Vigilante Inc.
Vigilante Inc.
Capítulo 110 min de leitura

O Posto de Gasolina

O sinal da escola ecoou pelo corredor como um grito de liberdade, mas para Tales e Peter, era o disparo de largada. Peter cruzou o portão primeiro, a mochila balançando perigosamente em um ombro enquanto gesticulava sobre a última edição de sua HQ favorita.


— Eu tô te falando, Tales, não faz sentido nenhum ele sobreviver àquilo. Nenhum.


Tales caminhava ao lado, o sol da tarde fazendo seus cabelos loiros, quase brancos, brilharem. Ele observava o trânsito e o fluxo das pessoas com uma calma que não pertencia a um garoto de treze anos.


— Faz sentido sim. Ele ainda não enfrentou o vilão principal. Seria cedo demais.


— Ah, claro. O estrategista falando. — Peter riu. — Você sempre pensa três capítulos na frente.


Tales deu um meio sorriso. Ele não pensava apenas nos capítulos; ele sentia o ritmo das coisas, como se o mundo fosse um mecanismo que ele estivesse prestes a entender.


Eles já atravessavam a rua quando uma voz conhecida veio atrás.


— Ei! Não vão dizer tchau pra mim?

Os dois pararam em sincronia. Emily vinha logo atrás, mãos na cintura e uma indignação fingida que não conseguia esconder o brilho divertido no olhar.


— Foi mal, Emily! — Peter respondeu.


— Até amanhã! — completou Tales.


Ela revirou os olhos.


— Vocês são impossíveis.


E seguiu na direção oposta, balançando a cabeça. Peter a acompanhou com o olhar por um breve segundo.


— Ela podia ter um pingo de cultura e gostar de quadrinhos, né?


Tales assentiu, distraído. A cidade ao redor parecia mergulhada em uma normalidade absoluta: prédios médios, o coro distante de buzinas e vendedores ambulantes recolhendo suas barracas. Nada sugeria que o mundo escondesse algo além da rotina. No meio do caminho até a loja de quadrinhos, Peter chutou uma pedrinha, acompanhando-a quicar pela calçada.


— Se você tivesse dinheiro infinito… tipo infinito mesmo… o que você faria?


Tales ponderou por um momento.


— Infinito infinito?


— Infinito nível final boss.


Alguns passos de silêncio se seguiram.


— Eu compraria um posto de gasolina.


Peter travou no meio da calçada.


— Um… o quê?


— Um posto de gasolina.


— Por quê?!


Tales deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia.


— Não sei. Parece legal. A gente podia ter um lugar só nosso. “Posto Hardt & Vance”.


Peter o encarou em silêncio por dois segundos antes de romper em uma gargalhada genuína.


— A gente vai ficar milionário… e comprar um posto de gasolina.


— Você não odiou a ideia.


Peter abriu um sorriso torto.


— Não. Eu achei genial.


E ali, numa calçada qualquer, dois garotos de treze anos e meio selaram um pacto sem qualquer lógica. Um dia, eles comprariam um posto de gasolina.


Poucas ruas depois, o cheiro familiar de papel e tinta anunciou o destino. A loja era pequena, apertada e, para eles, perfeita. Peter foi direto para a prateleira principal, os olhos brilhando.


— Finalmente!


Tales pegou a mesma revista, mas, em vez de seguir para o caixa, devolveu-a à estante.


— Vou pedir pra entregar em casa.


Peter virou devagar, franzindo o cenho.


— Pra quê?


— Ah… sei lá.


— Deixa de ser mané.


Tales hesitou, sentindo o peso do olhar do amigo.


— A garota dos correios que faz as entregas… ela é bonita.


O silêncio durou meio segundo antes de Peter explodir em uma risada que ecoou por toda a loja.


— EU SABIA!


— Cala a boca!


O dono da loja riu atrás do balcão, acostumado com a dupla.


— Vocês dois são figuras.


— A gente vai arrumar emprego e comprar um posto de gasolina — Peter declarou, cheio de convicção.


