
Capítulo 1 - O Olho que Tudo Vê: Presente de Alfa, Dor de Cabeça Divina
Capítulo 1 — O Olho que Tudo Vê: Presente de Alfa, Dor de Cabeça Divina

Eu estava sonhando. Pelo menos era o que eu acreditava enquanto meu cérebro transformava memória em cinema sobrenatural sem pedir autorização. Porque, aparentemente, nem dormindo eu tinha direito a descansar em paz.
A cena começou na Torre da União, sob o luar de uma noite que eu conhecia bem demais. 16 de novembro de 2025. A data em que Taishou Seiji, meu Alfa de estimação, meu lobo favorito e o responsável por boa parte da minha decadência emocional, resolveu me dar um presente.
Não flores compradas às pressas, nem chocolate de supermercado, nem cartão com frase pronta escrita por algum funcionário emocionalmente esgotado. Estamos falando de um homem que nasceu antes de boa parte da humanidade aprender a se organizar. O padrão de presente dele era diferente.
No sonho, eu subia os últimos degraus da torre. A luz da lua atravessava os vitrais e derramava faixas prateadas no chão. O vento frio percorria o lugar. Taishou estava de costas, examinando uma das prateleiras. A túnica preta destacava a largura dos ombros. O cabelo escuro refletia o luar. Havia algo solene na postura dele, como se estivesse prestes a realizar um ritual capaz de alterar o destino de um continente. Considerando o histórico daquele homem, eu não descartava a possibilidade.
"Taishou...?", perguntei. "Por que me chamou aqui a essa hora?"
Ele se virou. Os olhos negros encontraram os meus. E então aconteceu uma coisa tão rara que merecia registro histórico.
Ele riu.
Não uma gargalhada. Um som baixo, discreto, quase secreto, que suavizou por um instante aquela expressão permanentemente séria de quem está a três segundos de declarar guerra.
"Lua, feche os olhos."
Eu ergui uma sobrancelha.
"Isso é presente ou o início de um ritual suspeito? Porque se for para me sacrificar, gostaria de registrar minha reclamação antes. Tenho planos para o meu cadáver."
Taishou soltou outra risada curta.
"Confie em mim."
Claro. Confie no homem milenar, líder de alcateia, que me chama de Lua e carrega uma quantidade preocupante de traumas que eu mesma escrevi. O que poderia dar errado?
Fechei os olhos.
Ouvi os passos se aproximando. O som delicado de uma pequena peça de metal sendo manuseada. Senti o ar mudar quando ele ficou atrás de mim.
"Taishou?"
"Não abra ainda."
A voz grave soou perto do meu ouvido. Senti o contato frio de uma corrente contra a pele, seguido pelo roçar cuidadoso dos dedos dele na minha nuca. O fecho se encaixou com um clique quase imperceptível.
"Agora pode abrir."
Obedeci.
A lua iluminou o pingente no meu pescoço. Prata, com asas ornamentadas abertas ao redor de um círculo branco e um ponto negro perfeitamente centralizado. Um símbolo antigo, belo e inquietantemente solene.
O Olho que Tudo Vê.
Toquei a peça com a ponta dos dedos. O metal era frio, mas havia algo naquela joia que parecia mais profundo do que qualquer valor material. No verso, duas datas gravadas: 26-12-97 D.C., o nascimento dele. 16-11-00 A.C., o meu.
Fiquei olhando em silêncio.
Porra, eu não estava preparada para aquilo.
Não era apenas uma joia bonita. Taishou havia guardado uma relíquia ancestral, um artefato ligado a eras esquecidas, carregando histórias mais antigas do que a própria Ecliptica. Uma peça de prata associada aos templos de Selene, às ruínas da Grécia antiga e aos mistérios que os mortais provavelmente prefeririam não cutucar. E ele estava colocando aquela coisa no meu pescoço como quem entrega uma parte de si.
O filho da puta sabia ser romântico. O que era extremamente inconveniente para a minha saúde emocional.
"Você me marcou com esta coleira...", disse ele, levando uma das mãos ao próprio pescoço, onde o pingente de prata trazia o meu nome.
Olhei para a peça que ele usava e depois para a minha.
"E eu marquei você com este pingente."
Apertei o objeto entre os dedos. Meu peito ficou apertado de um jeito que não tinha nada a ver com o peso do metal. Era um vínculo. Uma promessa. Um gesto de reciprocidade entre duas existências que, por razões bastante questionáveis, haviam decidido pertencer uma à outra apesar de todas as contradições entre Criadora e criação.
Taishou se aproximou, inclinando a cabeça até os lábios roçarem os meus com delicadeza.
"Criadora...", murmurou. "Agora estamos ligados. Para sempre."
