Olá, almas que vagam pelo meu mundo. Me chamo Bella, e vim contar a noite que desfiz os fios da minha própria calma.
Venho de uma família cercada por ouro e regras; meu pai, Carlisle, é o diretor de uma das empresas mais poderosas de São Paulo. Eu sou a filha que escolheu as palavras no lugar dos negócios, e por isso ele vê em mim um futuro vazio — só porque não segui o caminho que ele havia desenhado para mim. Um riso amargo me escapa, nervoso e sem alegria.
Mas isso não foi o que me quebrou. Tudo começou naquela noite, quando eu e o meu primo Jasper decidimos fugir por algumas horas até uma balada.
Eu usava um vestido preto tubinho, de decote coração, que abraçava cada curva do meu corpo, uma sandália de strass de salto médio e uma maquiagem discreta, que escondia o fogo que eu carregava por dentro. Jasper vinha ao meu lado, com uma camisa cinza que revelava os seus músculos e uma calça cinza‑escuro que desenhava as suas pernas torneadas. A luz neon cortava o ar enquanto entramos e fomos até o bar.
Já tínhamos bebido um pouco em casa, os dois, antes de chegar. De repente, uma mulher se aproximou e não parou de se jogar para cima dele. Eu não tinha mais paciência. Deixei a minha bebida sobre a mesa e fui até ela. O álcool já turvava os meus sentidos; eu não me importava com consequências. Puxei o cabelo dela, bati no seu rosto e a empurrei com toda a minha força contra uma mesa, que se despedaçou no impacto.
O segurança nos mandou sair. E para o nosso azar, o meu tio — o dono da balada — ligou para o meu pai. Quando ele soube de tudo, a sua raiva caiu sobre mim como uma sombra pesada. Me colocou de castigo. Você deve se perguntar como uma mulher adulta ainda pode receber um castigo. A resposta é simples: ainda estou no começo da minha carreira de escritora, e ainda dependo do seu dinheiro. Naquela noite, a minha liberdade ficou suspensa no ar, como uma vela prestes a se apagar.
Chegamos em casa, e o ar já estava carregado de tensão, denso como uma noite sem lua. Meu pai nos esperava, tomado por uma fúria silenciosa que logo explodiu em gritos. As palavras dele cortavam‑me a pele, como se fossem farpas afiadas.
Fiquei tomada por uma revolta que queimava no peito, mas não havia saída: eu ainda estava presa à sua proteção e ao seu dinheiro. Então, para que aquele castigo não pesasse só sobre mim, obriguei Jasper a segui‑me nessa punição. Como ele nunca tinha dito onde eu deveria cumprir a sentença, tomei o carro antes que o dia clareasse por completo e parti rumo à casa de campo, escondida nas montanhas de Campos do Jordão.
No caminho, deixamos o som do carro explodir. Cantamos, trocamos provocações e conversamos sem parar, tentando afastar, por algumas horas, a sombra que nos perseguia.
Paramos na estrada para almoçar, em um pequeno restaurante que já conhecíamos há muito tempo. Comemos um strogonoff, mas nenhum sabor conseguia apagar o frio que eu sentia no peito.
Quando chegamos à casa de campo, vi nos olhos dos empregados o susto da nossa chegada inesperada. Pedi que preparassem um único quarto para nós dois.
Notei o seu olhar de espanto: nunca havíamos compartilhado um mesmo espaço para dormir. Mas eu já não me importava com os julgamentos, nem com a decepção do meu pai. Só queria ficar longe do seu olhar, aquele olhar que me fazia sentir pequena todas as vezes que ele me via.
Fui até o meu closet que guardava ali roupas de banho e alguns vestidos. Arrastei Jasper pela mão para dentro. Joguei‑lhe um calção de banho; naquele momento, só queria fugir do peso de tudo aquilo, mergulhando na piscina ao seu lado.
Escolhi um biquíni vermelho, com pedrinhas de búzios e decote coração. A parte de baixo era pequena, carregada de uma ousadia que eu não tentava esconder. Jasper vestiu o calção preto, que desenhava as linhas do seu corpo sob a luz fraca do quarto. O silêncio caiu entre nós, pesado e cheio de algo que ainda não ousávamos nomear.

