O sineiro e a equilibrista
O sineiro e a equilibrista
Capítulo 114 min de leitura

Milagre

Madellaine estava rindo. Rindo como nunca havia rido antes. Era um sentimento de euforia tão intenso que ela pensou que poderia explodir de tamanha felicidade. Ela nem conseguia se lembrar em um momento em sua vida que tinha se divertido tanto assim.

Enquanto a chuva caia sobre Paris, sua mão estava firmemente apertada na mão do homem mais surpreendente que ela já tinha conhecido. Aquele que era o motivo de sua alegria. Quasimodo. Suas risadas se misturavam com a dele enquanto eles corriam em direção a Notre Dame. Seu lar.

Enquanto corriam, ele virou o rosto na direção dela e ela pôde ver seu rosto esbanjar uma alegria inocente que era revigorante. Seu sorriso era completamente contagiante.

Eu nunca conheci alguém assim. Nunca tinha encontrado alguém que tenha mexido tanto comigo e em tão pouco tempo.

Faziam apenas algumas horas desde que eles tinham se conhecido, mas era como se eles se conhecessem há anos. Quando ela olhava para ele era como se ela pudesse ver seu coração e ver como era puro e cheio de amor. O que ela tinha certeza que era.

“Vamos, venha Madellaine, vamos ficar ensopados!”

Ele lhe disse enquanto eles subiam os degraus para entrar na catedral. Ambos continuavam rindo enquanto subiam as escadas que os levavam seu loft.

À medida que se aproximavam, Madellaine podia ouvir uns murmúrios vindo de cima. Ela sorriu internamente. Quasimodo podia não ter revelado a ela este fato, mas ela sabia. As gárgulas estavam vivas e deviam ser guardiãs, até amigas dele, ela supôs. Ela esperava que pudesse conhece-las em breve.

Assim que chegaram ao topo, ela viu como o lugar onde o sineiro morava era aconchegante. Ela já tinha visto o lugar antes e sabia disso, mas o fato ficava ainda mais evidente à noite, enquanto era envolto por uma luz suave e alaranjada que vinha de uma pequena lareira e iluminava o lugar. Quasi se adiantou e abriu uma cortina que dava a um pequeno espaço privado do restante do quarto.

"Você pode se secar aqui."

Ele sussurrou suavemente, e um arrepio lhe percorreu o corpo e ela sabia que isso não tinha a ver com o frio e sim com o efeito que ele tinha sobre ela. Com as bochechas vermelhas ela passou por ele e fechou a cortina delicadamente. Ela o ouviu se afastar e lhe dar privacidade. Ele era um total cavalheiro, pensou ela, sorrindo com carinho. Ela encontrou um pano sobre uma cadeira, o pegou e começou a secar seus cabelos.

Enquanto o fazia, seus pensamentos se voltaram para Quasi e como seus sentimentos por ele haviam crescido tão rapidamente. Mas, não poderia ter sido diferente. Ele era o homem mais doce, gentil, com a alma mais pura e ele... Parecia se importar com ela.

Seu sorriso cresceu ao se lembrar de cada momento que passaram juntos essa noite. Quando assistiram ao show de marionetes, quando comeram aquele suflê delicioso, quando caminharam às margens do rio, como ele fazia questão de lhe mostrar cada detalhe que fazia de Paris um lugar tão especial pra ele.

Foi incrível.

Ele era incrível. Seu coração se sentia leve só de pensar nele. Ele era tão... Ela não conseguiu terminar sua observação mental, antes que ela espirasse e isso lhe distraísse de seus pensamentos.

“Saúde!”

“Obrigada.” Ela disse, mas parou quando reconheceu que aquela não era a voz de Quasimodo.

“De nada.”

A voz divertida respondeu antes que ela soltasse uma risadinha baixa ao perceber quem havia falado. Uma gárgula, claro.

Madellaine saiu de trás da cortina e viu que Quasimodo estava de costas para ela, próximo a lareira, provavelmente tentando tornar o lugar mais quente. Ele se virou assim que a viu aparecer e sorriu para ela ao ver como o rosto dela era adorável, com aquela expressão curiosa que ela tinha enquanto olhava ao redor. Ele sentiu seu rosto começar a esquentar no momento que seus olhos se encontraram. Mesmo a distância era como se os olhos dela brilhassem como uma chama ardente e mesmo aquele pequeno sorriso dela o deixava todo tonto e quente por dentro.