E pronto. Eu estava emocionalmente fodida.
Você aí, leitor, pode rir. Pode fazer piada. Pode fingir que não acredita em romance sobrenatural. Mas experimente receber um presente de um homem que atravessou milênios, encontrou uma relíquia divina e decidiu transformá-la em símbolo do vínculo entre vocês. Quero ver manter a pose de pessoa equilibrada depois disso. Embora, convenhamos, equilíbrio emocional nunca tenha sido meu departamento. Eu sou a mulher que cria universos inteiros e depois coloca os próprios personagens em situações capazes de fazer um terapeuta pedir férias. Não sou exatamente um modelo de estabilidade.
O pingente não era uma simples lembrança. Era uma peça forjada antes do tempo, um símbolo que unia o poder de quem cria à existência de quem é criado. O círculo branco e o ponto negro representavam o olhar que observa, a dualidade entre o observador e o observado, enquanto as asas pareciam guardar um segredo que nem os deuses haviam conseguido enterrar completamente. No verso, nossas datas selavam aquela ligação improvável.
Taishou havia me entregado eternidade em prata.
E eu, em minha infinita capacidade de transformar sentimentos profundos em problemas narrativos, havia aceitado sem imaginar o tamanho da encrenca.
A memória começou a perder as cores. A Torre da União se dissolveu na névoa do sonho, e a figura de Taishou ficou distante, como uma fotografia afundando em água prateada.
Então senti alguma coisa.
Um calor no peito.
A princípio, pensei que fosse apenas a continuação do sonho. Talvez uma daquelas sensações estranhas que aparecem quando estamos dormindo e o cérebro resolve brincar de diretor de cinema experimental. Mas o calor aumentou. O pingente começou a brilhar.
E foi nesse momento que, em algum lugar dentro da minha cabeça, uma luz de emergência imaginária acendeu.
"Ah, não. Não, não, não. Nem fudendo."
Acordei de repente, levando a mão ao pescoço.
O quarto estava escuro, exceto pela luz prateada que escapava do pingente. A joia parecia ter engolido um pedaço da lua e agora estava tentando assar minha clavícula por dentro.
"Caralho! Que porra é essa?"
Sentei na cama, puxando o colar para longe da pele. O metal estava quente. Não morno. Quente mesmo. E brilhava como um objeto mágico prestes a desbloquear uma habilidade secreta depois de um ano inteiro de espera.
Olhei para ele. Depois para o teto. Depois novamente para ele.
"Escuta aqui, Satanás de bijuteria. Eu não tenho dinheiro nem disposição para lidar com maldição ancestral às três da manhã."
O brilho pulsou. Uma vez. Duas. Na terceira, o mundo desapareceu.
Não fisicamente. Pelo menos, acho que não. Eu ainda sentia o colchão debaixo de mim, o cobertor embolado entre as pernas e aquela irritante necessidade de voltar a dormir. Entretanto, imagens começaram a surgir diante dos meus olhos, rápidas demais para que eu pudesse compreendê-las.
Um corredor de Ecliptica. Uma porta batendo com violência. O rosto de Caleb inclinado sobre uma mesa coberta de mapas, os olhos cansados e os dedos pressionando as têmporas como se o peso de suas responsabilidades estivesse tentando esmagar seu crânio. A imagem sumiu.
Outra apareceu. Makoto, tenso, com os punhos cerrados e uma expressão que sugeria que alguém estava prestes a descobrir, da pior maneira possível, o quanto era desagradável provocar aquele homem. A imagem sumiu também.
Vi uma lâmina refletindo uma luz vermelha. Uma mão tremendo. Uma sombra se movendo depressa demais por um corredor. Ouvi um grito abafado, depois uma voz carregada de raiva, seguida por um silêncio que pareceu durar uma eternidade.
Em outra visão, Natsume estava furiosa. Não aquela irritação cotidiana de quem acorda de mau humor, mas uma fúria tão intensa que parecia prestes a incendiar tudo ao redor.
Então veio uma imagem completamente diferente. Alguém chorava sozinho. Eu não consegui identificar o rosto. Só percebi a dor, a solidão e aquela sensação horrível de que a pessoa precisava de alguma coisa que não sabia como pedir.
Minha respiração ficou presa.
"Que porra foi essa?"
As imagens continuaram chegando em fragmentos, como se alguém estivesse trocando canais de televisão com o controle remoto quebrado. Rostos conhecidos. Lugares de Ecliptica. Emoções intensas demais. Medo, frustração, raiva, desespero. E, de algum modo absurdo, eu sentia tudo aquilo sem estar presente em lugar nenhum.
Não eram lembranças minhas.
Eram deles.
Meus personagens.
Minhas criações.
