To lay the hands on your soul tonight
You want a reason to keep believing
That someday you\'re gonna see the light
Havia rondado toda a área externa do labirinto. Se bem lembrava, aqueles garotos haviam comentado algo sobre um buraco... Enquanto corria, Aki examinava com cuidado o chão. Não podia estar muito longe.
“Damn... o Susumu vai ver só! Ele foi longe demais dessa vez!” pensava, já se desesperando por não obter muito sucesso. Quando já estava optando em ir buscar ajuda, visualizou ao longe uma estranha rede cujas folhas, que a encobertava anteriormente, haviam sido espalhadas pelo vento. Só podia ser ali.
Sem pensar direito na profundidade ou no que encontraria lá embaixo, pulou de maneira um tanto inconseqüente, preparada para a iminente queda. Seus pés se chocarem contra o chão, e o impacto forçou-a a se agachar brevemente, mas logo se recompôs e colocou-se a correr, pegando um caminho completamente aleatório. Não se incomodava com os barulhos estranhos ou a escuridão. Para falar a verdade, não tinha medo dessas coisas. Sempre que assistia a filmes de terror ou algo do gênero, sua expressão era sempre neutra, às vezes curiosa, mas sempre tendia a uma indiferença incomum. Por alguma razão, não tinha muito efeito nela, diferentemente de suas irmãs, sendo que uma sempre chorava de medo, a outra gritava de empolgação por ver monstros e a última achava a coisa mais ridícula do mundo, alegando que teria o prazer de encontrar uma assombração só para acabar com ela. Já no caso de Aki... talvez por não entender muito bem o mistério envolvido no filme, talvez por achar besteira temer algo que sequer existia ou não era vivo. Os vivos são assustadores, e não os mortos.
Encruzilhadas, curvas, caminhos sem saída. Aquele labirinto era uma verdadeira dor de cabeça. Se ao menos tivesse se lembrado de trazer uma lanterna...
— AAAAAAH!!!
Parou. Aquele grito... era a voz de Adam, tinha certeza! Olhou em volta várias vezes. Ele devia estar por perto.
— ADAM!!! – berrou, na esperança de que o amigo a ouvisse. Ouviu-o novamente gritar e não suportou mais; voltou a correr, tentando seguir o som da voz dele, torcendo que aquilo bastasse para encontrá-lo de uma vez.
Cause you\'re desperate, desperate
Desperate, desperate
Cause you\'re desperate, desperate
Now
Sabia que estava parecendo um idiota, mas não conseguia evitar. Acabou gritando quando viu algo que parecia a silhueta de um homem mascarado segurando um machado, e depois de novo quando o que parecia ser uma garota vestindo trapos, e de longos cabelos negros, veio rastejando na sua direção. Entrou na primeira esquina que encontrou até parar em um beco sem saída.
— Não... Não...!! Preciso sair daqui!! — estava bem pálido e já havia alcançado seu limite. Em um ato de desespero maior ainda, resolveu apelar: começou a rasgar as folhas secas que encobriam a falsa parede à sua frente, tentando abrir caminho por ela mesmo. Contudo, o arame possuía muitas pontas soltas, o que causava pequenos cortes em suas mãos, manchando-as de sangue. Porém, não sentia dor.
You know that things has got to change
You can\'t go back, you\'ll find your way
And day by day, you start to come alive
Aquilo tudo era insano demais. No começo, durante os preparativos do festival, achou fantástica a idéia do labirinto. E, no entanto, um cretino havia conseguido transformá-lo em um pesadelo real. Decididamente, muitas coisas precisavam ser mudadas naquele colégio.
Não sabia onde estava, e tanto fazia qual caminho pegava. Precisava continuar, infiltrando-se cada vez mais no interior de tantos caminhos. Jamais tentaria voltar atrás, mesmo que ficasse perdida a noite toda. Adam havia se tornado uma pessoa muito importante para ela, e por isso jamais o abandonaria. O que sentia por ele... era único.
Sons de folhas se partindo em grandes quantidades. Algo rasgando. E, por fim, aquela tão conhecida voz. Seguiu o barulho antes que ele sumisse, e após virar duas vezes para a esquerda, finalmente o viu: à sua frente, numa tentativa frustrada de cortar o arame e passar por ele, estava Adam.
Por um instante, permitiu-se um suspiro de alívio. Entretanto, ao olhar minuciosamente o que ele estava fazendo, reparou no quanto o moreno estava se ferindo.
— ADAM! — exclamou numa voz mais aguda do que pretendia, avançando nele e o abraçando por trás, tentando arrastá-lo para longe do emaranhado de arame.
You want somebody, just anybody
To bring some peace to your soul tonight
You want a reason to keep believing
That someday you\'re gonna see the light
— AAAAH!!! NÃO, PARE, ME SOLTAAAA!!! — gritava, cada vez mais em pânico, tentando quebrar aquela parede falsa de qualquer jeito para cair o fora dali. — VOCÊS NÃO VÃO ME LEVAR PARA O INFERNO!! GO AWAY!!!
