

O dia finalmente tinha chegado. Cada treino, cada dieta e cada cuidado tinham feito parte da preparação para aquele momento. Agora, sentado no vestiário e olhando para trás, consigo entender que tudo valeu a pena.
Ainda me lembro da primeira vez em que segurei uma bola de futebol americano. Lembro da ansiedade ao vê-la sair das mãos do meu pai e atravessar o campo até chegar às minhas mãos.
Ele me ensinou qual era a função de cada posição e como o jogo funcionava. Quando assisti à minha primeira partida ao vivo, sentir a torcida vibrar ao meu redor me fez ter certeza, mesmo sendo muito novo, de que era aquilo que eu queria fazer pelo resto da vida.
Naquela época, eu acreditava que bastava continuar treinando para que o futebol fizesse parte da minha vida para sempre. Ainda não sabia que algumas coisas não dependiam apenas da minha vontade.
Pouco tempo depois, minha família se mudou para outra cidade. Em poucos dias, precisei deixar para trás o campo onde tudo havia começado, os colegas de brincadeira e a rotina que eu conhecia. Eu teria que começar de novo, em um lugar onde ninguém me conhecia e onde eu não sabia se encontraria algo capaz de substituir o que havia deixado para trás.
Lembro-me de ter chegado à nova casa sem entender por que minha família estava tão animada com aquela mudança. Desci do carro emburrado, enquanto minha mãe tentava me consolar.
— Sasuke, você precisa ao menos dar uma chance a este lugar. Olhe só à sua volta. Imagine tudo de legal que você pode construir aqui.
Acenei com a cabeça baixa, embora não estivesse completamente convencido.
— Nós seremos muito felizes aqui, meu amor. Você vai ver — disse, afagando minha cabeça. — Agora, ajude seu irmão com as malas, sim?
Ainda de cabeça baixa, voltei para o carro. Quando ergui o olhar, deparei-me com uma menina espiando pelas frestas da cerca da casa da frente. Aquela cena despertou minha curiosidade.
Nossos olhares se encontraram por um breve momento. Suas bochechas, rosadas como os cabelos, denunciavam sua vergonha. Ficamos nos encarando por alguns segundos, até que ela se virou e correu em direção à casa.
Continuei olhando para o lugar onde ela estava até poucos minutos atrás.
Meu irmão me tirou daquele momento com um leve tapa na cabeça.
— Vamos, Sasuke! Não vou carregar tudo sozinho!
«☆»
À tarde, depois que todas as caixas já haviam sido descarregadas, finalmente pude descansar. Assim que tive um momento livre, corri para o quintal dos fundos com a bola nas mãos. Itachi veio logo atrás de mim.
Ficamos lançando a bola um para o outro enquanto ele tentava me convencer de que aquela mudança não seria tão ruim.
— Ouvi dizer que a escola daqui gosta bastante de esportes. Quando você for mais velho, talvez alguém importante veja você jogando. Quem sabe até consiga uma bolsa para estudar.
— Como vou chamar a atenção deles? Nem time eu tenho! — respondi carrancudo.
— Você acabou de chegar e já decidiu que não vai dar certo. A escola ainda não tem um time para crianças da sua idade, mas isso pode mudar quando você crescer um pouco.
— Até lá, nem vou saber mais jogar. Eu quero entrar em um time agora.
O sorriso de Itachi me deixou ainda mais irritado.
— Deixe as coisas acontecerem no seu tempo, Sasuke. Agora, pare de reclamar e passe a bola direito.
Ele não entendia minha irritação. Na verdade, nenhum deles entendia. Eu só queria voltar a viver onde tudo já existia e se encaixava.
Antes que ele me devolvesse a bola, ouvimos mamãe nos chamando de dentro da casa. Esperava muito que o chamado não fosse para continuar com a mudança.
Para a minha surpresa, acompanhada de uma mulher desconhecida para mim, estava a garota de mais cedo.
De perto, o rosa de seus cabelos era ainda mais evidente do que eu havia percebido através da cerca. A cor combinava com seus olhos esverdeados de um jeito que achei bonito.
— Meninos, queria apresentar nossas novas vizinhas: Mebuki e sua filha, Sakura.
— É um prazer, senhora Mebuki e senhorita Sakura — Itachi se adiantou em cumprimentá-las.
Eu ainda encarava Sakura, sem saber o que dizer. Apenas acenei com a cabeça.
— Por que vocês, crianças, não vão brincar lá fora? Sasuke, mostre o quintal para a Sakura, sim! E você, Itachi, vá ajudar seu pai na garagem enquanto converso com a Mebuki.
Mamãe insistiu para que passássemos mais tempo juntos. Acho que ela acreditava que uma amizade me faria bem.
A mãe da menina parecia concordar com a ideia, já que deu um leve empurrão em suas costas, enquanto eu seguia calmamente para pegar a bola que havíamos deixado de lado.
Eu não sabia o que fazer. Não era bom em fazer amizades, ainda mais com uma garota. Ela, aparentemente, não tinha o mesmo problema, já que começou a me bombardear de perguntas.
— Então! Quantos anos você tem?
Eu nem conhecia aquela menina. Não ia sair contando minha vida para uma desconhecida.
— Está gostando da mudança?
Continuei calado até que a próxima pergunta me pegou desprevenido.
— Essa bola é de qual esporte? Como se brinca com ela?
Troquei um rápido olhar entre a bola e ela, para confirmar que era sobre aquilo mesmo que estava perguntando.
— Você não conhece futebol americano? — perguntei, incrédulo. Como alguém podia não conhecer o melhor esporte de todos os tempos?
— Desculpe, não — respondeu, um pouco envergonhada. — Minha mãe não entende de esportes e meu pai... Bom, ele não está por perto.
