O sol do fim da tarde atravessava a janela do apartamento de Katsuki Bakugo de um jeito irritante, desenhando faixas amareladas no chão da sala. Ele estava sentado no peitoril, encarando a tela do celular pelo que devia ser a milésima vez naquele dia.
Silêncio.
Nem a porra de uma mensagem. Nem um emoji. Nem um "estou vivo".
Nada.
Midoriya tinha partido para uma missão internacional de cooperação havia quase um ano. "Um tempo", disseram. A agência achou que algumas operações no exterior ajudariam a consolidar a presença dos dois no cenário internacional e Izuku, com aquele senso de dever ridículo, aceitou.
No começo, tinham prometido manter contato.
E mantiveram.
Até a rotina dos heróis número um e dois começar a cobrar seu preço. Conversas longas viraram mensagens rápidas. Mensagens diárias viraram resumos semanais. Depois quinzenais.
Então, dois meses antes, a missão de Izuku entrara numa fase sigilosa e praticamente toda comunicação pessoal tinha sido suspensa. A agência de Katsuki conseguia arrancar pouco mais do que confirmações burocráticas de que Midoriya continuava em operação e fora de perigo imediato.
Não era suficiente.
Nunca era suficiente.
Katsuki estalou a língua e jogou o celular sobre o sofá.
— Deixa pra lá essa merda... — resmungou, passando a mão pelos cabelos.
Que papo furado de "agora não dá". De "não posso falar sobre isso". De horários incompatíveis, operações sigilosas e relatórios que chegavam tarde demais.
Ele queria o nerd ali.
Agora.
Aquele lance de dar espaço, manter distância ou fingir que cada um conseguia cuidar sozinho da própria vida nunca tinha funcionado muito bem para eles. Não desde que, a trancos e barrancos, tinham entendido que eram o lugar para onde o outro sempre voltava.
Distância só servia para transformar a irritação de Katsuki numa coisa pior.
Uma coisa que apertava o peito principalmente à noite, quando ele se virava na cama e encontrava o outro lado frio.
Katsuki se levantou e começou a andar pela sala.
Manda a porra de um sinal de vida de onde estiver, Deku.
Qualquer coisa.
Uma atualização no portal da HNS. Uma foto idiota no grupo da 1-A. Uma aparição borrada ao fundo de alguma reportagem internacional. Qualquer prova de que aquele nerd estava inteiro, respirando e provavelmente se metendo onde não devia.
Na falta de informação, a cabeça de Katsuki fazia o que sempre fazia melhor: ia direto para o pior cenário possível.
E ele odiava isso.
Se Deku estivesse bem, Katsuki podia lidar com o resto. Podia ficar puto. Podia xingar. Podia quebrar alguma coisa depois.
O que não suportava era não saber. Não saber se estava ferido. Não saber se estava sozinho. Não saber se, em algum quarto de hotel no outro lado do planeta, Izuku estava olhando para o teto e sentindo a mesma falta desgraçada que ele sentia.
Katsuki não desejava aquilo nem para alguém de quem gostasse menos. Muito menos para aquele nerd idiota que ele tanto ama.
Pegou o celular novamente. A tela continuava vazia.
— Chega.
A palavra saiu firme. Katsuki olhou para a tela por mais um segundo antes de bloqueá-la.
— Chega dessa merda.
Se o nerd não vinha, ele ia até o nerd.
Simples.
Ia até a agência principal, arrancar o itinerário internacional de Midoriya de quem fosse preciso, comprar a primeira passagem disponível ou, se todo mundo resolvesse dificultar, descobrir sozinho uma maneira de atravessar a porra do oceano.
Ele encontraria Deku onde quer que estivesse.
E, quando encontrasse, daria um soco no ombro daquele desgraçado e gritaria até ele entender que essa história de desaparecer para se resolver sozinho tinha acabado.
Katsuki girou nos calcanhares em direção ao quarto para pegar uma mochila.
A maçaneta da porta da frente se moveu.
Ele parou.
Em menos de um segundo, o instinto assumiu. O corpo se inclinou em posição de combate, os músculos tensionaram e pequenas faíscas estalaram nas palmas abertas.
A chave girou duas vezes, meio aos solavancos. Katsuki estreitou os olhos. A porta se abriu devagar. E todo o resto simplesmente parou.
Parado no vão da porta, vestindo um casaco pesado demais para o clima, com uma mochila de viagem pendurada em um dos ombros e os cabelos verdes mais compridos e desgrenhados do que Katsuki lembrava, estava Izuku Midoriya.
Por um segundo, nenhum dos dois se mexeu.
Izuku parecia acabado.
Olheiras fundas marcavam o rosto. Havia cansaço nos ombros, nos cabelos fora do lugar, no jeito como segurava a alça da mochila. Mas, quando seus olhos encontraram os de Katsuki, alguma coisa mudou.
