Querido
Querido
Capítulo 14 min de leitura

Capítulo 1

Olá, tudo bem?

Por aqui tudo anda bem. Há quanto tempo não te escrevo! Sim anos, acho que são pelo menos dois anos desde aquela carta. Encontrei hoje o meu anel de noivado e casamento. Estou a entregar-to com esta carta para quando encontrares outra o poderes vender e comprar um novo anel.

Nunca cheguei a dizer o por quê de me ter ido embora, o que me levou a sair da nossa casa e deixar-te lá sozinho, com as nossas fotografias e as nossas recordações que fomos coleccionando ao longo dos anos entre viagens e idas à cidade dos teus pais.

A verdade é que nem eu mesma ainda compreendi o que me levou a tomar uma atitude tão radical, despedir-me do meu emprego e migrar para outro país e abandonar toda uma vida promissora de felicidade.

Desespero? Medo de assentar? Talvez os dois, talvez amava-te demasiado e isso tornava tudo tão assustador. Senti o meu espírito livre trancar-se quando pousaste as chaves do nosso apartamento na minha mão. Num segundo a minha vida passou-me à frente e não gostei dela, não gostei de ficar sentada naquele sofá pelos próximo cinquenta e cinco anos. Não gostei do berço que colocamos no quarto ao lado do nosso. Não gostei do futuro que pintaste na minha mente no segundo que os teus olhos pousaram os meus no dia do nosso casamento.

Era perturbador aquela sensação de estar presa numa jaula aberta, como se soubesse que podia escapar e ao mesmo tempo não o devia fazer. A minha vida deixou de fazer sentido no momento em que preservativos não faziam mais parte do orçamento, em que tinta azul e rosa decoravam um pequeno canto da nossa sala de estar cheia com fotografias do nosso casamento, dos teus pais e dos teus familiares. O ar faltou-me quando brinquedos começaram a aparecer misteriosamente.

A gota d'àgua foi quando estava atrasada, duas semanas atrasada! Novamente a minha vida me passou à frente e não gostei dela. Senti-me demasiado nova para ser mãe, para casar, para ter um lar. Senti que não tinha vivido nada e de facto não tinha vivido. Mas isso nunca significou que não te amasse. Provavelmente pensas que se eu te amava assim tanto porque não fazia o esforço de ter o teu filho? De carregar no ventre a nossa semente. Se me amavas como eu te amava nunca me porias esse fardo nos ombros sabendo que ainda não estava preparada.

E não vi outra forma, o assunto parecia tabu, só a misera sensação de dizer que não queria nada daquilo fazia-me sentir um monstro e decidi ser esse monstro. Parti o teu coração como nenhuma mulher fez. Fugi da jaula como um pássaro que nunca se habitou ao seu lar. Chorei o voou inteiro, chorei as primeiras noites de hotel e afirmo ter-me arrependido algumas vezes durante as primeiras semanas.

E então tudo mudou, o meu novo emprego era aquilo que queria, viajei, aventurei-me por lugares que nunca me quiseste levar.

Se te interessa permaneço solteira. Acho que o meu coração ainda continua contigo. Sei que não me compreendes, provavelmente achas-me indigna do teu coração. Pois eu sinto o mesmo.

Apenas precisei de escrever esta carta, entregar-te o anel e terminar de uma vez esta aventura infeliz que chamamos de casamento durante dois anos. Eramos novos, crianças ainda.

Hoje não sou mais aquela moça. Acredites ou não sou mãe de uma menina de seis meses. Ela tem os meus olhos!

Bem, enfim. Desculpa-me incomodar-te, trazer sentimentos à tona que já deves ter enterrado bem lá no fundo. Eu simplesmente achei que devia-te uma resposta. E nunca duvides do amor que por ti senti.

Cumprimentos, a tua ex-mulher.

Comentários & Reações

Compartilhe suas impressões, cole selos colecionáveis e interaja com o autor e a comunidade.

Você chegou ao capítulo mais recenteVoltar à página da história
Índice da História