Meus olhos ardiam devido a luz das chamas que queimavam na lareira e ao cansaço que me batia a porta enquanto eu fazia um esforço para terminar aquelas flores em nossa mesa. Eram pequenas, simples e pareciam zombar de mim, mas eu não conseguia dormir e já estava ficando incomodada com a quantidade de vezes em que fitava aquele lugar da mesa, as vezes com a barriga dolorida e os olhos famintos, outras vezes aliviada e os olhos cansados, mas eu sabia, sabia que precisava de algumas flores ali. Pra me lembrar de algo bonito. Pra tentar esquecer, ao menos um pouco, a miséria em que nos encontrávamos.
Eu estava tão cansada e sabia que se continuasse olhando para aquele desenho eu não iria aguentar manter meus olhos abertos então desviei o olhar para a lareira, as velhas cadeiras de madeira agora levemente afastadas desta pois era verão e por último ao chão, onde eu podia ver a sombra das chamas dançando ali e me lembrei de Nestha, dos olhos de meu pai, dos olhos dela. Soltei um longo suspiro. Amanhã seria mais um dia em que caçaria logo cedo e depois iria negociar com os comerciantes forreta, dependendo da caça, e de suas boas vontades. Pois, por mais que as coisas estivessem "tranquilas" a ponto de ganhar presentes de Elain, esse dinheiro não duraria pra sempre, muito menos nossa comida. Fiquem juntos, e cuide deles eu podia ouvir como um sussurro, ecoando bem no fundo da minha mente e odiei, odiei minha mãe por isso, mesmo que não fosse sua culpa o comportamento de meu pai e minhas irmãs.
Chacoalhei a cabeça numa tentativa de afastar os pensamentos e respirei fundo, colocando um fio de cabelo atrás da orelha, sem me importar com as mãos sujas de tinta e voltei meu olhar para a mesa. Mais precisamente, para uma coluna de dedaleiras incompleta. E entre o momento em que eu mergulhei o pincel na tinta azul ao em que o posicionava na mesa.. Eu vi algo. Surgira aos poucos em meus pensamentos como uma lembrança velha e preenchera toda minha visão, como se estivesse implorando pela minha atenção e quando dei por mim era quase como se pudesse sentir ou tocar. Tudo o que via, era um céu. Carregado de sua glória e seu esplendor. Quando estava prestes a me encolher, senti um calor. Muito diferente do que eu sentia perto da lareira, ou quando estava com Isaac Hale. Era algo mais profundo e reconfortante, era como um abraço, um sussurro querendo me contar segredos. E admirei todas aquelas cores, luzes e formas e fiz um esforço máximo para memorizar o posicionamento de cada estrela, pois eu sabia que mais tarde a iria desenhar, mesmo que nunca faria algo que fizesse jus à visão. E, num piscar de olhos, estava novamente no chalé, ouvindo e sentindo o crepitar das chamas. Depositando tinta e vida à nossa pequena mesa.
Eu cochilei? Podia jurar que sentira a poucos segundos atrás uma brisa morna me beijando o rosto, querendo brincar com meus cabelos, me fazendo sentir algo diferente de fome e amargura e me instigando a sonhar. A imaginar um futuro bom e tranquilo, com minhas telas, uma promessa cumprida, noites de sono sem me preocupar com a falta de comida e talvez, se tivesse sorte, um céu bonito assim para admirar. E senti algo quente no meu rosto seguido por uma leve cócega e quando coloquei minhas mãos, estava úmido. Eu estava chorando. Então logo tratei de secar minhas lágrimas e engolir esse sentimentalismo estranho, pois mal conseguia ter esperanças. Sonhar estava muito distante.
Decidi por fim que estava muito tarde e que seria melhor terminar meu trabalho em outro momento, portanto guardei minhas tintas e caminhei em direção ao meu quarto para tentar dormir apertada em minhas irmãs e não sonhar com um céu estrelado.
Em relação ao último, falhei vergonhosamente.

