Reconhecer
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Capítulo 15 min de leitura

Nestha

Já faz um tempo desde que todos enfrentamos Hybern e seus seguidores.

Balanço a cabeça para não relembrar tudo de novo porque é só nisso que penso, um loop infinito da guerra em que quase todos morremos e muitos de fato morreram. Já até conheço a ordem dos pensamentos: dor, medo, angústia, esperança... vazio. Um eterno vazio que enche meu peito há meses.

Olho para as paredes do meu quarto, vazio como eu. Não aquela casa barulhenta com o tal círculo íntimo que segue sua vida como se nada tivesse acontecido. Até Elain está se sentindo melhor, ocupada com seus afazeres, pensamentos e conversas. Ela se adaptou bem a essa cidade, a essas pessoas, mesmo que tenha demorado seguiu em frente enquanto eu... depois de tudo... eu que não tinha um noivo, não tinha um compromisso com ninguém e estava bem, mas agora...

Levanto-me da cama e vou ao banheiro. Olho o relógio que Amrem me deu em uma de suas vindas aqui mas não presto atenção, uma das poucas que se atreve a vir me ver. Sinceramente, não sei se deixaria alguma outra pessoa entrar aqui se não ela. Sem arrodeios, sem mais ou menos, ao que parece é a única que não tem medo de mim. Medo do que eu posso fazer a qualquer momento se me contrariar.

Exceto Cassian. Mas ele não veio aqui e nem quero. No solstício ele insistiu até que o fiz parar. Não tem para quê, não sinto nada. Nada.

Na volta para a cama olho mais atentamente para o relógio em cima da mesa no meio do quarto, onde Amrem o colocou, e já são 14hr. 14hr e não comi nada ainda hoje. Ela me disse que eu precisava de um relógio, que todos precisamos de um relógio, principalmente quando se é imortal. Ele é vermelho e decorado com pedras brilhantes, bem a cara dela, se bem que acredito que essas pedras não sejam verdadeiras, parece mais algo que se compra em qualquer lojinha de esquina. Tudo bem, tanto faz, não faz a menor diferença, eu nem compraria um relógio.

Me remexo nos lençóis mas não está mais confortável aqui. Ainda é cedo da tarde então as tavernas ainda não estão abertas. Me ajeito melhor e tento dormir novamente, pelo menos até a noite, quando irei sair para beber, jogar, talvez encontrar algum macho.

Ao virar de bruços vejo, no canto da cama, os livros que Elain me deu no solstício. Ela não sabe mas não consigo mais ler. A única coisa que eu fazia e que eu me sentia realmente bem e que não faz mais parte de mim. Estão empilhados ao lado da cama, intocados desde que cheguei com eles naquela noite.

Houve um tempo em que ler me preenchia. Os romances faziam parte dos sonhos que eu não admitia ter. Tudo uma grande mentira.

Não existe amor aqui fora, só dor, angústia e vazio. Um dia o que Feyre tinha iria acabar também, porque é assim que a vida acontece, tudo que vive morre, tudo que brilha apodrece, não existe isso de “para sempre”. Ela já havia passado por isso uma vez e passaria de novo, iria descobrir isso sozinha, mesmo que sofresse no processo.

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Ouço os gritos por todo lado. Um homem horrendo vindo em minha direção com uma faca na mão direita, a cabeça de Elain e do papai penduradas pelos cabelos em sua mão esquerda. Não. Não em minha direção, não estou em lugar algum, ele está indo na direção de Cassian, caído no chão e ensanguentado.

Perto. Perto demais.

Posiciona a faca em seu pescoço.

Acordo sem saber onde estou, gritando enquanto me vejo já sentada na cama. Mais um ponto positivo para esse quarto: ninguém para ouvir meus gritos e me fazer perguntas.

Passo a mão pela minha testa e cabelos, estou suada e cansada. Uma dor nas costas fazendo companhia ao vazio que me tornei. É sempre assim, durmo e tenho pesadelos, principalmente se não beber antes de dormir.

Levanto para tomar uma água e ver se me acalmo.

Cada passo é um balançar do peso que tenho que carregar. Meu peso.

O chão frio nem me assusta mais, é tudo tão frio, não faz diferença com quem toca o chão. Olho pela janela enquanto entorno o copo com água. Anoiteceu.

Já faz mais de dois meses desde que a neve começou, ela está escassa mas ainda cai de vez em quando. Logo chegará a primavera e começarei a suar, pelo menos não terei que ouvir as lareiras crepitando nos bares.

Ajeito minha coluna que custa a ficar ereta e consigo respirar melhor. Bebo mais um copo d’água, respirando respirando.

Eu costumava chorar no começo, quando comecei a ter esses pesados. Era um tormento quando ainda morava na casa que agora pertence a Feyre e a seu bando de felizes e saltitantes, parecia que sempre tinha alguém de tocaia quando eu acordava de madrugada abafando o som que saía de mim antes de eu perceber que era tudo um sonho.

Um sonho, apenas um sonho, acabou, repetia para mim mesma, sem de fato acreditar nas minhas próprias palavras.

Não acabou. Não para mim.

Solto o copo na mesa e vou me trocar. Preciso sair.

Visto um de meus vestidos parecidos com o que estava usando, ajeito meus cabelos. Me olho de cima e, por fim, arrumo a coluna. Ninguém precisa saber que o que ela quer mesmo é se entortar até me deixar em posição fetal.

Abro a porta e o vento frio vem como um sopro no meu rosto. Mais um dia, mais uma noite.