Recordo-me como se fosse hoje, dos meus momentos de fúria quando o encontrava no meu quarto a remexer as minhas coisas, procurando objectos meus com os quais se divertia a gozar...........
Via as minhas amigas como seres de outro planeta ao qual dava o nome de CIBERGIRLS, dizia que eram histéricas, que gritavam freneticamente ao som de uma qualquer banda constituída marioritariamente por rapazes.
Quando a minha mãe tinha a infeliz ideia de me pedir para eu o levar comigo aonde eu fosse...era um horror só de pensar... um dia calhou eu ir as compras com o meu grupinho e ele foi connosco. Passou o tempo todo a comentar aquilo que comprávamos, conversávamos e, até, o tempo que demorávamos em cada uma das lojas. Jurei para nunca mais!!!!
Continuando,daquilo que passei com o meu irmão há coisas que jamais sairão da minha cabeça: as cartinhas que me escrevia; o dia da melhor irmã do Mundo(foi ele que enventou); os presentes que me pedia; os que me dava...
A maior coisa do mundo não é o dinheiro o poder e a fama mas, sim, aquelas coisas que nos passam ao lado por serem tão normais de acontecer: Um abraço, um beijo, uma carícia e muitas outras coisas deste género.
Sendo sincera, neste momento, dava tudo aquilo que tenho para voltar a sentir as suas carícias e o seu amor de irmão.
Tenho tantas saudades dele, que às vezes, dou por mim agarrada a uma fotografia sua a falar para o ar com a esperança de ouvir novamente a sua voz...
Nos dias mais importantes para a minha família, por exemplo no Natal, no seu dia de aniversário, na Páscoa, nas férias... eu adormecia com a esperança de, ao acordar, estar tudo bem e tê-lo no quarto ao lado a dormir serenamente.
Para isto não se tornar confuso, vou contar tudo de início, mas antes um conselho: não olhem sempre para o lado bom das coisas e vão ver que o Mundo cor-de-rosa e colorido que todos nós pintamos dentro da nossa cabeça, está muito longe de ser a verdade verdadeira ...
Vou partilhar esta história que demonstra muito bem aquilo que acabei de dizer.
Sou a Leonor, tenho 18 anos e vou partilhar connvosco esta história.
Quando eu tinha 9 anos os meus pais deram-me a notícia de que iria ter um irmão. A ideia de partilhar os pais, a casa, os avós... não me agradou nada de início, pois eu sempre fui uma criança super mimada e, como a minha familia é bastante pequenina, eu era muito protegida. Tudo o que eu queria, eu tinha, por isso quando os meus pais me deram a notícia, eu recusei-me a aceitar. Pela primeira vez em 9 anos sentia que as atenções não estavam todas focadas em mim...
Com o tempo, aprendi que se calhar ter um irmão não era tão mau quanto parecia. E quando a minha mãe completou o quarto mês de gravidez o que eu sonhei durante quatro meses tornou-se realidade, eu iria ter um irmão.
Nas ecógrafias que se seguiram eu não faltei a uma única, sentia-me muito contente e cheia de espectativas para conhecer a cara da criança que a meu entender era a mais bonita do mundo, mesmo antes de eu a conhecer...
Vou ser sincera, quem escolheu o nome do meu irmão fui eu. Na altura estava em exibição no cinema um filme de um rapaz que sonhava conhecer as estrelas. Era o filme que enchia a cabeça e fazia as delícias dos mais pequeninos. Como tal, eu gostei da ideia de dar o nome do rapaz do filme ao meu irmão. Convenci os meus pais não por este motivo, mas sim dizendo que era engraçado o meu irmão ter um nome idêntico ao meu. Iríamos ser os irmãos Leonor e Leonardo. É claro que os meus pais adoraram logo a ideia e aceitaram-na como a melhor que tinha surgido para o nome de um rapaz.
Foi na manhã do dia de Natal que nasceu o meu mano. Ele nasceu por cesariana... uma hora e trinta minutos depois de ser iniciada a operação. Julgo que até hoje aquela hora e meia foi a mais dolorosa para mim, para o meu pai para a restante família.
Um tempinho depois de nascer, eu pude ir vê-lo...
O seu cheiro ficou guardado cá dentro até hoje e era capaz de o reconhecer em qualquer canto do mundo. Senti que a partir daquele momento iria ser tudo diferente, mas para melhor, para muito melhor.
O Leo pesava quatro quilos e quinhentas gramas e media cinquenta e três centímetros.
No dia 2 de Janeiro de 1999 a minha mãe e o meu maninho voltaram para casa. Quem fez a decoração do quarto do Leo fui eu e o meu pai. Nas paredes pintámos cores muito vivas e desenhámos uns carrinhos e uns bonecos muito engraçados, o berço e essas coisas foram escolhidas com todo o pormenor e cuidado.
