Enquanto andava, pensava nas coisas que havia feito durante toda a sua vida. O ar noturno estava frio e as sombras do céu falavam com o grande homem de cabelos ruivos. As densas sombras, que eram as nuvens, transbordavam sentimentos puros demais para serem devidamente definidos ou devidamentes concretos, delas se transbordavam umas nas outras, se achatando suavemente nas pontos como se caçoasse dessa nova alma, livre e confusa. As sombras gritavam, berravam e suplicavam. Era muito belo de se ver, de se sentir. As lágrimas de ouro agora escorriam nas bochecas do velho, que pareciam petálas de fogo, aos olhos de quem pensa de dentro de uma prisão, onde suaves faces choravam de agônia da beleza impura, indócil e abominável, e, nas suas lágrimas, havia o reflexo de como tudo sempre foi, como tudo é e como sempre será; podia ser visto nas suas lágrimas mulheres e homens se juntando na mais calada noite para discutir tudo e nada, de uma forma poética, porém cheia de malícia disfarçada com uma linguagem rebuscada; logo, vendo atentamente essa poesia toda, um sábio pensaria entender tudo, um mendigo, sem muitos conhecimentos sobre as ciências, afirmaria que tudo compreendia e, em troca disso, imploraria por um pedaço de pão e, finalmente, um indivíduo comum ao ver tudo aquilo nada diria, mas riria e com os olhos entregaria que nada entendia. Pro velho de cabelos ruivos aquilo era tudo quê foi a vida dele por todo esse tempo. Viveu uma vida de mentira para provar que era um bom homem, um homem feliz. Viveu preso e, como o (um) passarinho em uma gaiola, decidiu fugir. Não aguentava mais sua prisão, que ele mesmo havia construído para si. Se fosse resumir sua vida naquele instante diria as seguintes palavras " as rosas, as lágrimas, as letras, tudo".
Era tudo estranho. Tudo tão nauseante. O mundo girava, e esse mundo era a mente do, agora, garoto, e não velho, de cabelos ruivos.
