O Véu Caído
O Véu Caído
Capítulo 113 min de leitura

A noite em que a escuridão o reconheceu

Lucien sempre tivera a impressão de que as casas guardavam o que as pessoas tentavam esquecer.

Não era uma ideia particularmente original. Encontrava versões dela nos livros que lia, nos filmes que assistia durante a madrugada e nas conversas de gente que atribuía rangidos a fantasmas porque era mais fácil do que admitir que uma casa velha estava caindo aos pedaços. Ainda assim, havia alguma coisa nas paredes do apartamento em que crescera que o fazia baixar a voz quando caminhava sozinho pelos corredores.

Naquela noite, porém, a casa não estava apenas atenta: estava esperando.

Lucien percebeu isso quando a luz do corredor piscou pela terceira vez. A primeira, culpou a instalação elétrica. Na segunda, levantou os olhos do livro. Na terceira, fechou-o sobre o indicador e ficou imóvel, escutando.

O apartamento permanecia em silêncio. Do lado de fora, a chuva escorria pelas janelas e transformava as luzes da rua em manchas compridas e trêmulas. O relógio da cozinha marcava vinte e três e dezessete. O aquecimento fazia um ruído baixo dentro das paredes.

Então veio o som de três batidas.

Mas não na porta da frente. Vieram de algum lugar atrás da parede, perto do armário embutido do corredor.

Lucien tirou o dedo do livro.

— Muito engraçado — murmurou, embora não houvesse ninguém ali para ouvi-lo.

Levantou-se. O piso frio atravessou as meias enquanto caminhava até o corredor. A lâmpada voltou a piscar, lançando sobre as paredes uma sequência de claridade e sombra. O armário estava fechado. A porta branca, marcada por riscos antigos perto da maçaneta, parecia tão banal quanto sempre.

Ele encostou a mão nela e o frio do toque veio primeiro.

Não o frio comum de uma superfície que passara horas sem receber calor, mas uma temperatura funda, quase líquida, que atravessou sua pele e subiu pelo braço. Lucien puxou a mão de volta. Por um segundo, teve a sensação absurda de que alguma coisa do outro lado também havia recuado.

A então lâmpada apagou e no escuro, ouviu a própria respiração. Depois, uma voz.

Não veio do armário e nem do corredor. Pareceu nascer no espaço estreito entre um pensamento e outro.

Lucien.

Ele recuou até bater as costas na parede.

A voz não se repetiu. O apartamento voltou a fazer seus pequenos ruídos: o aquecimento, a chuva, o relógio. A lâmpada acendeu de novo, fraca e amarelada.

Lucien ficou ali por tempo suficiente para sentir vergonha de estar com medo.

Não era a primeira vez que algo estranho acontecia. Havia episódios menores, quase sempre fáceis de explicar depois: objetos que apareciam em lugares diferentes, sonhos que deixavam uma impressão física, sombras que pareciam se mover quando ele não olhava diretamente para elas. Na infância, a avó dizia que ele tinha uma imaginação fértil demais. Mais tarde, quando ela já não estava ali para dizer coisa alguma, Lucien aprendera a chamar aquilo de cansaço.

Era uma explicação mais aceitável e não exigia que fizesse perguntas.

Ele voltou à sala, acendeu o abajur e pegou o livro novamente. Tentou retomar a leitura na mesma página, mas as palavras haviam perdido a ordem. Leu o mesmo parágrafo três vezes e nada parecia fazer sentido.

Às vinte e três e quarenta e dois, alguém bateu à porta e dessa vez, o som veio do lugar certo.

Lucien não se moveu imediatamente. Olhou para a porta de entrada, depois para o corredor. O apartamento parecia ter encolhido em torno dele. A chuva engrossara, tamborilando no vidro.

A segunda batida foi mais firme.

Ele atravessou a sala e olhou pelo olho mágico.