Percebi a animação desaparecer de seu rosto, dando lugar à tristeza.
— Posso te ensinar sobre o esporte, se você quiser.
— Mesmo? — perguntou, com entusiasmo na voz.
— Mesmo! Assim, quando eu for jogador profissional, você vai poder assistir aos meus jogos e entender tudinho!
Ter a chance de passar adiante tudo o que meu pai um dia havia me ensinado me devolveu uma animação que eu não sentia desde a mudança.
Ia sugerir que brincássemos de arremesso quando ouvimos a mãe dela chamá-la.
— Sakura! Vamos, querida?
Fiquei de pé e observei-a se afastar.
— Você promete me ensinar sobre o jogo depois? — perguntou.
— Sim, rosada! Quando você quiser! — confirmei, enquanto a observava partir. E assim, pela primeira vez desde que havia chegado, senti que talvez pudesse ter uma vida naquele lugar.
Quando ela foi embora, permaneci com a sensação de que aquele era apenas o começo de uma nova amizade.
«☆»
Eu estava certo: Sakura se tornaria uma das pessoas mais importantes da minha vida. Mas não do jeito que eu imaginava.
Ainda no primeiro dia de aula, mamãe me deixou em frente à escola onde eu passaria os próximos anos. Para minha felicidade, ao entrar na sala, me deparei com a menina de cabelos rosados sentada logo à frente.
Sakura acenava freneticamente para que eu sentasse na carteira ao lado da sua. Como não conhecia ninguém, acabei seguindo para lá.
Seu jeito curioso e espalhafatoso foi inicialmente estranho para mim, que era mais quieto e reservado. Diferentemente de mim, ela parecia querer saber sobre tudo: os treinos, as posições do jogo, as pessoas da escola e até coisas que não tinham nada a ver comigo.
Confesso que no começo minhas respostas eram feitas apenas para que ela me deixasse em paz, mas com o tempo fui me acostumando a ter sua presença ao meu lado. Passei a entender que esse era seu jeito de demonstrar carinho e afeto. Quando dei por mim, eu mesmo procurava por ela e puxava assunto mesmo quando não tinha nada importante para dizer.
Gostava de ter toda a sua atenção.
Em pouco tempo, tornou-se normal encontrar Sakura ao meu lado. Ela me esperava antes da aula, sentava comigo durante o almoço e aparecia no quintal sempre que queria aprender alguma coisa nova sobre futebol.
Naquela época, ainda não entendia que havia deixado de apenas aceitar a companhia de Sakura. Eu já esperava por ela.
Só percebi o quanto dependia daquela rotina quando ela começou a mudar.
A adolescência chegou aos poucos. Meu corpo começou a mudar, os treinos ficaram mais exigentes e a oportunidade de entrar para o time se aproximava. Quando percebi, minha carteira havia sido transferida para o fundo da sala.
No começo, achei que a mudança de lugar era o principal motivo para conversarmos menos. Eu já não conseguia fazer uma pergunta a Sakura durante a aula sem precisar me virar, e ela também parecia sempre ocupada com alguma coisa.
Depois, entendi que não era apenas a carteira. Sakura começou a passar mais tempo com Ino, enquanto eu me aproximava dos garotos que treinavam comigo. Nossos horários, que antes pareciam se encaixar sozinhos, começaram a exigir combinações que quase nunca conseguíamos cumprir.
Eu não via aquilo como um afastamento. Para mim, continuávamos sendo os mesmos amigos de sempre. Apenas estávamos ocupados demais naquela fase.
Mesmo assim, de vez em quando eu me pegava olhando para a carteira vazia de Sakura ou para o caminho que levava à sua casa.
Naquela época, eu ainda não sabia dar nome ao que sentia. Só sabia que, quando ela não estava por perto, alguma coisa no meu dia parecia fora do lugar.
«☆»
As férias de inverno passaram rápido. Quando dei por mim, já desembarcava no saguão principal do aeroporto.
Havia sobrevivido ao mês inteiro ao lado de Itachi sem que nos matássemos. Isso já era uma vitória e tanto.
As ruas da cidade tinham cheiro de casa, e eu estava ansioso para finalmente descansar em meu quarto. Pelo menos era o que dizia a mim mesmo. O fato de a casa da frente estar tão próxima também contribuía para o meu entusiasmo.
— Pare de bater essa perna, Sasuke. Relaxa, já estamos chegando. Sua amada consegue esperar mais alguns minutos.
Ah, sim. E o fato de eu não precisar mais o atuar também contribuía significativamente para isso.
— Cala a boca, Itachi. Só estou cansado. As aulas começam amanhã; nem vou ter tempo de descansar.
— Claro, sei... descansar.
Ignorei suas indiretas. O carro parou em frente à nossa casa, e eu disfarçadamente direcionei o olhar para o outro lado da rua. A casa estava escura e silenciosa, frustrando meu plano de atravessar a rua. Eu teria que esperar até a manhã seguinte para contar a Sakura as novidades das férias.
«☆»
Acordei assustado com o despertador tocando. Minha ideia era ir até a casa de Sakura e acompanhá-la até a escola naquela manhã. Queria aproveitar o momento para contar-lhe as novidades das férias. Mas, ao pegar o celular, percebi que estava atrasado. Provavelmente, ela já havia saído.
A rotina da manhã foi corrida. Cheguei à escola pouco antes de o sinal tocar. Ao entrar na sala, Sakura já estava sentada em sua carteira habitual.
Não sei se era a saudade, mas ela me pareceu ainda mais bonita do que antes. Não que Sakura já não fosse bonita; muito pelo contrário. Ela sempre chamava a atenção dos garotos por onde passava.
— Sasuke! Que saudade!
Minha atenção foi desviada para a garota que se agarrou ao meu braço: Karin Uzumaki. Desde que chegara, no início do ano letivo, ela me perseguia por todos os lados.