— Adam, pára!!! Sou eu, a Aki!!! — abraçava-o cada vez mais forte, nem percebendo que se referia a si própria no feminino, seu gênero certo. — Não há ninguém te perseguindo!! Só tem eu e você aqui!! Me ouça, seu bobão!! — esforçava-se para puxá-lo para longe da parede, antes que ele se machucasse mais, ao passo que tentava virá-lo de frente para si também.
— Não acredito em você!! Não vou pa-- — ao tentar afastá-la, acabou perdendo o equilíbrio, caindo e levando Aki consigo. De alguma forma, provavelmente por ter conseguido virá-lo um pouco antes de caírem, a garota acabou caindo bem no colo dele.
Por alguns minutos, nenhum dos dois se manifestou. Permaneceram imóveis, silenciosos, apenas trocando um intenso olhar. Ambos estavam muito corados, e milhões de pensamentos pareciam explodir em suas mentes a cada segundo.
Até que, em um ato repentino, Adam puxou Aki mais para si, abraçando-a com força. Escondeu seu rosto na curva do pescoço dela, e assim permaneceu, mantendo-a o tempo todo em seu colo.
You want somebody, just anybody
To lay the hands on your soul tonight
You want a reason to keep believing
That someday you\'re gonna see the light
— Está... tudo bem. Não tem ninguém aqui querendo te fazer mal ou te levar para o inferno. — correspondeu ao abraço, pousando delicadamente as mãos nas costas do moreno. Estava um pouco confusa com a atitude dele, mas se ele estava com tanto medo, aquilo devia ser normal... certo? — Você apenas caiu na armadilha do Susumu e tudo o que viu não passou de armação dele. Acabou.
Como resposta, o rapaz fungou baixinho contra a pele alva dela, fazendo-a corar mais ainda.
— A-Ahn... Er... — pigarreou discretamente, tentando engrossar um pouco a voz. — Se nos verem assim, irão pensar besteira. Não é melhor nós ir--
— Não importa. — respondeu rispidamente, interrompendo-a. Aki estremeceu um pouco, sem ter certeza se ele estava zangado, chateado ou meramente frustrado. Optou por permanecer em silêncio, esperando-o se acalmar. Sentiu as mãos dele desceram até sua cintura, apertando-a mais ainda.
Cause you\'re desperate, desperate
Cause you\'re desperate
Tonight
Desperate, cause you\'re desperate
Tonight, tonight
Não sabia ao certo quanto tempo havia se passado, mas certamente ficou naquela posição mais do que esperava. Quando finalmente sentiu uma pequena movimentação de Adam, achou que estava tudo bem e ele finalmente a soltaria, contudo...
Definitivamente, não esperava o que veio a seguir. Adam, de fato, erguera o rosto. Mas não se afastou; ao contrário, aproximou-o, roçando os lábios dele nos seus. Um beijo lento e inocente começou, e Aki retribuiu-o sem pensar. Aos poucos o beijo foi se itensificando, até que a necessidade de recobrar o fôlego os separou.
— Adam, por que você... — mas calou-se assim que ele pousou o indicador sobre seus lábios. O moreno aproximou o rosto novamente, mas dessa vez não para lhe beijar, e sim para lhe sussurrar algo.
A garota de cabelos brancos arregalou levemente os olhos com aquelas palavras, corando ainda mais. Com aquilo, concluiu duas coisas.
Primeiro, o pavor pelo qual Adam passara agora devia tê-lo deixado realmente desligado, pois ele sequer percebeu sua verdadeira identidade como garota.
E segundo...
Desperate, desperate...
— Vamos, vou te tirar daqui. — Aki sorriu gentilmente, enquanto desfazia um dos laços de seu vestido. Colocou-o sobre os olhos de Adam, tapando sua visão por completo, e amarrou a fita atrás da cabeça dele.
— Para quê isso? — ele indagou, confuso.
— É para que você não se assuste com qualquer sombra ou boneco que ainda possa ter por aqui. Se você se descontrolar e sair correndo de novo, será um grande problema para mim, sabia? — riu baixo, levantando-se. Ajudou-o a se levantar também e segurou com firmeza sua mão. — Confie em mim, vou te guiar para a saída.
— Você sabe onde ela fica?
— Não. Mas... Agora dá para encontrá-la com calma. E eu não ligo de andar no escuro, então não se preocupe. Ah! Eu irei assobiando pelo caminho, assim os sons não irão te assustar também. Concentre-se apenas na minha melodia, tá? — fez-lhe um breve carinho na mão e começou a andar, puxando-o, sempre o mantendo perto de seu corpo. Iniciou uma suave, porém alta, melodia. Era bem fácil para ela, pois bastava adaptar alguma das músicas que tocava com sua flauta. Fôlego não era um problema.
E segundo... Tinha aquelas palavras que ele sussurrara. Palavras sinceras.
Sorriu timidamente com aquilo, atravessando o labirinto com Adam em seu encalço.
“Não me importo se você é um garoto ou uma garota. O que eu sinto por você não vai mudar.”