O enigma de "A Dama de Shalott"
O enigma de "A Dama de Shalott"
Capítulo 16 min de leitura

Capítulo Único

Em uma manhã fria, Londres estava coberta por uma fina neblina, dando ao ar uma qualidade etérea. Baker Street estava mais silenciosa do que o habitual, exceto pelo som ocasional de passos apressados e o distante tilintar de sinos das carroças. No 221B, Sherlock Holmes estava sentado em sua poltrona favorita, olhando pensativamente pela janela. Enquanto estava absorto em seus pensamentos, o Dr. Watson entrou na sala, segurando um jornal.

— Holmes, você leu sobre o roubo na galeria de arte? Parece que uma das pinturas mais valiosas foi levada na noite passada.

Holmes desviou os olhos da janela e pegou o jornal das mãos de Watson. Seus olhos rapidamente percorreram o artigo.

— Interessante. “A Dama de Shalott” de Waterhouse foi roubada. É uma peça única, não apenas por sua beleza, mas pelo segredo que carrega.

— Segredo? — perguntou Watson, intrigado.

— Elementar, meu caro Watson. Diz-se que Waterhouse escondeu uma mensagem criptografada na pintura, algo que tem intrigado os historiadores da arte por anos. Acho que chegou a hora de fazermos uma visita à galeria.

Holmes levantou-se rapidamente e pegou seu sobretudo. Watson, já acostumado com as aventuras repentinas, apressou-se em segui-lo.

Ao chegarem na galeria, foram recebidos pelo curador, Harrison, um homem nervoso e claramente abalado pelo incidente.

— Sr. Holmes, Dr. Watson, agradeço por virem tão rapidamente. Estamos desesperados. A pintura desapareceu sem deixar vestígios.

— Precisamos ver o local do roubo, Sr. Harrison — disse Holmes, direto ao ponto.

Harrison os conduziu até a sala principal, onde a pintura estava exposta. Holmes examinou minuciosamente o local, observando cada detalhe com seu olhar clínico.

— Watson, veja isso — disse-lhe, apontando para uma pequena marca na moldura onde a pintura estava pendurada. — Alguém forçou isso com uma ferramenta fina. Mas não há sinais de arrombamento na galeria. Quem fez isso tinha acesso privilegiado.

Holmes virou-se para Harrison.

— Quem tinha acesso a esta sala na noite passada?

— Apenas eu e os guardas noturnos. Mas juro que ninguém entrou ou saiu sem ser notado — respondeu Harrison, visivelmente nervoso.

Holmes olhou para Watson, e seus olhos brilharam com uma ideia.

— Acho que precisamos fazer uma visita ao café ao lado da galeria, Watson. Há algo que me intriga.

O café era um pequeno e acolhedor estabelecimento, frequentado principalmente por artistas e estudantes. Ao entrarem, foram recebidos pelo aroma acolhedor de café recém-passado. Holmes dirigiu-se diretamente ao balcão.

— Um chá preto, sem açúcar, por favor — pediu.

Watson observou-o curioso, mas decidiu não questionar naquele momento. Enquanto esperavam, Holmes observava atentamente o movimento no café. De repente, ele fixou os olhos em um homem sentado em um canto, folheando um livro de arte. Holmes pegou seu chá e caminhou até ele.

— Sr. Blackwood, posso me sentar? — perguntou-lhe.

O homem olhou surpreso, mas assentiu. Holmes sentou-se e continuou:

— Você esteve na galeria na noite passada, não esteve?

Blackwood tentou disfarçar o nervosismo, mas seus olhos traíam a ansiedade.

— Eu... estava, sim. Sou um grande admirador da “A Dama de Shalott”. Fiquei até o fechamento.

Holmes sorriu levemente.

— E saiu logo após, correto? Mas, por alguma razão, voltou mais tarde.

Blackwood ficou pálido.

— Como... como você sabe disso?

— Seus sapatos. O barro na sola deles é típico do que encontramos nos jardins atrás da galeria, não nas ruas de Londres. Você voltou, provavelmente pulando a cerca para ter acesso sem ser notado.

Blackwood suspirou, derrotado.

