Sem Chão
Sem Chão
Capítulo 17 min de leitura

Capítulo único

Sem chão...

Short-fic

Revisado por Blanxe

Os pés impulsionavam no chão fazendo o pequeno balanço mover-se naquele vai e vem letárgico.

O sol já havia se posto há algumas horas, deixando ainda algumas manchas vermelhas no horizonte.

O caminho de volta pra casa era sempre doloroso, mas naquele dia em especial, a dor era muito mais torturante.

Até mesmo a motivação de andar lhe fugia.

Não havia ninguém naquele minúsculo cômodo esperando para lhe recepcionar com um “Okaeri e Omedetou”...

Não haveria bolo sobre a mesa, balões, língua de sogra, canções, abraços e muito menos presentes.

Já deveria estar acostumado com aquilo; nos anos anteriores simplesmente ia para barraca do Ichiraku e se empanturrava com seu ramen de aniversário grátis. De vez em quando, o tio da barraca lhe presenteava com algum brinde: um pôster, uma sacola de ramen instantâneo, tigela personalizada, bonés, calendários...

Mas, naquela noite, até a fome, que era sua fiel companheira, havia lhe abandonado.

O loiro apertou as mãos firmes na corda do balanço e suspirou, voltando a impulsionar os pés no chão e fazer o balanço do pátio da academia ninja se mover. Sentia-se melhor ali do que sozinho na sua casa, pois pelo menos ali, conseguia se recordar do dia cheio, dos colegas de classe que aprontavam consigo...

Diferente daquele lugar que chamava de lar. Lá, só havia lembranças do vazio e da solidão. Por isso deveria ser tão difícil passar o dia do seu aniversário naquele cômodo.

Seu peito doía.

Se pelo menos tivesse amigos que o visitasse, poderia lembrar-se da casa cheia de vozes.

De repente, sentiu uma gota gelada tocar-lhe a ponta do nariz. Voltou-se para o céu e notou que havia se juntado algumas nuvens. Parou o balanço e as gotas mais grossas começaram a cair. Levantou-se, afundou as mãos no bolso da bermuda alaranjada, abaixou a cabeça e seguiu andando calmamente em direção ao portão de saída.

— Nan da, ‘ttebayo... E essa chuva logo agora...

Passou pelo centro da cidade. Notou a barraca de ramen cheia e ficou feliz por estar sem fome. Viu as pessoas correndo para se abrigarem da chuva. Percebeu alguns pais apanharem os filhos no colo e namorados oferecer abrigo para as namorados embaixo dos guarda-chuvas.

Sorriu tristemente ao perceber a alegria daquelas pessoas que nem notavam sua existência, ou apenas agiam indiferentemente, como se fosse um gato de rua...

Continuou seu caminho, enquanto o aperto em seu peito se tornava mais intenso, até virar aquela dorzinha irritante. Se pelo menos conseguisse chorar de vez, talvez aquela sensação tão ruim se amenizasse. Mas as lágrimas não saíam...

Do nada lhe veio um estalo na mente. Tomar outro caminho! Aquele que passava perto do lago, próximo ao distrito daquele clã que fora assassinado. Sabia que com aquele tempo chuvoso o garoto não estaria lá como de costume. Por isso, determinou algo audacioso em sua mente, tanto, que fez seu coração disparar:

— Se ele estiver lá, eu juro que vou falar com ele, ‘ttebayo!

Ao determinar aquilo, Naruto acelerou os passos, até eles se tornarem uma corrida frenética. Quanto mais corria, mas seu coração disparava no peito e mais animado ficava...

— O nome dele é U- Uchiha... Uchiha... Uchiha, o quê mesmo?! — ele parou, coçando a cabeça, achando que deveria pelo menos se lembrar do nome do colega de sala.

Mas não demorou muito e as vozes das meninas da sua sala gritando-o ecoaram em sua cabeça.

“Néeee, Sasukeee-kunnnn...”

— Ah, é isso! Sasuke! — deu um soquinho na palma da mão e voltou a correr.

Porém, conforme ia se aproximando do lago e a imagem da plataforma que o margeava ia ficando mais nítida, o desânimo ia abatendo-o...

Não era uma mera impressão, ele não estava lá.

Desacelerou a corrida ao pisar na plataforma de madeira e antes de chegar à margem do lago, confirmou o que no fundo, já esperava. Sasuke não estava ali.

Tentou conter a respiração desregulada; já imaginara aquilo. Por que então não conseguia se conformar? Era seu destino viver sozinho? Ao pensar assim, finalmente, a angústia que apertava seu peito foi colocada pra fora em forma de lágrimas que escorreram rapidamente pelo rosto dele.

