Chovia. Uma garoa fina, chata, que amola até os que estão são e salvos, em locais cobertos. Uma daquelas chuvinhas da qual todos reclamam, porem não têm medo de enfrentar. O tipo de chuva que vem de dentro. Aquela que cai apenas do lado esquerdo do peito.
O homem, que na verdade mais parecia um garoto em roupas sociais, era o típico ser humano na média. Tinha um emprego razoável, uma namorada que não era nem bonita e nem feia, até que dava para o gasto, dizia ele. Morava num bairro que não era bom nem ruim, mas pelo menos tinha uma padaria em sua rua. Mas e aí? Era feliz? Nem feliz nem infeliz, apenas mediano.
Mas quando se tratava de emoções, esse homem batia recordes e vencia maratonas.
Diferente deste choro de agora, que veio feito garoa, o normal era que, quando chovesse, tudo se alagasse, o que fazia ser possível tomar banho com suas lágrimas. Quando sorria, era sempre um sorriso ridículo, que vinha de lugar nenhum, sempre inesperado. Era um tipo diferente de sorriso, que te surpreendia, por que não podia ser real...
Agora seu sorriso está triste. Molhado, devido sua chuva interior. Enquanto está sentado no velho e firme banco, ele não sente o calor vindo da madeira maciça, mesmo após horas sob o sol. Ele não é contagiado pela beleza do lago que inunda sua vista, ou pelas flores – tantas flores! Ali existem todos os tipos, cada vez que seus cílios se encontram, revelam uma cor diferente, mais bonita, mais exótica. Cada vez menos mediana, sempre algo se destacando. Ora orquídeas em árvores ainda peladas pelo inverno, ora um pedaço de grama bem cuidado demais, verde demais. Ou uma árvore cujo tronco é de tamanha formosura que deixaria a árvore falante de Pocahontas com inveja.
Assim que o Médico chega, ele sabe que há algo que ele precisa fazer. Que tem um motivo para estar ali, na praça da República em pleno domingo, quando não gosta de aglomerações e acha a arte uma coisa bastante chata. A feirinha, então, não o agrada em nada. Tudo aquilo tinha uma razão.
“Será que posso me sentar aqui?” O Médico pergunta. O menino, homem, ser humano em transição, ainda não sabe a profissão desse estranho, mas ele logo vai perceber o jaleco branco com um crachá de identificação pendurado em sua bolsa de lado.
Logo ele também perceberia que a aparência deplorável do Médico era sua própria saúde se deteriorando.
“Eu acho que não há nada que eu possa fazer por você, que você não possa fazer por si mesmo.” Respondeu o menino, homem, ser humano em transição.
Mas o médico, notando a apreensão do homem – sim, ele parecia um homem no momento, tão certo do que dizia, mas, ao mesmo tempo, tão prepotente, crente de que sua resposta era a correta, que não enxergava as outras variáveis, as variáveis consideras impossíveis, as variáveis chamadas carinhosamente de sonhos – sorriu, e era um sorriso que te surpreendia, tão bonito que parecia tirado de uma obra de arte. O homem se pegou pensando se talvez encontraria algo tão belo na feirinha montada ao lado.
“Apenas segure minha mão, acho que isso vai ajudar.” Disse o Médico.
Então ficaram os dois, Médico e ser humano em transição, acompanhados pelo silêncio imaginário, folhas verdes que teimavam em rodopiar ao redor deles e sombras inexistentes do sol do meio dia.
Finalmente, o Médico se levantou. Ele parecia mais corado, mais vivo. Mais finalizado, na verdade.
“Obrigado, estranho, por este sorriso terapêutico.”
E o homem não conseguiu fazer outra coisa além de sentir os olhos marejados enquanto olhava o Médico se afastar, o jaleco balançando por cima da bolsa enquanto andava. Tinha algo ali, no branco, que fazia a cena parecer mais melancólica do que era. Tinha algo no Médico que lembrava força, mas ao mesmo tempo ele parecia enfraquecido.
Aquilo era adeus, antes mesmo de ter sido um olá.
Cansado, era hora do menino desaparecer. Então o humano em transição se deitou na grama verde, ainda ao lado do banco onde estava sua mochila e paletó. Ficou olhando para cima, tentando entender por que tinha sido escolhido pelo Médico. Se é que aquilo havia sido uma escolha. Talvez fosse apenas coincidência.
Então, depois de minutos, horas na verdade, sentiu algo molhado em contato com sua bochecha direita e se assustou. Por que não esperava mais surpresas. Era fim de tarde agora, a luminosidade ainda presente, mas apenas por causa do horário de verão recém implantado.
Um vira-lata de aproximadamente meio metro de comprimento estava deitado ao seu lado, o focinho cutucando a bochecha do ser humano em transição, alternando com algumas lambidas.
Ele olhava para o humano como quem almeja a Lua, sabendo onde Ela está, mas nunca podendo tocá-la. O Cachorro podia lamber, podia brincar e podia também querer pertencer ao humano. Mas isso não aconteceria, por que a transição ainda não estava feita. Ele não podia tomar conta nem dele mesmo, como arcaria com as conseqüências de um ser vivo tão necessitado como o Cachorro? Era mais fácil ter a Lua como amiga, mas também mais solitário.
Mesmo contestando a si mesmo, ele se levantou, o Cachorro firmemente preso em seus braços. Pegou o paletó sobre o banco e, colocando a bolsa de lado no corpo, começou a pensar em modos de burlar as regras do metrô.
O agora homem percebera que nunca estaria sozinho. Podia ter perdido a namorada mediana, a padaria em sua rua podia fechar, o trabalho poderia despedi-lo, mas já não era mediano. A partir do momento em que o Médico apareceu, ele passara de menino para humano em transição e, enfim, homem.
O mais importante, porém, era que agora, finalmente... A chuva havia parado.