A mochila escorregou de seu ombro e bateu no chão.
— Kacchan...
A voz falhou no meio.
Katsuki continuou parado por mais um segundo.
O nerd estava ali.
Inteiro.
Respirando.
Vivo.
Foi o bastante.
Ele atravessou a distância entre os dois em passos rápidos, agarrou Izuku pelo colarinho do casaco e o puxou para perto.
— Você é um idiota, sabia? — rosnou. — Dois meses. Dois meses sem a porra de uma mensagem! Eu já tava indo atrás de você até o outro lado do mundo, seu nerd desgraçado!
Izuku não recuou, muito pelo contrário. Os olhos verdes se encheram de lágrimas quase imediatamente e, antes que Katsuki pudesse terminar de xingar, dois braços envolveram seu pescoço.
Izuku o abraçou com força. Força demais. Como se precisasse confirmar que ele estava realmente ali.
O rosto se escondeu na curva do pescoço de Katsuki.
— Me desculpa... — a voz veio abafada. — Me desculpa, Kacchan. — Os dedos de Izuku se fecharam no tecido de sua camisa. — A missão se complicou. Cortaram as comunicações e eu... eu tentei continuar. Achei que dava pra focar no trabalho, terminar tudo e só depois pensar nisso. — Ele respirou fundo, mas o ar saiu tremido. — Não deu.
Katsuki ficou imóvel.
— Eu só queria voltar. — Deku desabafou.
Aquilo acabou com qualquer possibilidade de ele continuar fingindo raiva.
Katsuki soltou o colarinho do casaco apenas para envolver a cintura de Izuku com os dois braços. Puxou-o para dentro do apartamento e fechou a porta com o pé.
O abraço ficou ainda mais apertado e, por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Katsuki enterrou o rosto nos cabelos verdes e respirou fundo. Familiar. Era ridículo o quanto tinha sentido falta até daquilo.
— Eu sei, merda — murmurou. A mão subiu até a nuca de Izuku e ficou ali. — Você demora demais pra perceber o óbvio.
Izuku soltou uma risada fraca contra seu pescoço.
Quando se afastou o suficiente para olhar para ele, ainda havia lágrimas no rosto, mas o sorriso estava ali. Pequeno. Cansado. Real.
— Eu percebi, Kacchan.
Katsuki arqueou uma sobrancelha. Izuku engoliu em seco.
— Eu fui até o outro lado do mundo achando que precisava descobrir alguma coisa. Que talvez eu precisasse aprender a ficar sozinho, focar só no trabalho, descobrir quem eu era sem...
Ele soltou o ar e balançou a cabeça.
— E só descobri que queria voltar pra você.
Por um momento, Katsuki não respondeu. Então soltou uma risada baixa pelo nariz.
— Demorou quase um ano pra chegar nessa conclusão?
Izuku fez uma careta.
— Kacchan...
— Patético.
Mas a mão de Katsuki ainda estava na nuca dele e Izuku sabia ler Katsuki havia tempo demais para se deixar enganar.
O sorriso aumentou. Katsuki estreitou os olhos.
— Não fica com essa cara.
— Que cara?
— Essa cara de quem acha que ganhou alguma coisa.
— Eu voltei pra casa e você me abraçou antes de terminar de me xingar. Acho que ganhei bastante coisa.
— Quer que eu conserte isso?
Izuku riu de verdade dessa vez. E o som atingiu Katsuki no peito de uma maneira irritantemente familiar.
Ele apertou a cintura de Izuku.
— E escuta bem, Deku. Da próxima vez que inventar essa merda de desaparecer por meses pra "se encontrar", eu vou junto.
Izuku abriu a boca.
— Mas—
— Não tem "mas".
— Kacchan, você não pode simplesmente—
— Posso. Acabei de decidir.
Izuku riu outra vez, ainda com os olhos molhados.
— Você é impossível.
— E você voltou mesmo assim.
O sorriso de Izuku desapareceu apenas o suficiente para dar lugar a alguma coisa mais suave.
— Voltei.
Katsuki sustentou seu olhar.
Não precisava perguntar se ele ficaria.
Não naquele momento.
Izuku se aproximou primeiro.
O beijo veio afoito, desajeitado pela pressa e pela distância acumulada entre os dois. Katsuki segurou sua cintura com mais força enquanto Izuku enterrava os dedos em seus cabelos, e os dois quase tropeçaram na mochila abandonada perto da porta.
Katsuki soltou um palavrão contra a boca dele. Izuku riu. E o beijou de novo.
Dessa vez, Katsuki não pensou no celular sobre o sofá.
Não pensou na agência, nos relatórios, no fuso horário ou nos dois meses de silêncio.
Izuku estava ali.
E, pela primeira vez em quase um ano, não havia oceano nenhum entre eles.
Estavam em casa.

