“Você deixaria que eu permanecesse naquele mundo?”
O silêncio predominava nos novos aposentos do rei, naquela nave espacial grandiosa onde todos os habitantes salvos dos destroços de Asgard ocupavam-se.
Naquela noite, após o ato de consumação íntimo e segredado apenas entre os filhos de Odin, acabaram por adormecer juntos, algo não difícil de acontecer, uma vez que desde suas infâncias costumavam partilhar de tal momento.
Estavam no meio da noite – ou no que acreditava ser noite, afinal, era difícil saber quando estavam sempre cercados pelas colorações indefinidas e mescladas do universo em movimento – e acordara sem o calor do corpo maior ao lado do seu. Sentara-se na cama, confuso e um tanto desorientado pela sonolência, encontrando o irmão e amante na pequena dobra do cômodo, com a maior parte rodeado por um material transparente, expondo o universo atrás de si.
A primeira coisa a qual observara fora as marcas deixadas pelas suas unhas curtas, deixando rastros vermelhos pela pele forte e morena, sendo ocultadas pelo cós da calça frouxamente vestida ao redor do quadril do maior. Este, de costas, nem ao menos se dera conta de que a si despertara.
Tinha o irmão que cobiçara e nutrira desejos tão profundos por uma existência inteira há muito pouco tempo, e se tempo já era uma sensação relativa e dependente de perspectiva, a relação poderia ser considerava mais frágil ainda.
Tanta coisa para se dizer... Muitas, na verdade, principalmente acerca das novas descobertas de ambas as partes para com sentimentos e almejos. Ainda sim, escolhera o pensamento que o assolava desde que o comentário deixara os lábios do irmão; a proposta de se livrar de si; a fragilidade que, se houvesse aceito, faria ambos criarem uma distância centenas de vezes maior entre ambos.
“Você deixaria que eu permanecesse naquele mundo?” fora a ponderação que deixara seus lábios, vibrando suas cordas vocais em músculos tensos da garganta, embora sua fragilidade e exposição naquelas palavras não fossem o suficiente para conseguir com que o loiro ao menos virasse o corpo na sua direção.
“Se assim fosse a sua vontade...”
Doera. As palavras do irmão foram como uma adaga atravessando a sua carne – e, daquele tipo de dor, conhecia melhor do que gostaria.
“Isto deveria soar altruísta e bem-feitor?” retrucara da melhor forma a qual conhecia: com ironia e acidez, retribuindo com palavras afiadas, na pura e real intenção de apunhalar o loiro exatamente como ele fizera consigo.
“Eu queria o melhor para você.”
“Desde quando?” indagara, sentindo a raiva fluir por dentro de suas veias, intoxicando todo seu organismo em uma velocidade cinco vezes mais rápida do que seu bombardear de sangue, aumentando a cada milissegundo. “Desde que me colocou dentro de uma cela? Ou que quis me deixar para morrer quando-“
“Você não pode parar...” o loiro começara, virando de frente para si e balançando a cabeça em uma careta, posicionando a mão na própria testa, com indicador e polegar nas têmporas. Um sorriso falho e seco repuxando seus lábios. “De tentar brigar e odiar durante apenas-”
“Você se livraria de mim assim,” sacudira os ombros, irritadiço com a falta de resposta e réplica tão pausada por parte do loiro. “Na primeira oportunidade, sem quaisquer dificuldades e remorso?”
“Disse à você a verdade, de que somente queria o melhor.”
“E o que você considera o melhor é me manter o mais longe possível?!” elevara o tom de voz, tremendo tanto em palavras quanto o próprio estado físico, tomando por aquela raiva cuja qual começava a borbulhar por dentro de suas veias. “Sua hipocrisia não muda.”
O loiro parara por um momento, respirando fundo, então vindo ao seu encontro e sentando-se na beirada da cama, próximo de si, embora Thor ainda possuísse um mínimo de inteligência, o suficiente para manter uma distância segura entre ambos.
“Naquele momento eu acreditava que o melhor para você seria poder em um mundo de caos e rebeldia. Você me provou errado. Você sempre me surpreende, irmão...” o mais velho lhe sorrira, rastejando a mão pelo lençol escuro, trazendo-a ao encontro da sua. No mesmo momento recuara, rejeitando o contato. “Eu estou realmente feliz por você ter me provado errado e de que o melhor para você não fosse o que eu pensava ser. Sou grato por ter você aqui, comigo, e agora que sei de que isto,” o loiro movera as mãos entre ambos, sinalizando os dois corpos presentes ali. “De que nós,” ele corrigira-se, “É o melhor para você, não tenho intenção alguma de permitir que você parta.”
Encara-o durante mais alguns segundos, encarando os olhos claros do maior na análise em busca dos resquícios daquilo em que sabia fazer de melhor: mentir, e encontrar as farsas e falhas em discursos de terceiros.
A raiva em suas veias voltara-se contra si mesmo ao sentir o próprio peito tornar-se morno e derretido para o sorriso estúpido daquele homem, quem tinha tanta beleza, inocência e sinceridade em todos seus atos. Quem estava pensando em si naquele momento, sorrindo para si e encarando-lhe com uma admiração e devoção com a qual jamais alguém antes lhe fitara.
Lenta e disfarçadamente, rastejara sua mão de volta pela roupa de cama, retomando-a para a mesma posição de anteriormente, no exato lugar onde a de Thor se encontrava naquele momento.
Thor erguera sua mão e beijara os nós de seus dedos, mantendo o contato visual consigo durante todo o ato.
“É bom o suficiente para você, irmão?”
Embora todo seu interior houvesse se desfeito naquele ato de carinho tão singelo, proveniente do homem quem mais lhe importava no universo inteiro, não se permitira transparecer. Mantivera o cordial e aparente, disfarçando com uma casca de insensibilidade, como aprendera a fazer tão bem sua vida inteira – afinal, em Asgard jamais houvera espaço para seus sentimentos, anseios, almejos e pequenos egoísmos.
“Yeah... Creio que sim” pronunciara-se sério; arrogante, mantendo queixo para cima e o sorrisinho sarcástico no canto dos lábios.
Sua fachada, entretanto, não era mais o suficiente para conter o loiro extrovertido, quem vibrara as cordas vocais graves em um riso baixinho, então este avançando sem aviso prévio, envolvendo todo seu corpo magro em braços fortes de pele amorenada, forçando um beijo violento e nada romantizado em seus cabelos, seguido pelo próximo, em sua bochecha magra e ossuda.
“Você fica tão bonito quando se faz todo de sério e com essa carinha de ‘oh, eu não dou a mínima’ escondendo esse coração mole” o loiro brincara, vibrando o riso novamente, alimentando a sua carranca.
“Cala a boca.”
“Com vergonha fica mais bonitinho ainda. Meu lindo e devasso irmãozinho.”
Mesmo com sua relutância e frigidez, mantendo-se fixo no lugar e irritadiço com todo o aperto contra sua vontade, Thor não se comovia e seguia enchendo-lhe de beijos pela lateral do rosto e cabelos.
“Você é tão irritante.”
“Mas você me ama” Thor retrucara, subindo uma das mãos firmes para segurar em seu queixo e virar seu rosto, depositando um dos beijos entusiasmado em seus lábios, abruptamente diminuindo o ritmo para um calmo e proveitoso. “E eu amo você.”
Sua resposta fora somente um mínimo, porém singelo sorriso. O suficiente para que o loiro compreendesse sua resposta não-verbal de que a sentença era recíproca.