Não suportava aquele grude. Pelo pouco que conhecia de Karin, não conseguia imaginar que tivéssemos qualquer tipo de relação, nem mesmo uma amizade.
— Bom dia, Karin. Como vai? — respondi. Embora não gostasse do jeito dela, minha mãe havia me ensinado a tratar os outros com educação.
Os céus ouviram minhas preces, pois, antes que ela pudesse responder e iniciar uma conversa, o professor entrou na sala, fazendo os alunos voltarem para seus lugares.
Em uma última tentativa de contato, virei-me para Sakura. Ela me olhava, e seus olhos esverdeados demonstravam curiosidade e algo mais que não soube identificar.
— Quer um papel para secar a baba? — perguntou Naruto.
— Cala a boca, Naruto. Pare de falar besteira e preste atenção na aula!
Esperava que ninguém tivesse ouvido aquilo.
Não conseguia esperar mais tempo; precisava falar com ela. Mesmo que fosse por mensagem.
“Sasuke: E aí, rosada! Não consegui chegar antes!“
”Sakura: Quem é vivo sempre aparece kkk. Foi para a cidade grande e achou que tinha esquecido dos amigos do interior? 😢“
”Sasuke: Com esse tom de cabelo? Nem que eu quisesse, conseguiria te esquecer kkkk.”
“Sakura: Hahaha, bobão 😝. No dia em que eu sumir de verdade, você vai sentir falta!”
Só a possibilidade de ficar sem ela por perto já me apertava o peito. Jamais permitiria que nos afastássemos. Senti vontade de confirmar isso com ela.
“Sasuke: Prometo jamais te perder de vista, chiclete. Estarei sempre de olho e por perto!”
Tratei logo de mudar de assunto. Não queria que o clima ficasse pesado demais, ainda mais depois de tanto tempo sem nos vermos.
“Sasuke: E, falando em estar por perto, me espere na saída. Vamos embora juntos; preciso te contar uma novidade 😉.“
”Sakura: Você sabe mesmo como deixar uma pessoa ansiosa e angustiada, hein? kkkk. Além disso, promessa é dívida, e essa eu vou cobrar 😋.“
”Sakura: Agora preste atenção na aula porque não vou te carregar esse ano kkkk.“
Obviamente, ela jamais deixaria passar em branco a única vez em que precisou me ajudar em um trabalho.
”Sasuke: É o que veremos, chiclete 😝.”
Do meu lugar, eu a via consultar o relógio de tempos em tempos. Não podia julgá-la; também queria que as aulas passassem depressa.
O sinal tocando foi como ouvir o apito final de uma partida. Vi quando Sakura recolheu seu material e marchou porta afora.
Fiz o mesmo e corri até meu armário, desviando-me da aglomeração de alunos no corredor.
Naruto me seguia de perto.
— E aí, Sasuke? Vamos jogar um pouco para aquecer antes do início da temporada?
— Hoje não, Naruto. Tenho um compromisso depois da aula.
— Hum... Posso saber quem conseguiu entrar na agenda do grande Sasuke Uchiha?
— Fica quieto, Dobe. Eu...
— Sasuke, pode passar no meu escritório, por favor? — fui interrompido pelo treinador Gai.
— Claro, treinador. Depois nos falamos, Dobe.
Não era o único que havia sido convocado pelo treinador. Karin estava sentada na cadeira vaga, lixando as unhas como se estar ali fosse uma perda de tempo. Sua expressão se iluminou quando entrei na sala.
— Bom, queria fazer uma reunião com os dois responsáveis antes do início dos treinos. Já adiantei o assunto com Karin, Sasuke, mas espero que os dois trabalhem juntos para criar uma agenda de treinos e jogos viável para todos.
Sim, a partir daquela temporada eu seria o capitão do time de futebol americano. Eu vinha me preparando para avançar mais uma etapa. Estava um passo mais perto do objetivo que perseguia desde criança.
— Até quando podemos entregar isso, treinador?
— O mais rápido que conseguirem, Sasuke. Estou dependendo desses horários para reservar o campo e iniciarmos os treinamentos.
— Não seja por isso, treinador. Podemos entregar tudo hoje, até o final do dia, não é, Sasuke?
Karin havia se precipitado ao garantir o prazo sem me consultar. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela se virou para mim.
— Você pode me ajudar a organizar os horários dos treinos e dos jogos? Conhece melhor a rotina do time e será mais rápido se fizermos isso juntos.
Eu pretendia encontrar Sakura depois da aula, mas Karin havia assumido um compromisso em nosso nome e agora precisava da minha ajuda para cumpri-lo. A expressão satisfeita do treinador deixava claro que ele havia gostado da ideia. Como eu poderia recusar seu primeiro pedido sem parecer ingrato?
— Claro, treinador. Nós entregaremos isso até o fim do dia.
— Ótimo, ótimo. Sabia que não havia errado na escolha para este ano. Obrigado pelo empenho dos dois.
Meu celular vibrou enquanto eu saía da sala do treinador. A ideia era encontrar Sakura e explicar a demora, mas a mensagem na tela me fez perceber o tempo que havia perdido.
“Sakura: Oi, esperei até onde pude. Acho que você teve algum imprevisto. Estou indo para casa; depois nos falamos.”
Não precisei vê-la para entender que estava chateada. E eu não podia tirar sua razão.
— Vamos, Sasuke — disse Karin, puxando meu braço em direção ao campo.
Meu olhar permaneceu voltado para a saída do prédio, na direção em que Sakura havia ido embora.
Assim que terminamos de ajustar os últimos detalhes, saí da escola correndo em direção à casa dela. Precisava explicar o que tinha acontecido e reforçar que não a havia abandonado.