Um homem esperava do lado de fora. Alto, vestido com um sobretudo escuro que parecia pouco adequado à chuva, mantinha as mãos juntas diante do corpo. Não era jovem, mas tampouco parecia velho. Tinha o rosto estreito, os cabelos grisalhos penteados para trás e uma expressão de paciência tão perfeita que, por algum motivo, Lucien desconfiou dela.

— Quem é?

— Meu nome é Elias Veyne. Vim falar com Lucien Vale.

Lucien não abriu.

— Sobre o quê?

— Sobre algo que aconteceu esta noite.

O estômago dele se contraiu.

— Não sei do que está falando.

O homem inclinou ligeiramente a cabeça, como se tivesse esperado aquela resposta.

— Então talvez seja melhor começarmos pelo que aconteceu agora pouco no corredor.

Lucien afastou o rosto do olho mágico.

Por alguns segundos, considerou não responder. Podia desligar as luzes, voltar para a sala e fingir que não havia ninguém. Podia ligar para a polícia. Podia fazer qualquer uma das coisas que pessoas sensatas faziam quando um desconhecido aparecia à porta pouco antes da meia-noite dizendo saber o que acontecia dentro de sua casa.

Em vez disso, perguntou:

— Como sabe disso?

— Porque não foi a primeira vez… e nem será a última.

O silêncio que veio depois pareceu ocupar o apartamento inteiro.

Lucien abriu a porta apenas o suficiente para vê-lo melhor. O homem não tentou avançar. Seus olhos passaram pelo rosto de Lucien, detiveram-se por um instante nos óculos de armação fina e depois voltaram aos seus olhos.

— Você é Lucien Vale?

— Depende de quem está perguntando.

— Alguém que veio impedir que a próxima noite seja pior.

— Isso não é uma resposta.

— Não. É um aviso.

Lucien quase fechou a porta. A mão do homem continuou imóvel ao lado do corpo. Não havia ameaça explícita nele, e talvez fosse isso que tornasse tudo mais inquietante. Parecia ter aprendido a não precisar de gestos bruscos.

— O que quer de mim?

— Que venha comigo.

— Para onde?

— Saint Orpheus.

O nome não significava nada para Lucien. Ainda assim, ao ouvi-lo, sentiu uma pressão breve atrás dos olhos, como se tentasse recordar um sonho que nunca tivera.

— Nunca ouvi falar desse lugar.

— É provável, mas é o único lugar atualmente que você estará protegido.

— E por que eu iria com você?

Elias olhou por cima do ombro dele, para o interior do apartamento. Por um instante, a expressão controlada cedeu lugar a algo que Lucien não conseguiu identificar. Talvez fosse reconhecimento ou receio.

— Porque a coisa que chamou por você esta noite sabe onde encontrá-lo.

Lucien sentiu o sangue esfriar.

— Você também ouviu?

— Não, mas conheço o sinal.

— Que sinal?

— A casa respondeu.

A frase pareceu ridícula. O pior era que, no fundo, Lucien sabia exatamente o que o homem queria dizer.

— Não vou a lugar nenhum com um estranho.

— É uma decisão razoável…

— Ótimo.

— …mas não é uma decisão segura.

Lucien soltou uma risada curta, sem humor.

— Você aparece na minha porta, sabe o que aconteceu dentro do meu apartamento e espera que eu acredite que está aqui para me proteger. Está ouvindo como isso soa ridículo?

— Estou.

— E mesmo assim continua falando.

— Porque não tenho tempo para convencê-lo de que sou uma pessoa confiável ou não. Só tenho tempo para dizer que, se ficar aqui, aquilo voltará e dessa vez será pior.

A lâmpada do corredor piscou novamente e os dois olharam para cima.

Uma vez. Duas.

Na terceira, apagou.

Dessa vez, não voltou.

Atrás de Lucien, alguma coisa bateu à porta do armário. Três vezes.

O homem do lado de fora não pareceu surpreso. Apenas fechou os olhos por um instante, como alguém que confirma uma suspeita desagradável.

— Pegue um casaco — disse.

Lucien não respondeu.

— E leve apenas o que puder carregar.

— Você não manda em mim.

