Somente Cris Delon
Somente Cris Delon
Capítulo 12 min de leitura

Praça de reflexões

Aqui estou eu sentado nesse banco de praça, observando as folhas que caem das árvores. É outono, e a praça está cercada de folhas mortas e resecadas. Assim como eu, que ainda espera encontrar uma árvore para que eu possa cair no chão, e permanecer ali por um bom tempo, e ser levado pelos ventos da vida, sem saber para onde estou indo.

Mas infelizmente não há árvore que me agüente, e me faça seguir o ciclo natural da vida. Afinal de contas, vida normal eu nunca tive. Meu pai era um bandido desnaturado, torturador. Acabou com minha vida em único ato: implantando drogas na minha mochila e fui condenado há cinco anos de prisão a partir de um acordo.

Prisão, onde vivi um pesadelo, mas que ao mesmo tempo me fez crescer como homem. Mas as marcas permanecem abertas, e sangram à medida que as lembranças aparecem. Da vida que eu podia ter tido, se não fosse pelo desgraçado do meu pai.

O amor que eu viveria com o Danilo, minha carreira deslumbrante de maquiador... teria minha vida concreta e feliz, mas isso tudo foi por água abaixo quando minha mãe morreu e passei a morar com o meu pai.

Não quero me lembrar das coisas obcenas que tive que fazer para comer, ou até mesmo para dormir na minha própria cama. Essa lágrima que cai no meu rosto agora é resultado não da lembrança que tenho, mas sim da dor que me consome toda vez que isso vem a minha mente. Minha pele arrepia, uma sensação de nojo corre meu corpo inteiro, e isso me faz tremer.

Mas isso sou eu. Cheio de feridas abertas, lembranças misturadas com desejo e rejeição, frio e de olhos abertos para não se iludir.

Porque se hoje estou aqui sem rumo, são pelas minhas escolhas e desavensas de uma estrada cheio de pedras e desvios que me levaram até aqui:

À essa praça de reflexões.