O sentimento de falha me acompanhou desde o momento em que saí da sala do treinador até agora, parado em frente à sua porta.
Consegui ouvi-la resmungando do outro lado.
— Oi, porquinha. Graças a Deus você chegou! Eu estava ficando doida de tanto pensar no... — sua voz falhou ao me ver parado na soleira da porta.
— Oi.
— Oi — respondeu, parecendo desanimada.
— Será que posso entrar? — perguntei, com receio.
Quando Sakura se afastou da porta e me deu passagem, percebi que aquela era a oportunidade de que precisava para me desculpar.
— Queria pedir desculpas, chiclete. Sei que falhei com você hoje. Eu estava saindo do meu armário para te encontrar, mas acabou que a Karin precisou da minha ajuda com os horários dos treinos e dos jogos. Só consegui sair de lá agora.
Sua expressão se fechou assim que terminei de falar.
— O que Karin tem a ver com o nosso encontro, Sasuke? E por que ela precisava da sua ajuda com os treinos? Que treinos?
Lembrei-me de que ainda não havíamos conversado sobre a proposta do treinador.
— Essa era a novidade que eu ia te contar, chiclete. Durante as férias, o treinador me ligou. Sasori, o antigo capitão, não conseguirá continuar no time nesse ano, então o treinador me indicou para a posição. É claro que aceitei na hora. Essa era a chance pela qual eu vinha treinando a vida toda. Era o momento de me apresentar aos olheiros das universidades e seguir a carreira profissional que meu pai não pôde seguir.
Percebi que a quantidade de informações a havia deixado desnorteada. Queria deixar claro que ela era a primeira pessoa, além da minha família, a quem eu queria contar antes que a notícia se espalhasse. Mas imaginei que o treinador tivesse falado primeiro com Karin, porque ela coordenava as cheerleaders e precisava alinhar os horários das apresentações com os jogos.
— Sinto muito por não ter conseguido falar com você antes. Precisávamos entregar os planos de treino ainda hoje.
Pude ouvir seu suspiro.
— Eu entendo, Sasuke, entendo mesmo! Mas o que me deixou mais chateada foi a falta de informação. Você poderia ter me avisado que não conseguiria sair naquela hora. Em vez disso, me deixou lá fora, esperando sozinha, até os portões se fecharem.
— Eu sei. Você está completamente certa. Me perdoa. Isso não vai mais acontecer. É uma promessa.
— Tudo bem, Sasuke. Está tudo bem! Fiquei muito feliz pela sua posição. Sei que você é mais do que capaz de assumir a função de forma brilhante. Então aproveite!
A angústia que eu sentia começou a se dissipar.
— Valeu, chiclete — disse, dando-lhe um tapinha no ombro.
Queria manter o clima ameno entre nós. Além disso, estava com saudades das nossas conversas.
— Mas e aí, o que me conta sobre as férias, chiclete? — perguntei, acomodando-me mais no sofá.
— Sabe o que é, Sasuke, eu estou um pouco ocupada com os estudos agora. Será que podemos nos falar melhor outra hora? Ainda tenho que preparar a janta para minha mãe. Ela costuma chegar bem tarde do serviço às vezes.
Estudos? Hoje era o primeiro dia de aula; não havia matéria suficiente para isso. Alguma coisa me dizia que ela não estava tão relaxada quanto achei. Mas resolvi não insistir; já havia forçado demais a barra por hoje. Talvez deixá-la sozinha fosse a melhor forma de me desculpar.
— Ah, sim! Claro, não quero te atrapalhar. Amanhã passo aqui para irmos juntos para a aula. Ok?
— Claro, claro!
Iria me esforçar para cumprir com minha fala, por mais que ela parecesse não acreditar em mim.
— Até amanhã, rosada, durma bem — me despedi com um beijo em sua testa. O cheiro de seu cabelo me desnorteou por um momento, enquanto eu sentia um frio estranho na barriga.
— Até!
Atravessei a rua em direção à minha casa com esse sentimento impregnado em mim.
«☆»
O primeiro jogo da temporada chegou. Estávamos todos reunidos no vestiário ouvindo as últimas instruções do técnico antes de entrar em campo para o aquecimento.
Precisava focar minha atenção no que era dito, mas minha mente insistia em ir até a arquibancada onde sabia que Sakura estava sentada, esperando o início da partida.
Estava muito feliz de vê-la ali. Ainda mais sabendo da sua fobia de lugares muito cheios. Isso me fazia sentir especial.
Estávamos aquecendo quando o time adversário entrou em campo vindo do vestiário. Nos torneios anteriores, a defesa deles era considerada a melhor. Por isso, havíamos estudado e treinado uma estratégia para avançarmos sem grandes dificuldades.
Torcia para que isso fosse suficiente. O apito deu início ao primeiro período de quinze minutos. Era a hora; eu sentia que conseguiríamos avançar.
Recebemos a bola e caminhei até a linha de scrimmage com o coração acelerado. Não era medo. Eu havia treinado para aquele momento durante anos. Ainda assim, estrear como capitão fazia com que cada decisão parecesse mais importante do que de costume.
— Kiba, fique aberto pela direita. Naruto, atravesse pelo meio e procure espaço curto — ordenei.
Naruto fez uma careta, mas se posicionou. Kiba apenas ergueu o polegar.
No primeiro snap, a defesa avançou com rapidez. Naruto cruzou pelo meio e recebeu um passe curto, conseguindo avançar algumas jardas antes que o defensor puxasse sua bandeira. Não era uma grande jogada, mas serviu para confirmar o que eu havia percebido durante o aquecimento: os linebackers estavam avançando para cobrir o centro, deixando as laterais mais expostas.