A compreensão tentou surgir, mas meu cérebro, esse funcionário público da desgraça, aparentemente ainda estava em horário de expediente reduzido.
Olhei para o pingente, que continuava brilhando contra minha mão.
"Não."
Ele pulsou novamente.
"Não mesmo."
Mais uma imagem apareceu, tão rápida que eu mal consegui distinguir os detalhes.
"Ah, pelo amor de Deus! Eu não vou começar a juntar Cartas Clow, tá me ouvindo? Não vou sair por aí com um báculo mágico, um bichinho falante e uma roupa ridícula tentando capturar símbolos voadores. Eu não sou a Sakura Card Captors, caralho!"
Parei. Pensei por dois segundos.
"Embora, pensando bem, um bichinho falante talvez fosse útil. Desde que soubesse pagar boletos."
O pingente brilhou mais forte.
"Não incentive essa merda."
A luz diminuiu, mas não desapareceu completamente. As imagens cessaram por um instante, deixando apenas uma sensação estranha no centro do meu peito. Era como se houvesse fios invisíveis saindo daquela joia, atravessando distâncias impossíveis e se conectando a pessoas que eu conhecia melhor do que gostaria de admitir.
Pessoas que existiam em um mundo que eu mesma havia criado. Pessoas que sofriam, amavam, erravam, se enfureciam e tomavam decisões questionáveis com uma competência invejável. E, aparentemente, agora eu podia enxergar alguns desses momentos. Talvez até interferir neles.
Essa última possibilidade deveria ter me deixado maravilhada. Afinal, eu era a Criadora. A entidade responsável por aquele universo. A mulher que escrevia destinos e construía realidades inteiras com palavras. Em vez disso, minha reação foi encarar o colar como se ele tivesse acabado de me entregar uma conta de cartão de crédito no valor de cinquenta mil reais.
"Ah, maravilha. Absolutamente maravilhoso. Agora tenho acesso às crises emocionais de setenta e tantos personagens em tempo real. Era exatamente o que faltava na minha vida. Mais responsabilidade. Mais sofrimento. Mais gente fazendo merda e esperando que eu resolva."
Passei as mãos pelo rosto.
"Eu deveria ter pedido chocolate."
O problema era que, por trás das piadas, alguma coisa dentro de mim havia reconhecido aquelas imagens. Uma parte que não precisava de explicações para saber que não eram apenas sonhos malucos. O colar estava reagindo a alguma coisa. Um ano depois de Taishou ter colocado aquela joia no meu pescoço, algo havia despertado. E eu não tinha a menor ideia do que era.
O brilho enfraqueceu. Minhas pálpebras ficaram pesadas, e a exaustão começou a vencer a curiosidade. Meu cérebro ofereceu uma hipótese reconfortante: talvez fosse apenas um sonho estranho. Talvez eu estivesse cansada. Talvez tivesse comido alguma coisa duvidosa antes de dormir. Era uma explicação idiota, mas tinha a grande vantagem de não exigir que eu fizesse absolutamente nada.
Deitei novamente, puxando o cobertor até o queixo.
"Tá bom. Amanhã eu penso nisso."
Fechei os olhos.
"Se alguém estiver morrendo, chorando ou prestes a cometer uma atrocidade, que preencha um formulário e aguarde o próximo dia útil."
O pingente deu uma última pulsada contra meu peito.
Ignorei.
Virei para o lado e afundei o rosto no travesseiro.
"Boa noite, Ecliptica. Vão todos se foder com carinho."
E voltei a dormir, convencida de que havia acabado de ter uma das alucinações mais elaboradas da minha existência.
Eu ainda não sabia que o colar não estava simplesmente me mostrando imagens aleatórias. Ele estava me conectando aos meus personagens. Principalmente àqueles que mais precisavam de mim. Aos que estavam com medo, sofrendo em silêncio, perdendo o controle, enfrentando escolhas impossíveis ou prestes a fazer alguma merda tão monumental que nem três mil anos de experiência sobrenatural seriam suficientes para consertá-la.
Eu ainda não sabia que poderia enxergar suas crises, sentir seus chamados e, quando aprendesse a controlar aquele poder, intervir diretamente em suas vidas.
Naquela noite, eu só sabia de três coisas.
Meu pescoço estava quente. Minha cabeça estava uma bagunça. E Taishou Seiji, aquele desgraçado romântico, tinha me dado um presente sem manual de instruções.
Parabéns para mim. Ganhei um vínculo divino e desbloqueei o serviço de atendimento ao cliente de Ecliptica. Funcionamento vinte e quatro horas, sem salário, sem férias e com grande risco de danos psicológicos.
Puta que pariu.
Eu ia precisar de muito café.
