Shirushi
Shirushi
Capítulo 14 min de leitura

Assim caminha a humanidade

Todo ser humano traz em sua natureza o desejo de ser reconhecido e admirado por seus semelhantes – isso lhes dá a sensação de poder e superioridade. O parâmetro usado para se obter esse reconhecimento é criado em competições e disputas entre indivíduos.

Nações nada mais são que grandes aglomerados de seres humanos, e refletem seus desejos. Quando a competição por reconhecimento e admiração entre nações cresce demais, inicia-se uma guerra.

Desde o fim das duas primeiras guerras mundiais, a competição no ramo da ciência passou a crescer a proporções jamais vistas antes. Cada país buscava mostrar aos outros sua superioridade criando tecnologias mais avançadas, sabendo mais, dominando mais. Esse desejo por superioridade desencadeou uma tragédia maior que qualquer precedente.

Pouco a pouco, o mundo se viu afundar na areia movediça de uma terceira guerra mundial, muito maior e mais terrível que suas precedentes. Todas as nações foram envolvidas nessa batalha, cada uma com o que tinha de mais poderoso para forçar as demais sob sua supremacia absoluta. Não havia aliados, todos eram inimigos. Campos e cidades se misturavam numa massa indistinta de destruição, soldados e civis morriam sem discriminação. Homens e mulheres, crianças e idosos; todos envolvidos numa trama de sangue e medo que pintava o mundo e os olhos de todos de vermelho – um vermelho de sangue, fogo e terror.

Desejando vencer essa guerra a qualquer preço, cientistas de todas as nações cruzaram fronteiras da genética que talvez nunca devessem ter sido cruzadas, criando humanos mais fortes, mais rápidos, mais inteligentes. Seres capazes de subjugar o poder das outras nações, assegurando-lhes o poder absoluto.

Por um longo tempo a batalha se estendeu, destruindo e criando em proporções terríveis e inimagináveis, até que as pessoas perderam a conta dos dias, meses e anos.

Após o que pareceu ao mundo uma eternidade de guerra, os EUA resolvem dar um fim a tudo usando seu arsenal nuclear, lançando as mais poderosas bombas nas nações que considerava mais potencialmente perigosas. Mas escolheu os alvos errados.

No mesmo ano, a Rússia se une aos paises do Oriente Médio, e juntos despejam sobre toda a América do Norte uma chuva de destruição radioativa. O mundo parou nesse ano que mais tarde foi chamado de Ano do Caos.

O gás que mantinha acesa a chama da guerra se esvaiu, e a chama se apagou. Não restaram muitos sobreviventes dessa cruel aplicação da lei da evolução, e esses poucos tinham sérias dificuldades de se manterem vivos num mundo destruído pela guerra.

Mas nem todos haviam perdido a esperança. O Brasil, com seus vastos recursos naturais e sua gente que se mantinha sorrindo mesmo nos tempos mais difíceis, formou com o Japão, com sua tecnologia avançada e seu povo sério e persistente, uma aliança para começar a reconstruir o que se havia perdido.

Após 222 anos de enorme esforço, esses dois paises se haviam tornado novas potências mundiais – potências que nasceram odiando a guerra que as destruíra, e abolindo de dentro de si qualquer forma de tecnologia bélica. Quase todo o mundo falava japonês ou português, compartilhando da nova filosofia de paz que se espalhava. O mundo estava quase todo reconstruído, embora a população que o habitava se houvesse reduzido a uma débil sombra de seus números de outrora.

Mas mesmo agora, 357 anos depois do Ano do Caos (que se tornou o marco da contagem dos anos), reflexos da Grande Batalha ainda se manifestam por toda parte, em todas as pessoas. Heranças daquele conflito se mantêm fortes no mundo, nos mostrando coisas que em outros tempos teriam sido consideradas fantasias impossíveis.

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