Na jogada seguinte, tentei explorar o lado esquerdo. O cornerback recuou no momento em que Kiba começou a correr, mas o safety se aproximou rapidamente e obrigou-me a lançar a bola para fora. Perdemos a oportunidade de avançar, e Naruto bateu as mãos uma na outra, frustrado.
— Calma — falei. — Eles estão esperando que tentemos ganhar muitas jardas de uma vez.
— Então vamos fazê-los esperar outra coisa — respondeu Kiba, ajeitando a faixa presa à cintura.
Aquela era exatamente a leitura que eu precisava.
Começamos a avançar com passes curtos. Naruto recebia pelo meio e conseguia as jardas necessárias para manter a posse. Kiba alternava entre rotas rápidas pela lateral e cortes para dentro. Aos poucos, a defesa adversária começou a se aproximar mais da linha de scrimmage, tentando impedir que continuássemos progredindo com jogadas pequenas.
Foi quando percebi a brecha.
O cornerback do lado direito estava jogando muito por dentro, preocupado com a rota curta de Kiba. O safety permanecia recuado, mas havia espaço entre os dois. Não era uma abertura grande. Seria necessário lançar a bola no momento exato.
— Vamos repetir a formação — avisei. — Naruto, faça a rota curta pelo meio e atraia o marcador. Kiba, comece pela lateral e cruze por fora. Não pare até passar pelo cornerback.
— Finalmente uma jogada decente — Naruto provocou.
— Só não estrague tudo — respondi.
O snap aconteceu.
Naruto partiu pelo meio, exatamente como havíamos combinado. O linebacker avançou para acompanhá-lo, e o cornerback deu dois passos para dentro, acompanhando a possibilidade de um passe curto. Kiba continuou pela direita, mantendo o defensor próximo à lateral.
Por um instante, o espaço apareceu.
Lancei a bola antes mesmo de Kiba completar a mudança de direção. Ela atravessou o intervalo entre o cornerback e o safety, seguindo para o ponto onde eu sabia que ele chegaria. Kiba estendeu os braços e segurou o passe sem diminuir a velocidade.
— Corre! — gritei, embora ele já soubesse o que fazer.
O safety tentou se aproximar, mas Kiba avançou pela lateral e mergulhou para alcançar a linha de gol antes que sua bandeira fosse arrancada.
Touchdown.
Meus olhos voltaram para a arquibancada, procurando uma pessoa em específico. Quando a localizei, a cena que vi não era bem a que eu esperava. Sakura estava sentada ao lado de Sasori Akasuna, antigo capitão do time.
A conversa entre eles parecia animada, e Sakura aparentava não prestar atenção ao jogo que acontecia a poucos metros de onde estavam.
Uma raiva súbita subiu pela minha garganta. Não sabia o que aquela proximidade significava, mas não tinha gostado do que via.
«☆»
O jogo havia acabado, e saímos vitoriosos. A festa de comemoração aconteceria na casa de Kiba, mas minha animação estava comprometida. Não conseguia estar cem por cento feliz depois da cena que havia visto mais cedo. Esperava conversar com Sakura sobre aquilo assim que nos encontrássemos após o jogo, como tínhamos combinado.
Assim, segui para o vestiário.
— Sasuke, podemos conversar? — a voz de Karin se fez presente no meio do caminho.
Eu não sabia o que ela queria, mas esperava que o assunto fosse rápido. Sakura me aguardava para irmos embora, e eu não cometeria o mesmo erro novamente.
— Aconteceu alguma coisa, Karin? Estou cansado e com pressa — falei, deixando claro que não tinha tempo para jogar conversa fora.
— Queria apenas parabenizá-lo pela vitória. Você jogou incrivelmente bem esta noite.
— Obrigado, Karin. Posso ajudá-la em mais alguma coisa? — respondi, já sem paciência para aquela conversa.
— Na verdade, sim!
Eu ia perguntar o que mais ela queria quando fui surpreendido por seus braços ao redor do meu pescoço e por seus lábios colados aos meus. Jamais imaginaria que ela faria aquilo.
Depois do susto inicial, empurrei-a para longe.
— O que é isso, Karin? Não sei se você está confundindo as coisas, mas nunca lhe dei liberdade para fazer isso.
Meu humor, que já estava ruim, piorou de vez.
— Karin, preciso que você se afaste de mim. Não quero que continue confundindo as coisas. Eu nunca dei motivos para você pensar que havia algo entre nós.
Não aguardei a resposta; segui pelo caminho que deveria ter tomado desde o começo.
Na entrada do vestiário, não havia sinal de Sakura. Ela já deveria ter chegado, considerando o horário em que o jogo terminou. Aproveitei que Naruto estava saindo para abordá-lo.
— Viu a Sakura por aí?
— Teme, não sei o que aconteceu, mas a vi há pouco tempo, correndo em direção à saída do estádio. Ela parecia chateada.
Tinha que ir atrás dela, mas precisava me acalmar primeiro; não podia nem queria descontar minhas frustrações nela.
«☆»
Saindo do vestiário, já arrumado, tentava entender o que havia acontecido. O fato de não ter informações sobre se ela estava bem ou onde poderia encontrá-la me angustiava.
O telefone chamou até cair na caixa postal. Tentei novamente.
Nada.
Não era do feitio dela sumir assim, sem avisar.
“Sasuke: Cadê você? Naruto disse que você foi embora antes da festa. Está tudo bem? Você chegou bem em casa? Me liga!”
— E aí, Sasuke? Bora pra festa! Não podemos comemorar sem você, capitão.
— Não sei, não, Naruto. Não estou muito no clima para festas.
— Por isso mesmo você tem que ir. Se anima, cara. Nós ganhamos!
De certa forma, ele estava certo. Talvez eu fosse à festa por um tempo e, na volta, passasse na casa de Sakura para saber como ela estava. Também não adiantava ficar em casa esperando por um sinal dela.