Tenho na memória a primeira roupinha que vestiu. Era um fatinho castanho claro e bege. Como o fato tinha umas orelhimhas na cabeça e um pompom no rabo, ele parecia mesmo um coelhinho lindo. Sempre fui uma irmã babada.
Os primeiros meses foram um pouco exaustivos, pois ele tinha muitas cólicas e algumas noites dormia apenas uma hora. Mesmo assim continuei feliz e não perdi o ânimo.
O tempo passa tão rápido que quando eu dei por mim já estava a ajudar os meus pais a preparar a festa do seu oitavo aniversário.
O Leonardo sempre foi uma criança com saúde para dar e vender até ao dia em que por acaso, o meu pequenino foi a uma consulta de rotina. O pediatra descobriu que algo não estáva bem com ele. Mandou fazer uns exames e infelizmente chegou à conclusão de que o Leo tinha Leucemia.
Os meus pais sempre foram pessoas muito cultas por isso tinham uma ideia do que isso era. Já eu fiquei a pensar que Leucemia era uma constipação qualquer que se curava com um bom dia de cama e carinho...
Mas senti necessidade de me informar, por isso pesquisei em todos e mais algum ´´sites´´ que falassem no assunto e fiquei chocada sem saber o que dizer e fazer...
Segundo a minha pesquisa, a Leucemia era um cancro. Como também não sabia o que era um cancro pesquisei. Com a ajuda dos meus pais lá compreendi que o cancro é uma doença caracterizada por uma população de células que crescem e se dividem sem respeitar os limites normais, invadem e destroem tecidos adjacentes, e podem-se espalhar para lugares distantes no corpo, através de um processo chamado metástase. Estas propriedades malignas do cancro diferenciam-no dos tumores benignos, que são auto-limitados no seu crescimento e não invadem tecidos adjacentes (embora alguns tumores benignos sejam capazes de se tornarem malignos). O cancro pode afectar pessoas de todas as idades, mas o risco para a maioria dos tipos de cancro aumenta com o acréscimo da idade.
O cancro causa cerca de 13% de todas as mortes no mundo, sendo os cancros de pulmão, estômago, fígado, colo do útero e mama os que mais matam.
O cancro pode ser a consequência do tabaco, radiação, substâncias químicas ou agentes infecciosos.
O cancro pode ser também herdado genéticamente e estar presente em todas as células ao nascimento.
Depois de saber mais sobre o cancro decidi ir mais longe e pesquisar agora no cancro apenas nas crianças.
O cancro acontece em crianças e jovens, mas é raro. Estudos feitos recentemente provam que a Leucemia está em tendência de aumento de incidência.
A idade do pico de incidência de cancro em crianças ocorre durante o primeiro ano de vida.
A Leucemia é a forma maligna infantil mais comum (30%), seguida pelos do sistema nervoso central e neuroblastoma.
Enfim, no meio de tantas pesquisas e estudos fiquei muito deprimida e incomodada.
Eu tive medo de encarar o meu irmão. Sabia tudo sobre a sua doença, mas não sabia se ele teria algum comportamento estranho, ou necessidade de mudar alguns dos nossos hábitos... enfim fui um pouco tola.
O meu irmão com apenas nove anos estava a passar por coisas que alguns adultos com mais idade do que os nossos pais não sabiam sequer o que era.
Ele não sabia do que se estava a passar. As únicas coisas que sabia e compreendia era que tinha que ir ao hospital para visitar a senhora Doutora de quem tanto gostava.
O Leonardo teve de começar com os tratamentos, pois só a medicação nâo resolveu nada.
Numa das idas ao hospital, ganhei coragem de entrar na sala onde estavam outras crianças com Leucemia, num estado muito mais avançado. Vi um pouco de tudo, desde meninas sem cabelo, a meninos cheios de dores e saturados de estar naquele lugar.
Chorei, chorei muito, com muita vontade, senti-me uma felizarda por estar tão bem de saúde. Também me pus a pensar na família daquelas crianças, e na maneira como acreditavam na sua cura, por mais falta de confiança por parte dos médicos.
Numa dessas idas ao hospital estava uma familia a receber a notícia da morte de uma criança de três anos. Verifiquei que a força com que acreditavam que isto nunca iria acontecer era de tal forma grande que rejeitaram esta realidade até não terem mais forças exteriores e interiores.
Quando o meu irmão já tinha bastantes meses de tratamentos, recebemos a notícia que deixou toda a gente muito contente. Ele podia regressar a casa pois estava praticamente curado. Para ele foi uma alegria tão grande que estava reflectida no seu rosto e nos seus olhos... Finalmente podia voltar para o seu lar onde o esperava toda uma família cheia de saudades e de vontade de encher novamente a sua vida de cor e alegria.
