Open Your Eyes
Open Your Eyes
Capítulo 19 min de leitura

Tell me

–AAAAH! — Annabelle pulou em Annabel, a mãe delas não tinha muita criatividade.
–Ai... — Annabel era a irmã mais velha, quando eram pequenas, ela estava acostumada a ser acordada com o pulo da irmã. Mas agora? Elas já não eram mais crianças. -Belle!
–Primeiro dia de faculdade. — Annabel abriu os olhos para o sorriso da irmã- Vim dar tchau — Belle beijou a bochecha da irmã. — Dizer que fiz café para você. Dizer que te amo. Ah, e ouvir seu boa sorte.
Annabel arqueou uma sobrancelha. Então puxou a irmã para um abraço e encheu sua bochecha de beijos.
– Ai mana ai — Belle reclamou rindo.
–Você cresceu tão rápido! — Annabel a apertou.
–Você é só dois anos mais velha.
–Nhe. Você ainda é um bebê. Meu.
Belle gargalhou.
–Continuo mais madura que você.
Annabel jogou uma almofada nela, que riu.
– Eu já vou.
Annabel fez um beicinho fofo, mas não arrancou mais do que um abraço.
Annabelle correu até o ponto de ônibus.
Passou o cartão e sentou em um acento vazio. Não conseguindo conter a abnsiedade abriu a mochila e analisou os materiais, como se estivesse na primeira série ela botou uma etiqueta com seu nome nos cadernos, Annabelle Sparks.
Contrariando as pessoas normais, Belle amava o nome. Annabel dizia que o nome fora falta de criatividade, Belle lhe mostrava a língua, achava que o nome era uma homenagem a irmã mais velha.

Com um sorriso guardou os pertences e se aconchegou no banco, ainda haviam muitas paradas e ela não havia conseguido dormir até às duas horas da manha, então programou o despertador para trinta minutos, para não correr o risco de perder seu ponto.

No breve sonho que ela teve haviam gritos, uma rebelião. Sentia-se orgulhosa, estavam protestando, Annabelle ainda não havia entrado em um protesto, mas sabia que estavam acontecendo. O Brasil estava para mudar. Estava tudo ótimo, mas então tudo ficou quente demais e os gritos se tornaram horrorizados e a dor súbita no tornozelo a acordou.
Não sabia como não havia acordado antes, todos os passageiros corriam para fora, aos berros, manifestantes invadiam o ônibus e queimavam os acentos. Annabelle se desesperou, tentou levantar, mas o movimento brusco só serviu para rasgar seu tornozelo, onde um acento que começava a pegar fogo havia caído.
–Ai! Droga! — gritou, tentando esconder o pânico. — Por favor! — chamou por uma manifestante que saia pela porta de trás — Ajude-me?
A manifestante apenas tacou a caixa de gasolina para trás e correu.
Droga, pensou, logo hoje? Tinha como ser mais azarada?!
O tornozelo começava a sofrer os danos. O material da cadeira derretia e envolvia seu tornozelo. Que acabava de passar de queimadura de primeiro grau para segundo.
Ótimo, ironizou, vou morrer queimada.
Mas então se lembrou da asma. Ela e a irmã eram asmáticas. Com certeza acabaria morrendo com a fumaça.
–SOCORRO! — Gritou. Teria de haver alguém bom suficiente para salvá-la. Alguém altruísta o suficiente. — SOCORRO! — Pensando bem, todos eram egoístas mesmo. Esse era seu fim. Morreria ali.

Desejou ter ficado com com a irmã. Como desejava estar com ela agora.

Droga. Droga. Droga. Universidade? Primeiro dia? Rá! Esse seria o seu último dia.
Começou a tossir, os olhos lacrimejavam de dor e pela fumaça.
Ela gritou mais algumas vezes, mas nada aconteceu, além do ônibus começar a cair em pedaços, protegeu a cabeça, onde os cabelos longos agora tinham as pontas crepitadas.
Ela localizou um litro de gasolina, ao lado da porta de trás. Olhou a redor, o fogo logo estaria ali e então tudo explodiria. Esse seria, definitivamente, seu fim.
A competição estava cerrada: quem a mataria primeiro? O fogo ou a fumaça? Belle apostou em ambos, pensou que eles formariam um acordo.
Ela já nem sentia mais tornozelo para baixo, uma parte de si ficou grata, um pouco de dor a menos. Agora a outra estava desesperada. Isso significava queimadura de terceiro grau, seu tecido epitelial era apenas uma lembrança agora.
Ela iria se arrepender só de pensar nisso, se saísse viva, mas contrariando uma vida inteira, irônico, não? Ela desistiu.
Deitou-se no chão convulsionando com a própria tosse, desejando que as lágrimas fossem o suficiente para apagar todo aquele fogo e por mais que parecesse, não eram.
Agarrou o colar do peito e encarou a foto, desejou voltar no tempo. Para o momento em que as duas irmãs montadas no mesmo cavalo estava congelado na foto.
Essa seria sua última visão da irmã.
Levantou o olhar, o fogo chegou ao pote de gasolina, virou o rosto para baixo e se protegeu com a mochila ao seu lado. O instinto do ser humano era sobreviver. Mas depois daquilo, não havia mais nada.

Annabel estava no estágio no jornal, tomou um gole do moccacino e ligou o computador.