— Está certo. Mas eu não roubei a pintura! Eu... apenas queria decifrar o segredo de Waterhouse.

— E você conseguiu? — perguntou-lhe.

— Sim, encontrei a mensagem. Waterhouse escreveu uma carta de amor codificada para sua musa. Não consegui decifrar completamente, mas... queria tentar.

Holmes assentiu.

— Muito bem, Sr. Blackwood. Vou entregar essa informação à polícia, mas acho que sua curiosidade será sua salvação.

Holmes e Watson, tendo retornado à galeria, reuniram-se novamente com Harrison no local do roubo. Holmes começou a reconstituir os eventos da noite anterior, concentrando-se nos detalhes que havia observado.

— Sr. Harrison, quem eram os guardas de plantão na noite do roubo? — perguntou Holmes, com um olhar penetrante.

— Apenas dois guardas estavam de serviço: o Sr. Thompson e o Sr. Miller. Ambos são funcionários antigos e de confiança — respondeu Harrison, ainda nervoso.

Holmes acenou com a cabeça, pensativo.

— Muito bem. Gostaria de falar com ambos imediatamente.

Poucos minutos depois, os guardas foram chamados e apresentados a Holmes. Ele observou cada um deles cuidadosamente antes de falar.

— Senhores, podem me contar suas atividades da noite passada? — indagou-lhes.

— Eu estava patrulhando o corredor principal e não notei nada fora do comum — disse Thompson, com um tom firme.

— E eu estava na entrada principal, certificando-me de que ninguém entrasse sem ser notado — acrescentou Miller.

Holmes olhou para os sapatos dos dois guardas e notou algo peculiar.

— Sr. Thompson, poderia me mostrar suas botas? — pediu-lhe.

Surpreso, Thompson fez o que foi solicitado. Holmes examinou a sola das botas e, em seguida, fez o mesmo com Miller. A diferença era evidente: as botas de Thompson estavam limpas, enquanto as de Miller tinham vestígios de barro.

Holmes levantou-se e dirigiu-se a Watson com um olhar significativo.

— Watson, parece que encontramos nosso homem. Veja, o Sr. Miller tem barro nas solas das botas, o mesmo barro que encontramos nos jardins atrás da galeria.

Miller ficou pálido e começou a suar.

— Isso não prova nada! Eu poderia ter pisado em barro em qualquer lugar!

Holmes sorriu levemente, mas com um ar de certeza.

— É verdade, Sr. Miller, mas o tipo específico de barro encontrado nos seus sapatos é raro e corresponde exatamente ao solo dos jardins atrás da galeria. Além disso, seu comportamento nervoso e a tentativa de desviar o assunto indicam sua culpa.

— Mas... mas eu não roubei a pintura! — Miller tentou argumentar, sua voz tremendo.

Holmes ergueu uma sobrancelha.

— Então, onde está a pintura, Sr. Miller?

Miller, percebendo que não tinha saída, desabou.

— Está no depósito atrás da galeria. Eu só queria vendê-la no mercado negro e sair dessa vida de miséria. Nunca pensei que seria pego.

— E a ferramenta que você usou para remover a pintura da moldura? — perguntou-lhe, com um tom inquisitivo.

Miller suspirou, sabendo que não tinha mais como escapar.

— Usei uma espátula fina, geralmente usada para restaurar pinturas. É perfeita para deslizar sem danificar a moldura ou a pintura.

Holmes assentiu, confirmando suas suspeitas.

— Como imaginei. Uma ferramenta discreta, facilmente escondida e comum em uma galeria de arte.

Com essa confissão, a polícia foi chamada e a pintura foi recuperada exatamente onde Miller havia indicado. Com o mistério resolvido, Holmes e Watson voltaram ao café. Contudo, Watson não podia deixar de expressar sua admiração.

— Holmes, como deduziu tudo isso apenas observando os sapatos?

Holmes tomou um gole de seu chá e, com um sorriso satisfeito, disse:

— Watson, nunca subestime o poder de uma boa xícara de chá e um pouco de observação.

Watson sorriu, sabendo que, mais uma vez, a mente brilhante de Holmes havia desvendado mais um mistério.