O Leo regressou a casa no dia 13 de Outubro de 2008. Foi maravilhoso.
A sua cara já não eram cascatas de água salgada...
Preparámos-lhe uma pequena festa com tudo aquilo a que tinha direito. Felizmente ao fim de tantos meses já não havia necessidade de passar todos os dias no hospital. Nestes meses fui-me completamente abaixo. O tempo que me restava após as aulas era passado no hospital ou em casa dos meus avós. As minhas notas desceram bastante. Deixei de me preocupar com o estudo. Para mim as únicas coisas que mereciam alguma preocupação era ver o meu irmão curado e de volta a casa.
Agora tudo estava normal e eu já estava de novo com a cabeça nos estudos.
Na semana seguinte o Leonardo voltou à escola. Foi muito bom para ele, voltou a fazer tudo o que fazia antes. Reviu todos os amigos e teve muito apoio por parte de toda a gente que o conhecia.
O Leo ainda não tinha nove anos, mas com toda a certeza que já tinha passado por coisas que muita gente com o triplo da sua idade ainda não tinha passado ou sequer imaginado.
Ele teve de aprender a lidar com a dor e a suportá-la como se fosse a sua sombra, como se fosse um membro do seu corpo com o qual lidara desde sempre... deitava-se com a dor, e com a dor se levantava na manhã seguinte... Foi duro... mas passou.
Ele conseguiu chegar ao último nível deste jogo que era a sua vida sem ter ficado pelo caminho...
Foi um caso de sucesso no meio de tantos outros que não tiveram a mesma sorte.
Passaram dois meses e o Leonardo, a pouco e pouco, foi tentando esquecer o que se passou. Foi encarando as coisas como pormenores, pois o que importava era a saúde.
Para mim e para os meus pais, a vida ficou com um rumo bastante diferente. Ao fim de tantos anos, aprendemos a dar valor ao que nos rodeava. Tudo aquilo que viamos tinha um toque especial.
Passámos a olhar para o dinheiro como um alimento e não como uma forma de luxúria e de nos afirmarmos perante a sociedade. Percebêramos que era muito fácil viver com as maiores dificuldades financeiras, tendo apenas a família e a melhor amiga que podemos ter, a saúde.
Uma semana depois, acordei a meio da noite com umas luzes a reflectirem-se no quarto.
Fui à janela ver o que era. Vi que estava uma ambulância parada à minha porta.
Fiquei em choque, muito amedrontada e curiosa ao mesmo tempo. Tive imensas sensações desde arrepios a calores.
Tudo aconteceu em segundos, mas lá agarrei coragem e fui ver do que se tratava.
Os meus pais estavam a chorar. Respirava-se um ar pesado e escuro, em torno do quarto do meu irmão.
Minutos depois chegou lá a casa a minha madrinha.
Eu estava muito nervosa e tinha muito medo. Recordo-me que ela me deu um comprimido. A partir daí só me lembro de acordar no dia seguinte no quarto da minha madrinha, com o som dela a falar ao telemóvel. Daquilo que ouvi da conversa ela estava a dizer à minha mãe que eu estava bem e que depois de eu acordar e tomar o pequeno- almoço me levava ao hospital. No final da chamada, a minha madrinha apercebeu-se de que eu já estava acordada, então foi falar comigo. Ela contou-me o que se estava a passar, e o que aconteceu na noite anterior... Durante a noite o meu irmão sentiu-se mal e os meus pais tiveram de ligar para a médica e para os Bombeiros. Ele tinha passado a noite no hospital com os meus pais.
Comi à pressa, vesti-me e seguimos logo para o hospital.
Quando lá cheguei, encontrei os meus pais destroçados, a chorar muito. Apercebi-me logo que algo de muito grave se passava com o meu irmão. Dei um abraço muito forte à minha mãe, e depois fui ao quarto do meu irmão. Pedi para ir sozinha, e assim foi.
O quarto era pequeno, mas muito acolhedor. Senti um arrepio assim que entrei, uma sensação para lá de estranha, mas não liguei, naquele momento aquilo em que estava interessada era em ver o meu irmão com um sorriso nos lábios, ou pelo menos com os olhos abertos. Queria que aquele momento fosse só mais um que iríamos recordar os dois, anos mais tarde. Quando a minha vista o conseguiu alcançar, ele estava mal, via-se na sua cara, mas assim que deu pela minha presença, esforçou-se por sorrir. Eu cheguei-me junto da cama e dei-lhe um demorado beijo na testa. A sua voz era cansada e triste.
Eu ouvi as suas últimas palavras. Fui eu que acompanhei os seus últimos movimentos.