O homem arqueou a sobrancelha, soltando um suspiro divertido.


— Claro que vão.


Na saída, Peter ainda provocava Tales sobre a nova paixão quando o sino da porta tocou novamente. E um homem de chapéu verde entrou.


Ele aparentava ter cerca de 27 anos, com cabelos loiros de tom médio que caíam em ondas desalinhadas sob o chapéu verde. Seus olhos verdes escuros tinham um brilho astuto. Estava com uma postura relaxada e economia de movimentos que contrastava com a energia caótica dos meninos que saíram a pouco. Sem pressa, ele se aproximou do balcão.


— Tarde.


— Perdeu duas figuras interessantes, Leon — comentou o dono. — Querem arrumar emprego pra comprar um posto.


Leon ficou em silêncio por um instante, e então, sorriu. Mas não era o sorriso de quem achou graça; era o sorriso de quem reconheceu uma oportunidade.


O céu ganhava tons alaranjados quando eles se despediram na esquina de sempre, cada um levando consigo o eco daquela ideia absurda.


Na casa de Peter, o aroma do almoço ainda pairava no ar. Ele mal fechou a porta e já anunciou sua chegada.


— Cheguei, mãe!


— Bem-vindo, meu filho! — ela respondeu da cozinha.


Peter largou a mochila no sofá, o peso das alças deixando um alívio momentâneo nos ombros.


— Mãe… você acha que eu conseguiria arrumar um emprego?


Ela apareceu na porta, a surpresa nítida no rosto.


— Emprego? Você ainda é muito novo pra isso, Pete.


— Eu e o Tales estávamos pensando… seria legal. A gente quer juntar dinheiro.


Ela reconheceu aquele brilho instantaneamente. Era o mesmo que via nos olhos do pai dele. Um rastro de preocupação cruzou seu semblante; o medo de que aquele "trabalho" fosse o primeiro passo para longe da segurança da infância.


— A gente conversa sobre isso, tá? — disse com cuidado.


Peter assentiu, mas o brilho persistia. O assunto não morreria ali.


Na casa dos Hardt, Lena já cumpria seu ritual na janela. Ao avistar Tales dobrando a esquina, ela saltou da cadeira e correu para a porta, espiando pelo olho mágico na ponta dos pés. Assim que a porta se abriu, ela se lançou sobre ele.


— VOCÊ CHEGOUUU!


Tales riu, erguendo a irmã no ar antes que ela pudesse confiscar sua mochila.


— Oi, Lena. Eu também senti saudade.


— Deixa eu ajudar com a mochila!


— Nem pensar. É pesada demais pra você, mocinha.


Após cumprimentar os pais, ele se refugiou no quarto. Entre uma fase de Dimension Dash e outra, seus pensamentos oscilavam entre postos de gasolina e a garota dos correios. A noite caiu mansa e, como sempre, o dever de irmão mais velho o chamou.


— Vai contar historinha pra eu dormir? — Lena perguntou, já sob as cobertas.


— Claro. Deita aí.


Tales sentou-se à beira da cama, a voz baixando para um tom narrativo.


— Era uma vez um garoto sonhador que saiu pelo mundo em busca de um tesouro… porque ele queria realizar o maior sonho da vida dele.


— Qual era? — ela perguntou, o sono já pesando nas pálpebras.


Tales sorriu, olhando para o teto.


— Comprar uma ilha.


Ela riu baixinho e, pouco depois, o silêncio da respiração pesada dominou o quarto. Tales apagou a luz, mas o próprio sono demoraria a vir.


A cidade adormeceu sob um manto de luzes que se apagavam. O vento frio começou a chicotear as ruas vazias até que, subitamente, o alarme de um banco rasgou o silêncio.


Um vulto ofegante contornou a lateral do prédio, apertando um volume contra o peito. Ele tropeçou, recuperou o equilíbrio, mas estacou ao sentir um frio na espinha. Uma sombra se projetou sobre ele. No alto da cornija, imóvel contra a lua, estava uma figura de casaco longo. O chapéu ocultava o rosto, mas a presença era esmagadora.