— Quer saber? Você está certo. Vamos comemorar!
— É assim que se fala.
«☆»
Já passava da uma da manhã quando cheguei em casa. A festa havia se estendido mais do que eu imaginava, mas a preocupação não passara. A casa dela estava escura; imaginei que Sakura já estivesse dormindo e não quis bater à porta.
“Sasuke: Sakura, quando vir esta mensagem, me responde. Estou preocupado, chiclete.”
“Sasuke: Vamos conversar. Tenho certeza de que podemos resolver qualquer coisa que tenha acontecido.”
Deitei em minha cama, torcendo, com todas as minhas forças, para que ela aparecesse pela manhã.
Acordei com uma mensagem dela estampada na tela.
“Sakura: Bom dia, bobão. Está tudo bem! Vim para casa depois do jogo. Pode ficar tranquilo, Sasori me deixou na porta de casa.”
“Sakura: Prefiro não sair de casa hoje. Estou naqueles dias 😣😣 Sabe como fico. Aliás, parabéns pela vitória de ontem. Quando eu estiver melhor, prometo que sairemos para comemorar.”
Sasori? Esse cara de novo? O que esse cara queria com ela? Ele nunca havia dado nenhum sinal de interesse por ela.
Alguma coisa tinha acontecido entre os dois. O fato de ela estar me evitando só confirmava essa suspeita, e eu faria de tudo para entender o que era.
«☆»
O treino de hoje não estava rendendo. Erro atrás de erro.
— Porra, Naruto, presta atenção na jogada!
Não era possível que apenas eu estivesse preocupado com o jogo de mais tarde. Do jeito que estávamos treinando, seria difícil sair com uma vitória.
— Qual é, Sasuke? Nós estamos tentando, cara.
— Pois não estão tentando de verdade. Se estivessem, não estaríamos assim.
O clima de tensão estava palpável entre nós.
— Certo, certo, garotos. Vamos encerrar o treino por hoje. Vamos para casa e foquem no jogo de hoje.
Olhei com espanto para o técnico. Não era possível que ele fosse dispensar o time depois daquele treino horrível.
— Treinador, com todo o respeito, não acho que estamos preparados para o jogo.
— Estão dispensados, garotos.
Seu olhar pesaroso se fixou em mim.
— Sasuke, será que podemos conversar um minuto?
— Não sei o que está acontecendo com você, meu rapaz, mas você está disperso. Seu foco não está aqui. Sei que problemas acontecem, mas te escolhi como capitão não apenas porque você é bom no esporte. Te escolhi porque você sabe onde quer chegar e é empenhado. Porém, se continuar assim, preciso lhe dizer que não irá longe. Pense nisso, ok?
— Agora, vá para casa e descanse para o jogo à noite.
A tarde passou rápido. Tentei seguir o conselho de Gai, mas a preocupação foi inimiga do descanso. Quando vi, já estávamos saindo do vestiário rumo a mais um jogo.
Infelizmente, aconteceu o que eu mais temia: o time não estava entrosado. Passes simples se tornaram desastrosos e, quando o apito final tocou, o placar mostrava 20 a 14 para o time adversário.
Tínhamos perdido a partida.
Como se tudo tivesse sido combinado para dar errado, Sakura não havia aparecido naquele jogo. Durante os vários momentos de pausa, meu olhar se voltava para as arquibancadas, tentando encontrá-la, mas ela não estava lá.
Não conseguia distinguir as coisas ao meu redor, tudo parecia estar andando em câmera lenta. O estádio ficou para trás, o silêncio da rua e as luzes das casas apagadas me acompanharam até a casa dela.
Consegui ouvir sua risada. Quando ela apareceu na porta, não pude segurar a acusação.
— Nós perdemos. Você não estava lá.
Ela ficou quieta, ainda me encarando.
— Sakura, onde posso guardar os talheres?
Uma voz conhecida veio da direção da cozinha. Sasori apareceu carregando o que pareciam ser talheres molhados. Assim que me viu na porta, seu entusiasmo pareceu diminuir consideravelmente.
— Oi, Sasuke. E aí, cara? Tudo certo? — perguntou com educação que me enfureceu. — Como foi o jogo?
— Perdemos. — Não conseguia formular uma frase maior do que essa.
— Sério? O que aconteceu?
Eu é que queria saber o que estava acontecendo ali. Meus olhos percorreram a mesa, a embalagem de yakisoba e a familiaridade com que Sasori se movimentava entre a cozinha e a entrada.
Meus olhos se voltaram para Sakura, questionando exatamente isso.
— Ah, Sasori, desculpa. Não quero que pareça que estou te expulsando, mas será que podemos nos falar depois? Acho que o Sasuke precisa conversar comigo.
Senti seu olhar me avaliando. Encarei-o de volta. Achei que ele fosse negar, mas o pedido de Sakura pareceu ter um efeito contrário nele. Ter mais essa constatação pesou em meu estômago.
— Claro. Sem problemas. Obrigado pela companhia, Sakura. Depois eu te ligo.
Não, você não vai ligar para a minha garota.
Antes que pudesse verbalizar, Sasori já tinha saído, e sobramos apenas Sakura e eu.
— Eu não vim porque precisava que você resolvesse a derrota do time, eu vim porque você não estava lá.
— Eu não tinha obrigação de estar.
— Eu sei.
Eu sabia disso, mas saber que fui trocado me doía.
— Então por que isso parece estar incomodando tanto?
— Porque você prometeu! E, em vez de cumprir sua palavra, eu te pego aqui, sozinha com um cara que eu mal conheço.
Acusei-a sem pensar muito nas palavras. Naquele momento, só queria colocar minha raiva para fora. Raiva pelo jogo, raiva pelo nosso afastamento, raiva por promessas quebradas, raiva por não saber como lidar com os novos sentimentos.
