E ela correu atrás do natal. Convenceu-lhes a comprar uma árvore, escolheu as melhores coisas, para que fosse a mais bonita, mas eles estavam preocupados com o quanto ela custaria, e, mesmo comprando-a, continuavam a reclamar do preço. Não se deixou abater, pensando em como seria quando montassem a árvore, juntos como em todos os anos. E, no entanto, teve que convencê-los a fazê-lo, e fizeram, mas tinham aquela expressão de derrota no rosto, tinham sorrisos, mas não tentavam parecer entusiasmados.
E ela enfeitou a casa. Teve que convencê-los a ajuda-la novamente. Iluminou-a, e satisfeita por seu trabalho, sentiu esperança. Viu todas aquelas luzes que sempre lhe foram sinônimo de alegria, por que não seriam mais? Sorriu.
E ela convenceu-lhes a fazer a ceia. Mais uma vez, só sabiam reclamar do quanto sairia caro, de como seria mais prático o típico pão com mortadela. Mas compraram. E ela pediu ajuda para fazer, e, com os mesmos sorrisos falsos e a má vontade eles ajudaram. Sentiu-se só não pela primeira vez na semana.
E a meia noite bateu. Brindaram sem entusiasmo, apenas com broxantes ‘feliz natal’, os mesmos sorrisos falsos. Se abraçaram. Não houve troca de presentes. Não houve presentes, aliás. Apenas palavras e sorrisos vazios. Não soltaram fogos, não assistiram aos fogos. Foram dormir.
E, ainda com esperanças, o dia vinte e cinco finalmente chegou. Talvez ela esperasse algo diferente, que o fizesse especial, no entanto, ninguém mais nem tinha seu sorriso falso no rosto. Agiam como se em um dia normal, reclamavam de ter que terminar de comer a ceia no almoço. E ela, mesmo rodeada de pessoas, se sentiu sozinha. Não queria parecer mimada; não queria incomodar, então colocou sua máscara. A mesma que usavam. Se eles diziam ‘feliz natal’ com os sorrisos tão vazios, ela poderia utilizá-los para dizer que era um bom natal.
E, ela guardou as esperanças até o fim, mas tudo o que fizeram na data fora normal. “Faça isso” ou “não faça aquilo”, tudo o que ela fazia ou não parecia errado, e eles só conseguiam reclamar disso. Reclamavam de tudo, desde as propagandas de natal que não haviam sido tiradas até o que ela fazia ou não. Mas ela ainda tinha esperanças de de um feliz natal.
Mas ela havia crescido. Quando não se é mais criança, não há necessidade de fingir estar se divertindo em um dia tão banal. Ela descobriu que a magia era apenas mais um truque. Que tudo o que ela pensara sobre a data era mentira. E todos pareciam sussurrar-lhe ‘feliz natal’ quando ela queria apenas gritar que aquilo era qualquer coisa, menos um dia feliz.
Percebeu tarde demasiado que fizera o natal sozinha. Que se sentiria melhor se não houvesse o teatrinho de falsa felicidade e magia, porque isso não existia. Que depois que param de se importar com se você acredita em Papai Noel ou não, pouco se importam em fazer com que você vire apenas mais um naquele baile de máscaras. Sozinha, deixou-se chorar.

