Estou com muita vontade de compartilhar parte da minha história com o maior número de pessoas possíveis. De fato, a aventura que vivi e contarei aqui foi talvez a melhor coisa que já me aconteceu. Descobri, no fim das contas, que viver é estar em constante aprendizado. Aprender não só sobre o mundo, outras pessoas ou lugares, mas também, e principalmente, aprender sobre si mesmo. Esse processo envolve decifrar aspectos da minha pessoa que talvez eu estivesse escondendo de mim (ou até mesmo me negando a percebê-los).
Por fim, compreender que a vida pode ser muito mais, e melhor, do que aparenta é essencial para que histórias assim tenham existido. Poder viver sem medo do acaso é a maior alegria que este pode oferecer, até porque viver uma vida linear e muito bem definida, sem surpresas que te alterem enquanto pessoa, é sim simples, mas talvez não engrandecedora. Enfim, acho que se não tivesse me entregado ao acaso, ou ao destino, não sei bem o que foi, quase nada dessa história teria acontecido. Não, não acho, tenho certeza disso.
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Há algum tempo eu comecei um canal de gameplay no Youtube, canal que, em poucos meses, já havia alcançado a marca de 10 mil inscritos, algo que me deixava muito orgulhoso e satisfeito pelo público que tinha. Esse número, inclusive, tornava possível que fosse solicitado credenciais para algumas feiras de games como, por exemplo, a BGS (Brasil Game Show) sendo nada mais nada menos que a maior feira de games da América Latina.
“Eu” sou Lucas. Me considero uma pessoa divertida, mas também um tanto introspectiva e sem muitos amigos. Ah, tenho 17 anos e estava prestes a entrar na universidade quando acabei decidindo me dedicar apenas ao YouTube. Dizem, principalmente os meus pais, que foi uma decisão consideravelmente ousada, e eu sei bem disso. Acontece que esse meu antigo hobby agora é algo que vejo com outros olhos e desejo muito poder trabalhar com. Poder produzir, através da minha diversão jogando, um conteúdo bom que as pessoas gostem e assistam é realmente gratificante.
Como fico na maior parte do tempo no meu quarto analisando o que trazer para o canal, gravando vídeos e editando, eu acabei aprendendo bem a conviver na solidão desse meu cômodo. Passo a maior parte do dia sozinho em casa, mesmo teoricamente não morando só. Isso porque moro com meus pais, só que eles costumam ir trabalhar cedo e voltar consideravelmente tarde. A minha interação com eles se resume basicamente a um abraço e uma breve conversa quando chegam do trabalho, assim como o “boa noite” quando eles se deitam, já que eles vão dormir bem mais cedo que eu.
Mesmo não sabendo muito bem sobre o trabalho que eu havia escolhido para mim, eles me apoiam bastante, principalmente comprando alguns equipamentos e outras coisas que eu peço para melhorar a qualidade dos meus vídeos. Todavia, dá pra notar que eles têm algum receio de que essa profissão não vai dar conta de me proporcionar um retorno financeiro tão alto. Não ligo muito para esse retorno, mas entendo que aquele dinheiro que eles “investem” nisso, assim como todo o tempo que acabo gastando para manter tudo em ordem no canal é algo complicado de manter sem algum sustento.
Enfim, apesar de ser um pouco sozinho não sou solteiro. Andressa, minha namorada, tem 18 anos, mas devo ter conhecido-a quando tínhamos uns dez. Ela estudava no mesmo colégio que eu, na mesma sala, e estudamos juntos até o fim do ensino médio. Aliás, foi no último ano do ensino médio que a pedi em namoro, apesar de que, por conta da vergonha e do medo da rejeição, não sabia ao certo se conseguiria pedir. Ainda bem que deu tudo certo.
Sempre fomos muito amigos e alguns anos depois ela acabou se tornando a pessoa mais próxima a mim. Andressa conversava comigo sobre os meninos que estavam a fim dela e eu a ouvia e aconselhava. Sempre fui um bom ouvinte e sou ótimo em compreender as outras pessoas e sentir empatia por elas. Porém, não era apenas isso, ela também me ajudava com minhas questões acerca da minha baixa sociabilidade, além de me dar algum apoio nas matérias que eu tinha alguma dificuldade. Inteligência nunca foi algo que faltou nela, tanto que agora ela cursa engenharia civil na universidade federal e entrou como uma das melhores colocadas (creio que tenha tido a quarta melhor média).
Contudo, ela não era apenas inteligente. Com seus belos cabelos de fogo, sua doce simpatia e voz angelical, ela conseguia atrair praticamente qualquer pessoa, mesmo que não fosse sua real intenção. De certo modo, isso é algo que sempre me incomodou, mas sei que enquanto seu namorado, confiar nela é essencial. Penso que pelo fato de confiar na Andressa tendo a não ter e demonstrar muito ciúme, diferentemente dela comigo. Mesmo não chamando muita atenção, a pouca que consigo atrair para mim já é motivo de olhares tortos dela. Confesso que acho um tanto fofo, porém entendo que há uma linha tênue entre achar fofo e ser problemático.
