Aiko nunca acreditara em encontros predestinados. Acreditava em rotinas, em horários cumpridos, em caminhos conhecidos. Acreditava que, se seguisse sempre as mesmas ruas e evitasse decisões impulsivas, a vida permaneceria previsível e segura.
Naquela tarde, tudo isso ruiu.
A chuva começou sem aviso, pesada, violenta, como se o céu tivesse esperado o momento exacto para cair sobre ela. Aiko apertou o casaco contra o corpo e apressou o passo, o coração acelerado mais pelo atraso do que pelo medo da tempestade. Estava cansada. O dia fora longo. Só queria chegar a casa.
Foi então que tropeçou.
Não caiu, mas o desequilíbrio obrigou-a a parar. Respirou fundo, fechou os olhos por um instante e decidiu entrar no primeiro lugar que encontrou.
O sino sobre a porta tilintou.
O calor envolveu-a de imediato, trazendo consigo o cheiro intenso a café acabado de moer. O som da chuva tornou-se distante, abafado pelo murmúrio baixo do espaço. Aiko piscou os olhos, ainda a adaptar-se, e avançou alguns passos.
— Estás bem?
A voz apanhou-a desprevenida.
Aiko virou-se e encontrou um rapaz a aproximar-se, com uma expressão preocupada e movimentos cuidadosos. Tinha o avental do café preso à cintura e um sorriso que não parecia treinado, parecia genuíno.
— Sim… — respondeu, um pouco envergonhada. — Só fui apanhada pela chuva.
— Senta-te — disse ele, apontando para uma mesa junto à janela. — Vou trazer-te uma toalha.
Ela hesitou, mas acabou por obedecer. Observou-o afastar-se, notando a forma tranquila como se movia, como se o mundo não lhe pesasse nos ombros.
Quando ele voltou, colocou a toalha à sua frente.
— Eu sou o Haruto — apresentou-se. — Trabalho aqui.
— Aiko.
Os olhos dele iluminaram-se ligeiramente.
— Prazer, Aiko.
Foi nesse momento que sentiu algo diferente. Não um som. Não um toque. Uma presença. Como se alguém a observasse há mais tempo do que devia.
Aiko ergueu o olhar.
Encostado ao balcão, meio escondido pelas sombras, estava outro homem. Alto. Casaco escuro. O rosto sério, quase duro. Os braços cruzados. Os olhos fixos nela, intensos demais para serem casuais.
O coração de Aiko deu um salto estranho.
— Não ligues — disse Haruto em voz baixa, reparando no desconforto dela. — Ele parece sempre zangado com o mundo.
— Não estou zangado — respondeu o homem, com a voz grave, cortante. — Só não gosto de distracções.
Aiko engoliu em seco.
— Riku. — acrescentou ele, finalmente desviando o olhar para Haruto. — É o meu nome.
Havia algo naquela troca que não era novo. Uma tensão antiga, contida, como uma ferida mal fechada.
— Prazer — murmurou Aiko, sem saber porquê.
Riku não sorriu. Apenas inclinou ligeiramente a cabeça.
— O prazer raramente é simples.
Haruto pigarreou, desconfortável.
— Vou trazer-te um chá quente — disse a Aiko, afastando-se.
Ela ficou sozinha por breves segundos.
Riku aproximou-se.
— Não devias confiar tão depressa — disse ele, num tom baixo. — Nem em lugares quentes… nem em sorrisos fáceis.
— Não pedi conselhos — respondeu Aiko, surpreendendo-se com a firmeza da própria voz.
Riku observou-a por um instante mais longo.
— Interessante.
Nos dias que se seguiram, Aiko voltou ao café. Primeiro por coincidência. Depois, por hábito. Haruto fazia questão de se sentar com ela quando tinha uma pausa. Falavam de coisas simples: trabalho, música, pequenas frustrações do dia-a-dia. Era fácil com ele.
— Quando estou contigo, sinto-me… tranquila — confessou Aiko certa noite, enquanto caminhavam lado a lado sob as luzes da rua.
Haruto sorriu, mas havia nervosismo no gesto.
— Fico feliz por ouvir isso.
Foi então que ouviram passos atrás deles.
— Tranquila? — perguntou uma voz conhecida. — Engraçado.
Riku surgiu da sombra, o olhar afiado, como se tivesse estado ali o tempo todo.
— Seguiste-nos? — perguntou Haruto, tenso.
— O mundo é pequeno — respondeu Riku. — Especialmente quando alguém evita olhar para trás.
Aiko sentiu o peito apertar.
— Não estamos a fazer nada de errado — disse ela.
Riku aproximou-se mais.
— Nunca disse que estavam.
Olhou directamente para ela.
— Mas tens noção de como ele te segura a mão?
Aiko olhou para baixo. Só então percebeu que Haruto a segurava.
— Como se estivesse com medo de te perder — continuou Riku. — Ou de que escolhas outra coisa.
— Afasta-te — disse Haruto, colocando-se à frente dela.
Riku sorriu de lado.
— Já estou afastado há tempo demais.
O silêncio tornou-se pesado. As pessoas passavam, ignorando a tensão que ali se acumulava.
— Vamos — disse Haruto, puxando Aiko com cuidado.
Ela deixou-se levar… mas olhou para trás. Riku permanecia imóvel, os olhos cravados nela. Naquela noite, o telemóvel de Aiko vibrou.
Número desconhecido.
“Nem tudo o que acalma o coração é o que o faz bater.”
A respiração falhou-lhe.
Sem perceber como, sussurrou um nome no escuro:
— Riku…
E soube, com uma clareza assustadora, que aquele encontro não fora um acaso.
Fora o início de algo que iria partir alguém ao meio.