— Ainda não.

A escolha de palavras o irritou mais do que deveria.

— O que isso quer dizer?

Elias sustentou seu olhar.

— Quer dizer que há coisas sobre sua família que você nunca teve oportunidade de conhecer. E que, a partir desta noite, elas não vão mais ser segredos.

Lucien pensou na avó. Nas fotografias que ela guardava viradas para baixo. Nas histórias interrompidas quando ele entrava na cozinha. Nos documentos que desapareceram depois do funeral. Pensou em todas as vezes em que perguntara sobre o pai e recebera respostas que pareciam ter sido ensaiadas.

— Você conheceu minha avó?

— Conheci.

— Então sabe que ela morreu.

— Sei.

— E sabe que não pode usar isso para me fazer sair de casa.

Pela primeira vez, Elias pareceu perder a paciência.

— Lucien, escute com atenção. O que está dentro deste apartamento não está tentando entrar. Está tentando ser reconhecido.

A frase abriu um espaço gelado entre eles.

Lucien olhou para o corredor. A escuridão parecia mais densa do que deveria. Não era apenas ausência de luz, havia nela uma profundidade impossível, como se o fim do corredor tivesse recuado para muito longe.

— O que é aquilo?

— Algo que nem eu mesmo sou capaz de entender.

— Finalmente, alguma honestidade.

— É o máximo que posso oferecer esta noite.

O ruído veio de novo. Desta vez, não foram batidas. Algo arranhou a madeira do armário pelo lado de dentro, lentamente, de cima a baixo.

Lucien sentiu a pele dos braços se arrepiar.

— Casaco — repetiu Elias, mais baixo.

Ele se afastou da porta. Não porque tivesse decidido confiar no desconhecido, mas porque ficar ali parecia, de repente, uma forma muito específica de morrer. Pegou o casaco escuro pendurado perto da entrada, enfiou o celular no bolso e voltou para a sala para apanhar a carteira. O livro permaneceu aberto sobre a mesa, abandonado na página que não conseguira ler.

Quando retornou, Elias ainda esperava do lado de fora.

— Não vou deixar você me levar para algum lugar sem avisar ninguém.

— Naturalmente.

— Vou mandar uma mensagem.

— Faça isso o mais rápido possível.

Lucien digitou para a única pessoa a quem poderia recorrer àquela hora. Escreveu que precisaria sair por alguns dias, que explicaria depois. Apagou. Escreveu de novo. A mensagem pareceu pequena demais para a noite que estava vivendo, mas enviou assim mesmo.

Quando guardou o telefone, percebeu que a porta do armário estava entreaberta.

Tinha certeza de que a deixara fechada.

Do vão não vinha luz alguma. Lucien não conseguia distinguir o fundo, nem as roupas penduradas, nem as caixas que guardava na parte de cima. Era como olhar para uma janela aberta durante a madrugada, só que não havia céu do outro lado.

Uma forma se moveu lá dentro.

Ele deu um passo para trás.

A escuridão avançou até a soleira do armário e parou. Não tinha contorno, rosto ou membros. Ainda assim, Lucien sentiu que estava sendo observado com uma intimidade que nenhuma pessoa deveria ter o direito de reivindicar.

Então ouviu a voz outra vez. Desta vez, não pronunciou seu nome.

Disse apenas: Volte.

Elias segurou a porta de entrada aberta.

— Precisamos ir agora.

Lucien atravessou o limiar sem olhar para trás. O homem fechou a porta e girou a chave. O clique da fechadura pareceu pequeno demais para proteger qualquer coisa.

No corredor do prédio, as luzes estavam acesas. O mundo retomara sua aparência habitual com uma facilidade ofensiva. Um vizinho deixara um par de sapatos diante da própria porta. O elevador subia em algum andar. Em algum apartamento, uma televisão ria para uma plateia invisível.

Lucien olhou para Elias.

— Você vai me explicar tudo?

— Vou explicar o que puder.