— Pois é, Sasuke, parece que nós dois não somos bons em cumprir com as nossas promessas.
A sua verdade me atingiu como um soco na cara.
— Além disso, ele não é um desconhecido. É um amigo que me ajudou quando eu precisei. E, além disso, você não tem o direito de dizer com quem eu devo ou não andar.
Infelizmente, ela continuava certa. Eu não estava lá quando ela precisou. Eu não tinha insistido em ajudá-la e, pior, tinha aberto espaço para outra pessoa fazê-lo.
— É, Sakura! Você está certa. Acho que não temos mais o que falar.
Não podia continuar ali. Não sabia como lidar com isso sem afetá-la ainda mais. Ouvi a porta da frente bater assim que passei por ela.
E do lado de fora sobrou apenas eu e o aperto no peito que me acompanharia por muito tempo.
«☆»
Se antes minha relação com Sakura já estava estranha, depois daquela discussão eu não sabia mais o que esperar de nós dois.
Nós quase não nos falávamos, e o silêncio entre nós me fez perceber, aos poucos, o quanto minhas atitudes a haviam magoado.
Eu sempre soube que Sakura era uma das pessoas mais importantes da minha vida, mas só quando senti que poderia perdê-la entendi que estava apaixonado por ela.
Conseguia vê-la sentada a uma mesa com Ino, do outro lado do refeitório.
Ela estava linda.
— Você deveria ir falar com ela — disse Naruto. Ele era o único que sabia dos meus sentimentos.
— Não posso, Dobe. Não depois de tê-la magoado tanto. Eu a decepcionei de diversas formas.
— Mas você continua sofrendo por estar longe dela. Está nítido na sua cara.
— Eu sei, Naruto. Mas talvez seja isso que eu deva fazer: deixá-la ir, para não magoá-la mais.
Segui-a com o olhar até que ela saísse do refeitório, desejando estar ao seu lado.
Os treinos estavam melhores. Quando percebi que eu estava sendo um problema sério para a equipe, reuni-me com os meninos, pedi desculpas e, desde então, as coisas estavam voltando ao normal. Pelo menos essa parte da minha vida.
Estávamos na pausa do segundo período de quinze minutos, o técnico nos mostrava as jogadas que mereciam um olhar mais atento. Meu celular vibrou no banco.
Se o técnico me pegasse com aquilo, eu teria que correr em torno do campo até ele estar satisfeito.
Mas o nome de Sakura apareceu. Tive que me esforçar para não atender. Ainda assim, a ação não passou despercebida; embora não estivéssemos nos falando, ela sabia que, àquela hora, eu estaria no treino.
Como se confirmasse minhas suspeitas a ligação retornou por mais duas vezes. Enquanto o time voltava a campo, afastei-me para um canto mais isolado para atendê-la.
— Sakura! Estou no meio do treino, não posso falar agora, depois te retorno…
— Sasuke, eu preciso de você, meu pai está aqui em casa! Bêbado! A porta da frente já não aguentou mais! Estou com medo. Por favor, me ajuda!
Meu coração se desesperou na mesma hora. Eu sabia do histórico alcoólatra de seu pai. Só de imaginá-la sozinha com ele, o desespero tomou conta de mim. Corri em direção à saída, com a voz do treinador me chamando ao fundo.
Não tinha tempo de explicar o que estava acontecendo. Eu só precisava chegar na casa dela o mais rápido possível.
— Tranca a porta do quarto, eu já estou chegando! Não desliga o celular.
Conseguia ouvir a voz embriagada de seu pai ao fundo da ligação, somada a um som abafado de batida.
— Sakura, eu sei que está aí, garota! Abre a porta!
Precisava ir mais rápido.
— Sakura!! Como estão as coisas? Me responde?
Não conseguia mais ouvir a voz dela, apenas sons abafados.
Estava quase lá; faltavam mais duas quadras para chegar à casa dela.
Passei correndo pela porta a tempo de ver Sakura descer a escada correndo com um corte que fazia o sangue pingar no chão. Aquela cena me cegou.
Me joguei contra o homem, jogando-o ao chão. Meu punho descia repetidamente sobre o rosto do ser desprezível abaixo de mim. Os sons ao meu redor sumiram. A única coisa que eu via era o sangue que escorria de seu rosto.
— Sasuke! — Senti seus braços fracos rodeando minha cintura. — Chega, por favor! Vai matá-lo! Eu preciso de você! Por favor! — A súplica em sua voz me trouxe de volta à realidade.
O som de sirenes podia ser ouvido. Algum vizinho deve ter percebido que tinha algo errado.
Levantei-me ainda meio atordoado com o que tinha acontecido. Abracei-a, segurando seu corpo bem próximo ao meu.
— Está tudo bem! — Eu tentava acalmar a nós dois. — Ele não vai mais encostar em você!
Eu mesmo garantiria que isso jamais acontecesse. Seus braços em volta da minha cintura mantinham minha atenção total nela.
«☆»
Depois de ser medicada e receber um curativo na testa, acompanhei Sakura até seu quarto. Ela tinha pedido para que eu ficasse até a chegada de sua mãe. Confesso que mesmo sem o seu pedido eu não pretendia deixar o seu quarto tão cedo.
— Como você está? Continua com dor? — queria que ela estivesse confortável sem maiores traumas.
— Não, estou bem. E você? — ri comigo mesmo. Mesmo sendo atacada ela continuava pensando nos outros.
— Sakura, não fui eu que fui atacada.
— Não estou falando da testa. Você também está machucado.
Seus olhos percorreram os nós dos meus dedos e uma mancha escura de sangue em minha camisa.
— Não é nada.
— Sasuke, você quase matou meu pai.