Ele disse-me que me admirava imenso como pessoa e como irmã e que não podia partir descansado sem me deixar descansada e feliz comigo própria.
Pediu-me para doar todas as suas coisas a pessoas que dessem o devido valor à vida. Disse que sempre que me sentisse triste bastava olhar para a céu, que algures no meio de tanta estrela, uma iria ter um brilho mais intenso, essa, seria ele a enviar-me coisas boas, sentimentos felizes. Por último disse que seria o meu anjinho da guarda em qualquer altura do dia ou noite.
Ele deu-me um beijo e depois deixou-se cair lentamente na cama. Um aparelho ao qual estava ligado começou a apitar, e depois entrou um batalhão de médicos muito aflitos que me retiraram do quarto. Fui para junto dos meus pais sem forças. Chorei, gritei, atirei-me para o chão...não sei para quê!!! Não mudaria nada com ou sem choro.
Os médicos vieram horas depois dar a notícia de que o Leonardo teria Partido.
Eu tinha uma chama dentro de mim que cada vez estava mais fraca, mas naquele momento ela apagou por completo... aliás tudo em mim ficou envolto de uma pequena grande nuvem escura em forma de saudade e tristeza profundas.
O dia mais triste da minha vida será para sempre aquele, nunca mais me esquecerei daquilo que ouvi da sua boca antes de morrer e da forma como o dizia.
É estranho, mas momentos antes de morrer o meu irmão já sabia que iria partir, pois despediu-se de mim de uma forma...muito sentida e aterrorizada.
Naquele momento o meu mundo, ou o que restara dele, desabou por completo.
Senti o peso da tristeza, pela primeira vez na minha vida.
Quando os médicos deram a notícia a primeira coisa que fiz foi ir ver o meu irmão.
Foi horrível, mas eu não tive medo. Apenas senti uma vontade de ir ter com ele e onde estivesse.
Fomos para casa. Durante toda a tarde estivemos abraçados no quarto delea recordar as brincadeiras e os momentos felizes que tinhamos passado naquele acolhedor compartimento da casa.
Então recordámos tantas coisas como por exemplo, o que eu e o meu pai passámos para encontrar os moldes que queríamos para desenhar na parede, o chichi com o qual sujou o vestido que eu tinha para ir a uma festa, até as horas que passávamos a ler-lhe histórias e a representá-las numa espécie de teatro improvisado...
Foi uma tarde em que os sentimentos que eu mais desconhecia dentro de mim vieram à tona.Com alegria, recordámos aquela que teria sido a criança mais forte da nossa familia.
Praticamente de rastos fui para o meu quarto, peguei no meu diário e recordei tudo desde o início. Eu começei a escrever aquele diário no dia em que soube que a minha mãe estáva grávida, e até lá tinha escrito tudo sobre o Leonardo.
No final só consegui chorar. Foi forte recordar todas aquelas coisas, sabendo que nunca mais iria estar com ele.
Toda a gente se sentiu muito triste. Durante algum tempo, sempre que passava na rua as pessoas reconheciam-me como a irmã do menino que morreu de cancro.
Enfim, já passou quase um ano, mas parece uma eternidade.
Considero que este ano e meio foi muito sentido.
Eu choro, choro muitas vezes, mas não é de tristeza, é de saudade. Eu não posso estar triste pois o meu irmão estava a sofrer imenso, assim está num lugar bem melhor onde só paira a harmonia e a paz. É assim que gosto caracterizar o lugar onde o Leo está...
Já não moro na mesma casa. Todos nós achámos melhor deixar aquele lugar. As memórias que tínhamos de lá eram óptimas, mas é impossível sermos novamente felizes com as memórias que pairam no ar...
Estou a tirar o curso de Medicina Legal, escrevi um livro onde recordo estas e outras passagens da minha curta mas vivida vida e estou perto de ter um segundo irmão, é verdade, desta vez é uma menina. Os meus pais decidiram que isto seria bom para eles e para mim. É verdade vou sentir novamente o que é partilhar tudo. Desta vez é tudo diferente. Já não estou zangada e ciumenta, mas sim feliz e desejosa de a conhecer.
Vai chamar-se Raquel . Este nome foi escolhido com todo o pormenor.
Quando a Raquel for mais crescida, vou contar-lhe tudo sobre o Leonardo e, com certeza, ela vai ficar super orgulhosa.
É assim que a vida funciona.
Eu aprendi a viver a minha vida e a deixar de viver a vida dos outros.
Aquilo que só acontece as outras pessoas tinha-me acontecido a mim.
Para todo o sempre o Leonardo terá a maior gaveta do meu coração reservada a si.
Ele é um exemplo a seguir por todos nós...
Ele é o tesouro que qualquer pessoa gostaria de ter.
Anjos... Eles existem... Não acreditam???
