Rockabilly Rose
Track 1 – Mean Woman Blues
Diante do espelho quebrado do meu banheiro, a maquiagem borrada, os cabelos despenteados e grudados na face, os olhos pesados e caídos, as roupas horrivelmente amassadas... é, acho que havia acabado de acordar de mais uma daquelas noites. Estava confusa; nem mesmo havia limpado a baba que escorregava da minha... oh não!
– BLEARGH!
Olhei para baixo e não aguentei. Tive de me abraçar à privada e pôr tudo para fora. Uma droga! O dia seguinte é sempre uma droga! A dor forte, a minha aparência deplorável e o planeta que teimava em girar vertiginosamente. Uma droga de sensação, vou te falar! A invencível Mona da noite anterior miseravelmente acabada... acho que é como dizem os físicos e filósofos baratos: tudo o que sobe, desce, certo? Foda-se. Argh. Não estava de bom humor. Por sorte, moro só; ninguém me veria naquele estado... ufa, que alív...
– Mona?!
– AAAAAAAAAGH! – gritei, assustada, levantando-me de um salto. Não tive tempo nem para me perguntar de onde vinha aquela voz! ou mesmo de olhar direito para qualquer coisa!
– Mona, tá tudo bem?!
– TU QUER ME MATAR DE SUSTO, PORRA?!
– Não... desculpe-me. Mas... tá tudo bem com você?
– ENLOUQUECEU?! CALA A BOCA E ME DEIXA!
Era a silhueta de um cara à porta do banheiro. E sem nem mesmo pensar, fechei-a bem na cara do cretino. Merda, sabia que não a deveria ter deixado aberta – pensei. Fiz questão de batê-la com força e de provocar o barulho mais estrondoso que alguém já ouviu, para que ele se apercebesse do quão puta da cara eu estava. Ah, como aquilo me fez bem... por um segundo. No seguinte, senti “aquilo” me subir novamente, olhei para aquela coisa com cara de espectro no espelho quebrado e me abaixei para abraçar a privada. – Bu-bu---bu------BLEARGH! – interrompi o fluxo, arfante. E como o mundo girava! Meu cérebro mais parecia um coração funcionando a todo vapor; meus membros tremiam sem parar e tornavam-me impossível levantar dali. Respirando pesadamente, olhei ao redor e limpei a boca com as costas da mão. Os cabelos ainda grudados na face, a saliva escorrendo, aquele cara me chamando à porta e... PUTA QUE O PARIU, MAS EU MORO SOZINHA!
Quem diabos batia à porta do meu banheiro?!
Não sabia o que fazer ou dizer... gritei. – AAAAAHHHHHH!
– Mona! – ouvi-o novamente, batendo à porta e tentando, com a voz um tanto trêmula e hesitante, falar-me algo. – Abra a porta, meu amor! Please!
– Cuida da tua vida, porra! Bu-bu--BLEARGH!
– Não diga isso, querida! Estou preocupado! Droga, assim não vai dar... – Falou, desapontado.
Silêncio.
...
“Não diga isso, querida”?!
...
“Abre a porta, meu amor”?!
...
Puta merda! – pensei.
Bosta. Fiz de novo, só poderia ser isso. Além de estar de ressaca, trouxera um cara comigo. Perfeito. O que faltava piorar? Bah! Ao menos havia sobrevivido ao final de semana. Ao menos logo o cara iria embora, logo a dor e as horriveis sensações cessariam, logo eu voltaria a minha vida normal como se nada me tivesse acontecido. Grande Mona, é assim que se fala! É?
Ter tido aquele pensamento foi para mim um alívio, mas logo em seguida foi fonte de preocupação; uma faca de dois “legumes”. Porra, quando se diz “como se nada tivesse acontecido” se diz também que algo aconteceu. O rapaz estava lá – esmurrando a porta do meu banheiro – para provar isso. Muito bem, algo havia acontecido. Parabéns, Sherlockette!, mas o quê?! O quê?!
Resolvi lavar o rosto, tomar um banho e me recompor enquanto pensava no que poderia ter trazido aquele cara ao meu apartamento. A calcinha estava OK; hm... as roupas e a cara amassadas... e que droga era aquela de “meu amor”? Só poderia ser alguma brincadeira de mau gosto – pensei, embora alguma coisa ainda me dissesse que também poderia não ser.
Fiquei sob a ducha e percebi, não sem dar um longo suspiro de alívio, que o cara havia parado de bater à porta. Uma pena ele não ter percebido antes o quanto aquela droga de batuque estava me incomodando... mas foi aí que comecei a ouvir outro barulho do outro lado da porta: era música no rádio; era um dos meus discos; eram os Stray Cats tocando Rock this Town! Puta merda! – pensei. Entrei em transe; e cada vez mais o banheiro me parecia diminuir enquanto a música tocava e me embalava. Minha vontade de dançar não cabia naquele cubículo. Sim, eu estava de ressaca e sofrendo com a dor de uma tortura de mil infernos, mas era Rock ‘n Roll, droga! Mesmo quando se está de ressaca o Rock chega a ser melhor do que sexo. Ou não?
Como não tinha espaço para balançar mesmo, contive-me e comecei a marcar o compasso da música com o bater dos pés enquanto cantava.
We\'re gonna rock this town, rock it inside out
We\'re gonna rock this town, make \'em scream and shout
Let\'s rock, rock, rock, man, rock
We\'re gonna rock \'til we pop, we\'re gonna rock \'til we drop
We\'re gonna rock this town, rock it inside out
Será que foi o cara quem ligou o rádio? – pensei. Percebi, com isso, na hora, que o cara tinha um bom gosto musical. Que disco de minha coleção ele colocaria pra tocar depois? Elvis? Chuck? Os Cascavelletes? Droga... aquela música me deixou com uma puta vontade de sair do banheiro e dar uma bimbada! Mas, lógico, fiquei só na vontade, porque a música parou e o maldito cara-de-pau não pôs nenhum outro disco para tocar. Nem Elvis, nem Chuck, nem Cascavelletes e nem porra nenhuma. O único som era a droga de barulho que a água do chuveiro fazia. Num instante todo o meu tesão se fora. Ficaram aquela terrível dor de cabeça e todas aquelas sensações desgraçadas que só fazem a gente lembrar a condição miserável em que se encontra. E que tem que ficar quietinho numa boa.
Nada de música; fiquei decepcionada. Tudo bem, já estava mesmo na hora de eu sair daquele banho. Enxuguei-me e enrolei-me com a toalha. Sentia-me um tanto melhor – a vontade de vomitar já havia passado, por hora –, então, resolvi, finalmente, abrir a porta e sair do banheiro. Perguntaria ao cara o que estava acontecendo, dormiria mais um pouco e esperaria o dia acabar assistindo mais uma vez a Rock ‘n Roll High School no videocassete. Nada fora do usual...
Puta merda! – pensei – Meu banho deve ter durado uma eternidade!
O cretino não estava mais ali.
– E agora, quem vai me dizer o que está havendo?!
Queria pensar num jeito de descobrir... mas minha cabeça doía demais; não era hora para isso. Joguei longe a toalha, tirei da cama a montanha de calcinhas e pulei nua sobre o meu colchão, que nunca parecera tão aconchegante antes. Abracei assim um descanso muito mais do que bem-vindo.
