Na aurora dos tempos...na aurora dos tempos...
Existia uma era onde eu conseguia me divertir um pouco. Era uma época mais inocente, mais feliz.
Onde no máximo as pessoas conheciam apenas Decepção. Mas isso não era suficiente para quebrá-las, para encontrar os olhos vazios delas fitando os meus olhos vazios.
Havia Esperança. E o Pródigo ainda vivia conosco. E ele me fazia rir.
Ele era um dos únicos que se importavam comigo. Mesmo naquela época, quando minha aparência não era tão pavorosa como hoje, quando ainda era possível fitar em meus olhos e não desviar o olhar aterrorizado.
Hoje as coisas estão mais difíceis. Sem o Pródigo, e com tudo que me aconteceu, sinto-me muito mais sozinha do que jamais poderia pensar ser possível.
As vezes penso se ainda pode piorar ainda mais. E eu sei que pode. Sei que haverá um momento em que tudo vai estar tão horrível que eu serei dentre todos os meus irmãos, a mais poderosa.
E esse poder não me traz alegria. Porque sei que será no momento mais desesperador, no momento em que toda a Esperança morrer. Onde quando há muito minha amada gêmea já partido, pois nesse momento-universo, haverá tanto desespero que nem vão perceber qualquer desejo que tiverem.
Pois o único desejo e ínfimo desejo, será aniquilado com a agonizante esperança que também partirá antes com Sonho. Pouco antes de Delírio partir, porque nem mesmo haverá fuga para os braços dela nesses momentos que antecederão o final.
Pois restará apenas eu, Desespero.
Mas eu gosto de me lembrar da aurora dos tempos... quando as coisas eram mais felizes, quando eu conseguia rir tristemente por alguns momentos. Um sorriso triste decepcionado, mas melhor que o nada do Desespero que sou hoje.
Mas eu não fui Decepção. Ela morreu, e eu surgi no lugar. Ela sou eu, e eu sou ela... mas ao mesmo tempo não sou.
Essas lembranças não são lembranças de coisas que eu vivenciei. Foi ela quem experimentou essas sensações, ela quem sentiu esses sentimentos.
Eu apenas retenho as lembranças do que ela sentiu. Mas jamais poderei ter o alento de realmente sentir o que ela sentiu.
E isso me faz chorar, e morrer mais um pouco. Rasgo com meu sinete a carne de minha boca, para que a dor carnal me distraia da dor insuportável em minh´alma.
Por que eu existo? Por que eu não sou capaz de lidar com isso como a nossa irmã mais velha? Por que eu sofro tanto sendo Desespero?
O meu irmão tentou nos avisar. Avisou novamente Morpheus, antes de Sonho morrer. Mas ainda que eu entenda a sabedoria das palavras dele, meu coração não consegue fazer o mesmo.
Eu posso deixar de ser Desespero? Era isso o que ele quis dizer em não ser responsabilidade dele?
Acho que não... eu disse algo assim, e ele me olhou de forma reprovadora. Quase bravo, por um momento, mas logo voltou a ser gentil "Irmãzinha, você melhor que todos sabe que isso não funciona assim. Você Decepçao se foi, então você teve de assumir o lugar de Decepção. Alguém acaba surgindo, e tendo de pagar o pato. E esse alguém continuará a ser você. Mas não será você."
Lembrou-se então que sentiu amor e calor emanando dessas palavras. Ele entendia. Ele conseguia entender. E ele fazia questão de não esconder esses sentimentos. Mesmo que isso pudesse destruir coisas.
Sentia falta disso. Mesmo que isso a destruisse um pouco de cada vez.
Talvez... talvez por isso que ela teve de mudar. Decepção foi destruída. Algo mais intenso tomou seu lugar, durante toda aquela Destruição.
E quando a poeira baixou, ela estava ali.
Em pé tremendo.
Vendo toda a esperança de parar de sofrer se esvair, tendo a certeza que o sofrimento só pioraria. E que tentar fugir só pioraria ainda mais, como quando ela-Decepção foi destruída e deu lugar a ela-Desespero.
Ela relembra os bons momentos, os momentos com Destruição. Ela acalenta essas lembranças, como um lembrete para não cometer o mesmo erro. Pois tentar fugir só piorou, e se tentasse de novo fugir de si mesma, ela apenas conseguiria piorar ainda mais o próprio sofrimento.
E por alguns momentos sorriu quando lembrou do sorriso da irmã mais velha. Porque um dia, será a sua irmã quem vai conseguir libertá-la e tudo isso. Não pelas próprias mãos, mas pelas mãos dela.