Naruto crispou as mãos em punho e, ansioso para que aquela dor passasse logo, começou a exasperá-la através dos gritos:

— Eu sou Uzumaki Naruto!! Ainda serei o mais poderoso dos Hokage dessa Vila!! Estão me ouvindo, dattebayo?! Eu não vou desistir! Essa dor no meu peito não é nada! Ela não vai me derrotar! Ainda serei reconhecido como o mais forte por todos e serei... serei... amado... e... te- terei bolo de aniversário... E receberei tantos parabéns, de pessoas até desconhecidas, que ficarei enjoado...

O loiro foi vencido pelos soluços, ajoelhou-se e chorou, chorou até que as lágrimas não caíssem mais.

O desabafo o cansou tanto que ele sentiu-se mais aliviado. Ficou de pé, deu um longo suspiro trêmulo e, então, foi capaz de abrir seu grande sorriso.

A chuva, assim como as lágrimas, cessou e a lua brilhante apareceu imponente no céu, iluminando a noite. De repente, Naruto ouviu sua barriga roncar alto, a fome, sua fiel companheira, havia voltado e, pelo que percebera, com força total.

— Oh! Eu já sei! Ramen! Ramen! Ramen! — ditou para o próprio estômago enquanto deixava a plataforma.

Mas, antes de deixar aquele lugar, parou por um instante e voltou a fitar o lugar onde costumava ver Sasuke sentado. Era estranho. Mesmo o Uchiha não estando ali, sentia a presença dele.

Talvez, fosse como havia imaginado antes, o fato de se lembrar que Sasuke estava sempre ali, fazia-o sentir que estava.

— Nah? Você pode não saber... Mas me fez companhia essa noite, nah, Sasuke? Arigatô! — ele curvou-se, fazendo uma reverência para o lago. Então, voltou a correr rapidamente em direção a cidade e ao Ichikaru Ramen. — Ojii-san! Prepare o meu especial de aniversário hoje, dattebayo! Estou chegando!!

Assim que o loiro desapareceu, o jovem que havia se jogado na água porque tinha visto a figura do irmão ao qual tanto desejava vingança, subiu de volta para plataforma, trêmulo de frio.

— Mas que idiota! — esmurrou a madeira, tentando exasperar sua irritação. — Achei que não iria embora nunca... Ainda fica gritando baboseiras constrangedoras... Humpf! Uzumaki Naruto? Futuro Hokage de Konoha? Quanta pretensão... Não é por nada que nasceu nesse mês. Já ouvi dizer que librianos tem personalidade muito forte.

O menino moreno se ergueu e, de repente, sorriu, observando na direção onde o outro havia desaparecido. Subitamente, sentiu algo estranho ao lembrar-se da última frase que ele havia dito.

... Mas me fez companhia essa noite, nah, Sasuke? Arigatô...

— Além de idiota, é sensível... Você conseguiu mesmo sentir minha presença... Humpf... Será que sempre será assim? — Sasuke sorriu e seguiu de volta para sua casa. — Se faz tanta questão, então, omedetou, Usuratonkachi...

...

Havia tanta gente gritando e conversando no seu pequeno quarto que ele não sabia de onde tinha surgido. Alguns rostos não fazia a mínima ideia de quem eram, outros, amigos eternos, irmãos. Foram tantas homenagens, visitas, presentes e comes e bebes, que nem que seu aniversário durasse uma semana, conseguiria dar atenção para tudo. Ainda havia uma montanha de presentes destinados ao Hokage de Konoha para serem abertos e aquela brincadeira de ‘adivinha quem mandou’ iria durar a noite inteira.

Não aguentava mais, estava sufocado, precisava respirar e, assim que conseguiu uma folga pra ir ao banheiro, gerou um bushin e deixou no seu lugar, pulando a pequena janela do lugar e indo pra rua.

Ao ganhar as vielas vazias da Vila, passou a caminhar mais tranquilo e respirar. Já era alta-madrugada e os moradores aproveitavam o restante do feriado pra descansarem. Andou com um sorriso leve adornando o rosto e, como se fosse puxado por um magnetismo estranho, foi parar naquele lugar mais tranquilo.

Observou com nostalgia o lago e aquela plataforma...

Caminhou sobre ela e sentou-se à sua margem, sentindo a brisa da noite soprar o seu rosto, agora adulto, acalorado da bebida.

— Né, Sasuke? Os seres humanos são engraçados, né? Nunca estão satisfeitos... E... mesmo tendo tudo que eu sempre quis ter, ainda sinto aquela dorzinha chata aqui no peito, por não encontrá-lo aqui...

Fim.