–Preciso de alguém para escrever sobre isso! — disse o chefe balançando papéis — São as informações do último protesto- ele andou pelas mesas e parou na frente de Annabel- Você — apontou e deixou a pilha de papéis — me dê um motivo para contratá-la depois de sua faculdade
Sentindo-se confiante, sorriu.
– Vou te dar mais do que só um.
O chefe assentiu, vindo dele era um elogio, e entrou em sua sala.
Quando Annabel pegou as folhas sentiu como se segurasse seu coração na mão. Levou a mão para o colar em formato de coração, igual ao da irmã, e o beijou.
Respirou fundo, leu as informações e se pôs a digitar. Não inventou nada, não modificou nada, passou o acontecimento o mais real possível. Isso seria apenas uma prévia, manifestantes seriam entrevistados, polícias, passageiros, o motorista.
Salvou o arquivo e depois de uma revisão, imprimiu por garantia e enviou para o chefe.
O celular de Annabel começou a tocar, a música heart attack soou pelo jornal. Envergonhada pela música e por todos os olhares lançados a ela, atendeu rapidamente.
–Sim?
–Annabelle Sparks? — ela sabia que a escolha da mãe daria uma grande confusão.
– Annabel — suspirou acostumada.
–Certo. Senhorita Annabel estás perto do hospital Moinhos de Vento?
–Por quê? — assustada perguntou, sentiu-se desconfortável. O homem suspirou.
– Aconteceu algo e o hospital pede que venha o mais rápido possível.
Annabel achava que o coração sairia pela boca.
–Tudo bem... O que aconteceu?
–É com sua irmà, senhorita.
Annabel arregalou os olhos, deixou tudo para trás depois de desligar o telefone. Saiu sem dar explicações. Jogou-se na frente de um táxi e entrou nele mandando-o seguir na velocidade da luz para o hospital.
Agradeceu por ser preguiçosa demais para tirar os trocados do bolso do jeans.
Quando chegou no hospital ninguém conseguiu detê-la, se era para ser um ambiente calmo Annabel desconhecia isso.
–MINHA IRMÃ! ONDE ELA ESTÁ?!
– Acalme-se senhorita- uma mulher maternal pediu — Vou levar-te até ela, tudo bem?
Annabel respirou fundo e se acalmou, os demais médicos que a seguravam enquanto ela esperneava e gritava, se afastaram, agora.
–Por favor... — Annabel deixou uma lágrima escapar.
– Mas terá de ficar calma, senhorita.
– Certo. Sinto muito.
A mulher assentiu.
–Siga-me.
Annabel a seguiu até a passarela, para depois esperaram por um elevador sufocante.
A subida parecia nunca terminar, mas logo o elevador se abriu. Em um andar mais frio que os outros, mais escuro, mais deprimente.
Os rostos de quem passava eram sisudos, havia uma família abraçada em um canto onde a mulher soluçava.
Annabel estremeceu.
Entraram numa sala no fim do corredor. A sala era grande, mas mal ocupada. Uma cadeira giratória e uma mesa extensa de metal.
Ao redor haviam gavetas metalizadas, diversas.
Infelizmente, Annabel entendeu a situação.
–Não... — ela tapou a boca que se preparava Preparava para um soluço. -Não! Não!
A doutora tocou seu ombro e puxou cadeira giratória para que ela se sentasse. Ele enterrou o rosto nas mãos, soluçou e inconsolável murmurou:
–Ela estava tão feliz... Não... Não — ela agarrou o colar para não socar nada — O que aconteceu com meu bebê?
–Acalme-se querida — a doutora lhe afagou o braço — Ainda terá que identificar, talvez haja um engano.
Annabel negou, não teria essa sorte. Negava-se a ter esperanças. A doutora suspirou.
–Manifestações. Queimaram o ônibus em que ela estava presa.
A reportagem.
–IMBECÍS! — gritou e socou a mesa para depois soluçar mais.
A doutora lhe ofereceu uma água, mas ela negou, não precisava de mais água.
–Vamos acabar logo com isso — ela pediu — meu coração foi queimado com ela, eu não aguento mais.
A doutora assentiu e se apiedou da dor da garota. Abriu a gveta numerada com 1713 e la estava um corpo tapado por uma lona azul, a qual ela afastou.
Ela reconheceu imediatamente a caçula. E tapou a boca novamente. Ela se aproximou da irmã.
A pele da irmã estava queimada, limpa , mas queimada. As pernas foram mais afetadas. O rosto tinha poucos arronhões de modo que parecia que ela estava sonhando.
Annabel estendeu a mão para, agora, o cabelo curto da irmà.
– O que fizeram?
– O cabelo estava chamuscado. O cortaram na autópsia.
Quando foi falado em autópsia Annabel percebeu que havia um corte vertical no corpo da irmã.
Desolada, ela abraçou o corpo da irmã e chorou sobre ele.
–tell me that you'll open
Your eyes...- murmurou. Como se algo fosse acontecer, uma parte dela tinha esperança de que acontecesse.
Escorregou a mão até a dela, onde uma parte da pele estava queimada, ela tomou todo o cuidado, como se a irmã pudesse sentir.
Surpreendentemente a mão da irmã apertou a dela. Com um sobressalto ela e a doutora se afastaram.
As pálpebras de Belle tremeram e se abriram, ela gemeu.
–Isso é um milagre — sussurrou a doutora assustada.
– Impossível! — Sorriu Annie. — Belle?
– Ai — Annabelle gemeu — isso é pior que cólica.
Annabel conseguiu rir. A doutora já havia saído pelos corredores gritando.
A irmã mais velha tomou todo cuidado ao abraçar a mais nova, enquanto ambas soluçavam.
–Achei que ia te perder — Annabel chorou.
Annabelle afastou a irmã para olhar em seus olhos, e então beijar sua testa.
–Jamais.

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