Ele sorriu para ela e ela se sentiu encantada por ele. Seu sorriso era tão brilhante, inocente e puro que ela teve que forçar a desviar o olhar. Foi quando ela notou o enorme sino, no andar de cima. Ela se aproximou da escada que levava até ele e subiu, com Quasimodo vindo logo atrás dela.

“Então, este é o sino de que tanto falam...”

Ela falou enquanto se aproximada para vê-lo melhor.

“Ele é lindo...”

“É, você é...”

Madellaine desviou o olhar do sino para o sineiro, as palavras dele a pegaram de supresa, envergonhada; e percebeu que ele também estava quando pigarreava para tentar esconder seu embaraço pelo que acabara de dizer.

“Ah... Quer dizer, ele é sim, o La Fidele, quer dizer o nome dele, La Fidele. Significa, o que é fiel.”

Ele lhe explicou, e as palavras dele fizeram seu coração se contorcer desconfortavelmente. Mas, isso não se devia a ele ou o modo como falava e sim pelo o que ela estava fazendo com ele. Ao notar seu próprio reflexo refletido no exterior do sino, ela percebeu o quando ela era oposta ao La Fidele. Ela era uma farsa e se sentia horrível pelo que estava fazendo.

Então, ela o viu erguer o sino sobre suas cabeças e percebeu o quanto ele era forte, porque para ele parecia que não pesava nada. Ao observar seus músculos mesmo que estivessem cobertos pelas roupas que ele usava, ela percebeu o quanto estava sendo ousada. Ela corou e tentou se concentrar no que ele lhe falava.

“...Mas ele ainda é mais lindo por dentro.”

Seus olhos se encontraram e seu coração pulou uma batida. Ele tinha o olhar mais adorável em seu rosto. Ela sorriu ao perceber que embora o La Fidele não fosse como ela, acabava descrevendo Quasimodo perfeitamente. Era exatamente o que ele era, lindo, tanto por fora, como por dentro.

“Vem, eu te mostro...”

Ele pediu, sua voz quente e convidativa e ela caminhou para frente, sob o sino, enquanto ele o abaixava lentamente sobre os dois. Logo eles estavam cercados por pedras preciosas e brilhantes que revestiam o interior do sino.

“Nossa...” Madellaine sussurrou admirada.

“Ele deve valer uma fortuna.”

Ela olhou para seu reflexo de um dos enormes cristais azuis reluzentes que enfeitavam o interior do sino, enquanto seu rosto de contorcia conforme ela se movia, formando caretas engraçadas. Até que por um instante ela pensou ter visto o rosto de Sarousch refletido a sua frente. Ela piscou e olhou novamente. A imagem refletida voltou a ser ela mesma. Ela deu um passo para trás assustada, sentindo tudo ao seu redor ficar frio, seu coração parecia gelo. Ela pôs os braços em volta de si, sentindo calafrios rastejarem sobre sua pele.

Será que eu sou como ele? Será que sou gananciosa como ele? Será que eu estou mesmo disposta a arriscar a confiança de Quasimodo apenas para ajudar Sarousch a roubar o La Fidele?

Esses pensamentos a perturbavam tanto e quando pensou que poderia desabar, Quasimodo estava ali com uma mão reconfortante em torno de seu ombro. Tão logo seu coração se aqueceu com a presença dele. Eles compartilharam um sorriso caloroso e logo caminharam à beira da pequena lareira no centro da sala. Ela se sentou à beira do fogo e colocou os braços em volta de si, sorrindo ao ver como Quasimodo gentilmente colocava um cobertor em torno de seus ombros.

“Obrigada.” Ela falou enquanto ele se sentava graciosamente ao seu lado, junto ao fogo.

“Você é muito gentil.”

Ela viu como ele desviou o olhar dela, levemente envergonhado por seu elogio. Ele era tão doce. Seu sorriso começou desaparecer quando ela se lembrava o por que de estar ali com ele. Claro, eles estavam se conhecendo e ela amava isso. Estar ao seu lado, conhece-lo, ouvir sua linda voz enquanto ele falava... qualquer coisa. Ela não se importava só queria continuar a ouvi-lo. A sua voz era a coisa mais doce e melodiosa que ela já tinha ouvido. Ela queria ver ser sorriso, como seus olhos brilhavam quando ele sorria, como jóias...

