Sopa
Sopa
Capítulo 13 min de leitura

Capítulo 1

Sopa. Ela adorava sopa.

Desde criança, havia sido seu prato favorito. Quando o aroma se espalhava pela casa, a menina corria até a porta da cozinha, ficando na pontinha dos pés, tentando ver o liquido borbulhante, enquanto sua mãe colocava as batatas...

Quando ligeiramente maior, ela apenas gostava de ficar na cozinha, quando sabia que sua mãe lhe pediria ajuda para fazer sopa. Quando era ela que descascava as cenouras, sua pequena concentração ao máximo, sua mãe dizia que nunca tinha conseguido fazer com que as cascas saíssem tão finas.

Qualquer chuvinha, qualquer ocasião especial, era feito um tipo de sopa. Chuva ao fim da tarde? Um grosso caldo de galinha era o jantar. Um nariz escorrendo? O irmão mais velho corria ao açougue, pegar algum pedaço de carne com osso. Comemoração especial? Mamãe pegava o seu livro de receitas especial e voilá! Uma sopa de beterrabas era feita, fazendo que seus lábios ficassem rosado.

Também sopa foi servida, quando seu avô e depois sua avó faleceram, nos velórios. Sopa temperada com lagrimas, que ela tomou em mais três ocasiões. No dia que seus pais se divorciaram; no dia que seu irmão mais novo, depois de uma má criação com a mãe saíra correndo e fora atropelado e no dia que ela preparou a sopa, no velório da mãe.

A sopa fora rala, durante o período da faculdade. O sopão da faculdade era feito principalmente de sonhos, alimentando seu corpo que se fortalecera também com pão. o pouco dinheiro que sobrava da mensalidade ia para os livros; livros, Xerox, Xerox e livros...

O cheiro da sopa, passou a representar o perfume de sua mãe, quando ela precisava do colo materno, mesmo que ela mesma já fosse mãe. Quando ela cozinhava, era como se escutasse sua mãe a lhe dizer que ela descascava uma cenoura tão fina quanto papel... Palavras que ela repetiu, quando seu filho fazia aquilo, mesmo que mais da metade da cenoura estivesse sendo cortada.

Ela passou a temperar a sopa com suas lagrimas, quando os dissabores da vida bateram-lhe de frente, a derrubando antes que levantasse, inúmeras vezes. Uma doença terrível, um golpe financeiro aplicado por um ente querido, assalto a sua casa... Fontes de lagrimas que foram secas, a medida que o sol erguia-se novamente, depois de colocar-se no horizonte.

A sopa lhe alimentara quando ela tivera que economizar, para propiciar estudo aos filhos. O amora da sopa enchera sua casa quando seus netos adentravam em sua casa, cheios de abraços e saudades, risos de alegria e gritos de indignação por brincadeiras maldosas dos primos. A sopa fora parte de dietas malucas, em tentativas para obter um corpo que a sociedade achava aceitável.

Seus dedos envelhecidos, agora seguravam uma caneca, onde sopa fora colocada. E observando a fumacinha que subia, ela tinha certeza de uma coisa... O paraíso era gelado e apenas uma sopa quentinha como aquela, a esquentaria, espantando os demônios gelados....