Em um dia normal, depois de nos encontrarmos, volto para casa, ligo o computador e noto que a BGS vai acontecer daqui a dois dias, em São Paulo. Moro em Porto Alegre e nunca havia ido para qualquer evento do tipo, então penso seriamente em ir:
—Seria uma ótima oportunidade para encontrar alguns inscritos e amigos meus – analiso em voz alta.
Esses amigos também são youtubers que, por morarem em vários lugares pelo Brasil, não tive a chance de vê-los ainda.
Animado para tudo isso, entro logo no site da companhia aérea para comprar minha passagem. “Será que levo a Andressa comigo?”, me questiono.
Ligo para ela, mas a mesma, com sua delicadeza característica, me diz que vai ter um mês longo e com vários trabalhos e provas na faculdade. Por conta disso, acabo comprando apenas a minha passagem.
Compro o bilhete logo para o dia seguinte, tendo pouco tempo para arrumar tudo e descansar um pouco. Coloco algumas roupas, itens de higiene pessoal e determinados equipamentos pro caso de querer gravar alguma coisa lá. Por fim, organizo milimetricamente tudo isso dentro de uma mala que nunca tinha usado até então por não ter necessidade de tanto espaço nas minhas viagens passadas.
Não demoro tanto nesse processo, até porque só a ideia de ir viajar em breve já me entusiasmava e deixava esses preparativos tranquilos e rápidos de se organizar. Na verdade, o problema pra mim sempre foi o desfazer as malas, preguiça para isso é o que eu tenho de sobra.
Ao terminar, tento dormir, mas em vão. Viro de um lado para o outro durante horas tentando achar a posição mais confortável possível. Apesar de pensar que a questão era achar essa posição, a real é que estou muito ansioso e sem saber como será esse evento, como ele me impactará e como será essa experiência para minha vida. Refletindo sobre tudo, acabei passando a noite em claro. Quando, enfim, durmo, acordo pouco tempo depois com a “ajuda” pontual do meu despertador anunciando que, se eu quisesse chegar em bom horário, teria que começar a me arrumar logo.
Perto do fim da arrumação chamo um táxi para me levar até o aeroporto da cidade. Enquanto ele não chega ligo para Andressa avisando que já estava indo para lá. Ela atende:
— Tudo bem, amor, não se esquece que eu te amo muito, tá? E não inventa de dar bola pra qualquer interesseira que der em cima de ti. — Diz minha namorada enquanto confiro se peguei tudo
— Hahaha, até parece… Pode ficar tranquila, amor, você sabe que eu te amo mais do que tudo nessa vida. — Respondi já abrindo a porta de casa, o táxi estava prestes a chegar.
— Beijo, vai me dando notícias de lá quando puder.
Respondo com um “ok”, devolvo o beijo e vou em direção ao táxi. Entro e fico calado durante toda a corrida, totalmente apreensivo diante da viagem que logo farei.
Chegando no aeroporto, pago o motorista do táxi, que deveria ter uns 60 anos, e vou fazer logo o meu check in. Nunca tinha viajado de avião antes, seria mais uma das experiências que esse evento me faria viver.
A ansiedade acabou me levando ao nervosismo sem motivos compreensíveis. Despacho normalmente minha mala, mas ainda não estava na hora de embarcar. Teria que esperar algum tempo até poder enfim embarcar no avião em direção a cidade mais populosa do Brasil.
Sento, então, em uma das primeiras cadeiras que avisto, conecto ao Wi-Fi daquele local e vou observar o que havia de bom no YouTube nesses últimos dois dias. Minha vida nesses dias tinha sido muito corrida, não pude ficar à toa explorando a plataforma que trabalho.
Escolho um vídeo e começo a assistir até que, de repente, um menino chega e senta a uma cadeira de distância de mim, mesmo com o aeroporto consideravelmente vazio. Acabo não dando muita atenção a ele, sequer tinha desviado o olhar para reparar direito no garoto. Acontece que estava muito concentrado assistindo a um vídeo de um youtuber que gosto muito e que havia postado um novo vídeo que ainda não tinha conseguido ver.
O vídeo era muito engraçado, então começo a me controlar para não rir no meio do aeroporto e para as pessoas, principalmente o rapaz, não perceberem. Tentativa essa que falhou quando sem querer solto uma gargalhada que, mesmo contida, chamou a atenção dele.
Pensei que o menino ia ignorar, mas ele olha a tela do meu celular e diz:
— Esse vídeo é muito foda.
— É sim, ele é engraçado demais… eu adoro ele. — Estávamos falando sobre o Luba.
— Eu também. — Confessava o rapaz. — Ah, a propósito, meu nome é Rafael.