Jóias.

La Fidele.

Sarousch.

Ela suspirou baixinho esperando que Quasi não a ouvisse. Ela sentia como se só estivesse o usando. Isso a fez se sentir péssima, suja por dentro. O sentimento a queria fazer se contorcer de tão agonizante.

Mas, não era assim quando Quasimodo estava com ela. Quando ele a olhava, ela sentia como se ele pudesse ver seu íntimo. Quando ele a olhava ela sentia que podia haver mais dentro dela. Que ela não era aquilo que Sarousch dizia que ela era. Uma garota de rosto bonito que ele tratava como objeto. Quando Quasimodo a olhava parecia que ela era mais, muito mais do que ela já ousou pensar em ser.

‘Eu sei que você pode fazer qualquer coisa.’

“Quasimodo...”

Ele parecia estar bastante nervoso, a julgar pela maneira que ele contorcia seus dedos das mãos, seu olhar pensativo. Mas ele é tão adorável, ela pensou.

Seu olhar disparou para encontrar o seu quando a ouviu falar seu nome. Seu rosto era tão esperançoso.

“Quasimodo, você... Você realmente acha que há mais em mim? Que eu tenho algo mais?”

O sineiro sorriu instantaneamente e seu coração se derreteu só de olhar para aquele sorriso. Ela poderia observá-lo para sempre.

“Acho, acho sim.”

Ela sorriu de volta para ele. A maneira como ele falou... Parecia não conter um pingo de dúvida e ah, como ela queria acreditar nas suas palavras. Como ela queria ser aquilo que ele achava sobre ela. Mas ela duvidou tanto disso.

Eles se entreolharam por alguns preciosos segundos, antes que ele abaixasse o olhar. Suas bochechas estavam vermelhas, mas ela percebeu que o sorriso dele se desvaneceu lentamente e uma expressão melancólica se acomodou em seu rosto.

“Eu sei que eu não sou bonito de se ver.”

Seu tom era tão triste, ela sentiu que seu coração poderia se partir dentro de si, só de vê-lo tão triste assim. Ele não merecia se sentir dessa maneira. Naquele momento ela desejou transferir todo aquele sentimento dele para si mesma, se fosse para vê-lo sorrir de novo.

Ele achava que ele era... feio? Seu coração se contorceu de dor. Feio? Ele não era feio de jeito nenhum. Em seu exterior ele poderia não ser como um príncipe de uma historia de contos de fadas, mas ele era bonito à sua maneira.

Ela sorriu suavemente e se levantou para se sentar frente a ele. Ela viu como ele estava. Os olhos abaixados, os ombros curvados, como se tivesse vergonha de olhar para ela com sua aparência. Mas, não havia nada do que se envergonhar, ele era apenas diferente e isso não era uma vergonha, aos seus olhos era uma dádiva.

Com uma mão em seu queixo ela ergueu seu rosto, para que seus olhos pudessem se encontrar e para Madellaine era como se o mundo ao seu redor se tornasse mais colorido quando compartilhava momentos assim, com ele. Ela sorriu.

“Eu nunca conheci ninguém como você Quasimodo.”

Havia tanta coisa que ela queria lhe contar, como ela poderia dizer a ele o quanto ele já significava para ela?

“Quero dizer, você... Entende o mundo melhor do que qualquer um que eu já conheci...”

Isso era apenas o começo do que ela queria falar, mas pensou que talvez ela devesse ir com mais calma. Ela o conhecia a tão pouco tempo, ela não queria que ele se assustasse com a intensidade dos seus sentimentos. Ele lhe deu um sorriso suave e esperançoso.

“É-é o que você acha?”

Ela sorriu de volta para ele e envolveu suas mãos em torno das dele, percebendo quão diferente elas eram. As mãos dele eram grandes e fortes, que contrastavam com as suas pequenas e delicadas, mas quando ele envolveu as mãos dele em torno das delas seu aperto não era nada mais do que quente e gentil. Quando seus dedos se entrelaçaram acabaram se encaixando tão perfeitamente, apesar das diferenças, como se eles pertencessem um ao outro. Como se devessem sempre estar juntos.