O ladrão engoliu seco e disparou. Saltou obstáculos, atravessou becos escuros, mas o som de passos firmes e rítmicos continuava logo atrás, como uma batida de coração inevitável. Ao dobrar a última esquina, ele estancou. O homem do chapéu estava lá, parado, como se o espaço entre eles nunca tivesse existido.


Em um piscar de olhos, o movimento aconteceu. Um golpe preciso na nuca enviou o ladrão ao chão. Poucas palavras foram trocadas, sussurros que se perderam no vento. Com um toque de dois dedos na testa do homem caído, a consciência dele se esvaiu.


Minutos depois, a viatura estacionou. A policial desceu, o vapor do café subindo no ar gelado, e suspirou ao ver o meliante amarrado ao poste.


— De novo…


A cidade despertava para mais um dia comum, ignorando a vigília da noite.


Na manhã seguinte, os cartazes brancos com letras garrafais decoravam os muros.

“PROCURA-SE JOVEM APRENDIZ – Correios da Região”


Peter foi o primeiro a notar, puxando Tales pelo braço.


— Olha isso!


Tales analisou o papel com a cautela de sempre.


— Coincidência demais.


— O universo quer nosso posto.


— Ou é golpe.


— Imagina se a menina trabalha lá.


— Não começa.


— Vai dar namoro no correio!


Rindo, eles seguiram o chamado, sem notar que o caminho levava a algo muito mais vasto que um balcão de entregas.


O prédio da V.I.G.I.L. era de uma simplicidade absoluta. Leon estava atrás do balcão, a mesma postura relaxada da loja de quadrinhos. Ele recebeu as fichas e os documentos sem pressa.


Mas quando seus olhos pousaram no nome “Tales Hardt”, o tempo pareceu sofrer um solavanco. Foi apenas um segundo — uma pausa imperceptível para qualquer um, menos para ele. Ele ergueu o olhar, estudando o rosto do garoto, e então fechou a pasta com um estalo seco.


— Muito bem. Vocês começam na semana que vem.


A ficha demorou a cair.

— A gente… passou? — Peter perguntou, a voz subindo um tom.


— Sim.


O olhar que Tales e Peter trocaram continha toda a eletricidade do mundo.


— A GENTE CONSEGUIU!


Leon permitiu-se um pequeno sorriso de canto.


— Segunda-feira. Duas da tarde. Não se atrasem.


Eles dispararam pela porta, correndo como se o asfalto fosse o início de um império. Atrás do vidro, Leon os observou até que sumissem na esquina. Carregado de pensamentos.


Tales foi recebido pelo furacão chamado Lena. Ele a segurou no ar, rindo da empolgação pura da irmã.


— Consegui, Lena. Eu consegui.


Na cozinha, o clima era de uma alegria contida. O pai de Tales cruzou os braços, um sorriso orgulhoso lutando contra a seriedade.


— Fico orgulhoso pela iniciativa, filho. Mas não se esqueça, trabalho é responsabilidade.


— Eu sei.


A mãe, porém, mantinha o olhar fixo nele, os olhos verdes nublados por uma preocupação que Tales não conseguia decifrar.


— Só… tenha cuidado.


Tales sorriu, tentando tranquilizá-la.


— Tudo bem. Estarei com o Peter.


Na casa de Peter, o silêncio da mãe dizia mais que as palavras. Ela ajeitou o cabelo do filho, sentindo o quanto ele estava crescendo rápido demais.


— Você ainda é meu bebê.


— Mãe!


Ela suspirou, o medo antigo vibrando em seu peito como uma nota desafinada.


— Só tome cuidado.


Peter respondeu com a mesma confiança de sempre.


— Tudo bem. Estarei com o Tales.


Naquela noite, o sono veio rápido para os dois. Eles sonhavam com postos de gasolina e planos malucos, ignorando que, nas sombras da cidade, o mundo já havia dado o primeiro passo em direção a eles.