Desceram pelas escadas. Elias caminhava sem pressa, mas havia uma tensão nos ombros que o impedia de parecer tranquilo. Na rua, um carro preto esperava junto ao meio-fio. O motorista não desceu. Apenas destravou as portas.

Lucien parou antes de entrar.

— Onde fica esse lugar que vamos?

— Nas montanhas, entre a França e a Suíça.

— Isso é longe.

— Sim.

— E você espera que eu simplesmente entre num carro e atravesse uma fronteira com você?

— Eu não disse que nada disso seria simples.

A chuva tinha diminuído. O asfalto refletia os postes, e o vento trazia o cheiro metálico de uma cidade lavada durante a noite. Lucien olhou para o prédio. Do lado de fora, as janelas pareciam comuns. Nenhuma sombra se movia atrás delas.

— O que é Saint Orpheus? — perguntou.

Elias demorou um pouco para responder.

— Uma instituição antiga. Um lugar construído para estudar aquilo que o restante do mundo prefere chamar de fantasia.

— E o que eu tenho a ver com isso?

O homem abriu a porta traseira do carro.

— Essa é a pergunta que só você conseguira responder.

Por mais que tudo aquilo parecesse ridículo e que ele acreditasse fielmente que não passava de um sonho, Lucien entrou.

Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou. O motorista arrancou devagar, incorporando-se ao trânsito quase vazio. A cidade passou pela janela em fragmentos: fachadas molhadas, vitrines apagadas, uma farmácia aberta, um homem fumando sob a marquise de um hotel. Lucien observou tudo com a atenção de quem tenta decorar um lugar antes de perdê-lo.

— Minha avó sabia? — perguntou por fim.

Elias, sentado ao seu lado, manteve os olhos na rua.

— Sabia o suficiente para ter medo.

— De mim?

— Por você.

Lucien virou o rosto.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Não.

A resposta foi tão direta que ele não encontrou o que dizer.

O carro deixou o centro e tomou uma avenida mais larga. Aos poucos, os edifícios diminuíram. Lucien apoiou a cabeça no vidro frio e fechou os olhos, mas a escuridão do armário continuava ali, nítida demais para ser lembrança. A voz também.

Volte.

Não sabia se a coisa o chamava para dentro do armário, para dentro de si mesmo ou para algum lugar que ainda não existia.

— O que vai acontecer quando chegarmos? — perguntou.

— Você será recebido e alocado.

— Por quem?

— Pessoas que conhecem a história da sua família.

— Quando chegarmos, vocês vão me contar o que aconteceu com a minha família?

Elias demorou a responder.

— Vou contar o que sei, isso que posso prometer.

— E o que não sabe?

— Teremos de descobrir juntos.

Lucien soltou o ar pelo nariz e voltou os olhos para a janela. Era curioso como aquele homem conseguia transformar cada resposta em mais uma pergunta. E, pior, como uma parte dele já começava a temer o que encontrariam quando finalmente chegassem.

— Você está fazendo isso de propósito?

— O quê?

— Falando como se todo mundo soubesse alguma coisa sobre a minha vida, menos eu.

Elias aceitou a acusação sem se defender.

— Sim. E peço desculpas por isso.

— Não parece muito arrependido.

— Arrependimento não muda o que precisa ser feito.

Lucien voltou a olhar pela janela. A cidade terminava aos poucos, substituída por estradas escuras e árvores que se erguiam como figuras imóveis na chuva. Ele não sabia quanto tempo levaria até as montanhas. Não sabia se Elias dizia a verdade, se o motorista trabalhava para ele ou se alguém perceberia sua ausência antes do amanhecer.

Sabia apenas que alguma coisa o chamara pelo nome e que, quando a voz voltou a falar dentro de sua cabeça, não pareceu vir de trás.

O carro seguiu pela estrada, levando-o para longe da casa onde crescera. Atrás deles, a chuva apagava lentamente as marcas dos pneus. À frente, em algum ponto entre dois países, Saint Orpheus o esperava.

Lucien ainda não sabia que aquele lugar fora construído para manter certas coisas do lado de fora.