“Acho sim.” Ela sussurrou convicta. Eles se entreolharam envergonhados.

Como ela queria beijá-lo bem ali. Não parecia haver momento melhor. Com o rosto corado, ela se sacudiu mentalmente, tentando desviar sua mente desses pensamentos, por enquanto. Foi quando ela sentiu ele colocar um pequeno objeto sobre suas mãos. Era uma pequena bonequinha que parecia ter sido tão cuidadosamente esculpida, e ela se parecia muito com...

“Eu fiz pra você.”

...Ela.

Ele a esculpiu. Ela trouxe a boneca para mais perto para que pudesse vê-la melhor. Era tão delicada. Os detalhes eram impecáveis. Os pequenos cabelinhos loiros, o vestidinho verde, uma replica praticamente exata do seu, em miniatura. Ela voltou o olhar para ele enquanto ele continuava.

“Assim, você sempre poderá se ver pelos meus olhos.”

Nesse momento, ouvindo sua doce voz, o modo como ele a olhava, o modo como ele a fazia se sentir... A maneira como ele a via. Algo além do nada que às vezes era o que ela pensava de si mesma. Ela se sentiu incapaz de conter as lágrimas que agora brotavam em seus olhos.

Ela lutou para se conter, embora o que mais ela queria fazer nesse momento era chorar e dizer a ele tudo o que sentia por ele. Contar sobre o plano de Sarousch. Se abrir completamente a ele. Ele merecia saber mais. Ele merecia saber toda a verdade. Mas ela não podia, ela tinha uma dívida com Sarousch, pensou com desgosto.

Madellaine apertou a pequena bonequinha em sua mão e prometeu a si mesma que em algum momento contaria a verdade a ele, seria sincera. Ela fungou e limpou as poucas lágrimas que acabaram rolando por seu rosto.

“Bom, eu devia... Q-quer dizer, é-é melhor... Bom, já é tarde e... eu...”

Ela viu como ele havia ficado preocupado. Ele parecia estar prestes a lhe perguntar o por quê das suas lágrimas. Ela não queria que ele se preocupasse com ela. Ela não merecia isso dele e soltou uma risadinha na esperança de afastar a preocupação dele.

“E-eu estou gaguejando de novo... Que idiota.”

Madellaine disse com um encolher de ombros desleixado e seu olhar pousou novamente na bonequinha em suas mãos. Era como ele me via. Ela queria ser como ele a via. Ela queria ser digna dele. E ela se decidiu que lutaria por isso.

“...Não, talvez eu não seja.”

Ela lhe lançou um sorriso um pouco travesso, antes de se aproximar dele e lhe dar um beijo suave em sua testa. Ela sentiu como ele se enrijeceu, surpreso com a atitude dela e quase se arrependeu do que tinha feito, quando cogitou que ele poderia não ter gostado. Mas, então, os lábios dele se abriram e um sorriso tão brilhante se formou em seu rosto. Era algo tão bonito de se ver. Ela queria poder ficar mais e ter o prazer de estar em sua companhia. Queria poder abraça-lo, acariciar seu rosto, beijá-lo sem restrição e... Dizer que o amava.

Mas, ela tinha que voltar ao circo.

“Obrigada Quasimodo. Eu... te vejo amanhã?”

Ela sorriu ao ver como a expressão dele não havia vacilado e ele continuava sorrindo do seu jeito imensamente encantador.

Relutantemente, ela se virou para ir embora. Se ela não fosse agora, ela sabia que nunca o faria. Acenando levemente para ele, ela se afastou e desceu as escadas, com a bonequinha envolta por suas mãos.

Ela a segurou perto de seu coração, fazendo uma promessa a si mesma de que não desistiria, ela faria o que era certo. Sarousch teria que encontrar outra pessoa ou desistir do seu plano. Ela não enganaria Quasimodo, não poderia continuar com isso porque... Ela o amava, com todo o seu coração.

Madellaine percebeu o que Quasimodo havia lhe proporcionado em apenas uma noite.

Ele havia lhe dado uma nova força.

Ela lutaria agora, ela sentiu que poderia fazer qualquer coisa, finalmente seguir seus ideais.

Ela sabia que podia, agora que ele havia entrado em sua vida.

Ele era seu milagre.

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