Aquele momento não era sobre mim. Era sobre ela.
— Quando te vi sangrando, com ele atrás de você, eu não consegui parar. Eu não via mais nada.
Relembrava aquela cena.
— Ei — seu chamado me pegou de surpresa, mas acabei me acomodando na cama ao seu lado. Nossas mãos se entrelaçaram.
— Está tudo bem. Eu estou aqui. Já passou.
Sentir sua mão quente entre as minhas era reconfortante.
— Eu fiquei com muito medo, Sakura. Quando ouvi sua voz no telefone, achei que não chegaria a tempo. Achei que ia perder você… e que nunca conseguiria olhar nos seus olhos para pedir perdão.
Não podia deixar de me desculpar.
— Fui injusto com você em vários momentos nos últimos meses.
— Você não precisa falar sobre isso.
— Preciso, sim. Achei que, por sermos amigos, minhas ações não afetariam você tanto. Achei que você sempre entenderia o meu lado. Mas eu estava errado. Quebrei promessas e acabei magoando a pessoa mais importante para mim.
Apertei nossas mãos entrelaçadas, como se precisasse da coragem daquele contato para continuar.
— Mas e Karin? Achei que estavam juntos.
— Karin? Não, Sakura. Nunca houve nada entre nós. Ela é impulsiva, gosta de chamar atenção e nem sempre pensa nas consequências das próprias atitudes. Eu jamais ficaria com ela. Por que você achou isso?
— Eu vi vocês dois se beijando no final do jogo. Por isso fui embora. Desculpe ter mentido para você, mas não sabia o que pensar ou sentir quando vi aquela cena. Mas também não era a primeira vez que via vocês juntos, então…
Não consegui esconder o espanto. Então era por isso que ela havia ido embora naquele dia. Ela tinha entendido errado.
— Sakura, eu nunca correspondi a ela. Aquele dia fui pego de surpresa. Eu estava indo para o vestiário para te encontrar quando ela me abordou. Eu estava com pressa, então não dei atenção ao que ela falava, mas quando dei por mim, ela estava agarrada em meu pescoço me beijando. Na hora empurrei ela para longe.
— Espera, você foi me encontrar? Mas um pouco antes Suigetsu me abordou falando que você tinha pedido para ele me levar para a festa porque você iria demorar.
— Sakura, eu nunca pedi para ninguém falar nada para você. Por que eu pediria para outra pessoa te acompanhar? Ainda mais sendo Suigetsu?
— Sim, pior que faz sentido. Agora me sinto uma boba.
Havíamos perdido tanto tempo juntos por causa de tantos mal-entendidos.
— Não, você não é boba. Eu deveria ter insistido, deveria ter vindo atrás de você. Eu sabia que alguma coisa tinha acontecido. Em vez disso eu me afastei e deixei de participar da sua vida e enquanto eu fazia isso, você conheceu outras pessoas e construiu novos vínculos. Como aquele ruivo intrometido.
— Você realmente não gosta de Sasori, não é? — sua pergunta veio acompanhada de um riso.
Não negaria aquela informação.
— Quando encontrei você aqui com ele, tão à vontade, achei que você estava se afastando de mim porque queria ficar com Sasori.
— Sasori não ocupou o seu lugar, Sasuke. Ele apenas se tornou um amigo querido. Não posso negar que ele me ajudou quando passei por momentos difíceis. Mas ele não passa disso. Um amigo. Além disso, eu não estava tentando encontrar outra pessoa. Eu estava tentando descobrir como seguir em frente sem depender de você.
Baixei os olhos para nossas mãos entrelaçadas.
— E conseguiu?
— De certa forma, sim. Eu não posso continuar sendo a garota que esperava por você na saída, nos jogos e nas mensagens, tentando adivinhar se ainda havia um lugar para mim.
Refleti brevemente sobre sua colocação. Mas não podia deixar brechas para que ela pensasse que valia menos para mim do que realmente valia.
— Ninguém jamais poderia ocupar o seu lugar na minha vida e no meu coração. Eu não quero que você pense que precisa voltar a ser quem era para continuar fazendo parte da minha vida.
— Então por que você está me dizendo isso agora? Sendo sincera, o que você quer de mim, Sasuke?
— Quero ficar com você. Quero aprender a estar ao seu lado do jeito que você é agora. Não porque você prometeu assistir aos meus jogos, nem porque somos amigos desde crianças. Quero ficar porque amo você.
— Eu também amo você.
Ouvir que ela sentia a mesma coisa que eu encheu meu peito de alegria.
— Só não quero que isso signifique voltar a ser a garota que espera por você em silêncio.
— Não vai significar.
— E como você pode ter certeza?
— Não posso. Mas posso prometer que, quando eu errar, vou conversar com você em vez de esperar que entenda sozinha.
— Não vou prometer que nunca vou errar, mas prometo que não vou deixar o silêncio decidir por nós.
— E eu prometo que não vou fingir que está tudo bem quando não estiver.
Um breve silêncio se estabeleceu entre nós.
— Então começamos de novo?
— Não. Começamos de um jeito diferente.
Não podia mais esperar. Precisava sentir seus lábios nos meus.
— Posso?
Vi-a assentir.
Nosso beijo era mais do que uma necessidade ou uma prova de alguma coisa. Era apenas uma escolha feita pelos dois.
«☆»
Meses depois, entrando em campo para a partida que era a mais importante da minha carreira. Sabia que, se olhasse para a arquibancada, a veria ali, com a camisa com meu nome. Não porque uma promessa antiga a obrigava a estar ali, mas porque ela queria estar.
Hoje não prometemos ser perfeitos. Prometemos conversar quando algo doesse, escolher um ao outro todos os dias e construir, juntos, o futuro que ainda nos esperava.
