“O peito ardia em dor cada vez que ele olhava para a fotografia. Mesmo com todo o ar possível circulando pelo cômodo, o garoto não conseguia respirar.
Os pais eternizados naquela fotografia lhe remetiam a dor daquela noite. "É só mais uma noite, como qualquer outra'' ,ele pensava.
Naquele período a sensação de solidão era desesperadora e com isso seu autocontrole ruiu. Ele se odiava por chorar, por ainda estar tão preso ao seu passado, por não saber lidar com a solidão e controlar seus sentimentos. Ele não conseguia ajudar a si mesmo e não tinha quem o fizesse, então, sem alternativa, ele desmoronava sozinho ali, como todas as outras noites."
― Sasuke-kun? ― A mão delicada de Sakura tocou o seu braço, o trazendo de volta à realidade. ― Deixe-me ajustar a sua gravata. — Ele abriu espaço entre as pernas para que ela viesse mais perto na beira da cama. — O que foi, querido?
— Não é nada. — ela aconchegou o rosto do marido entre as mãos. Ela sabia o que poderia ser, o conhecia melhor do que qualquer um. — Estou bem, só pensando.
Não há mais o que pensar sobre isso, ele pensou. A sua família não existia mais, mas da mesma forma que ele nunca deixaria de sentir que tinha perdido algo precioso e insubstituível, Sakura sabia que ele inevitavelmente se lembraria dos vínculos do seu passado nesta data. O natal era uma data importante para ele, depois de perder a família tudo perdeu o significado. A falta deles sempre foi muito dolorosa naquela época.
— Você pensa demais, meu amor. — Ele assentiu. — Sei que hoje isso traz lembranças ruins, mas tenho certeza que também consegue se lembrar das coisas boas. Certo?
— Certo…
Ele certamente tinha. Se lembrou com clareza de quando Itachi estava em casa nesse período, ele não desgrudava dele um minuto sequer, eles enchiam a casa de enfeites e passavam o dia todo juntos. Sem treinos, sem aquela pressão de se igualar a ele, eram só os dois sendo irmãos. Ele sentia falta de cada momento que conseguia lembrar.
O natal teve significado outra vez quando Sasuke se casou com Sakura.Voltar para casa e encontrar Sakura e sua filha Sarada era o que ele mais desejava. Ele também tinha memórias com as duas, todas elas lhe traziam conforto agora.
Neste ano Sarada sugeriu que comemorassem a data com as pessoas importantes mais próximas da família. Naturalmente isso o deixava inquieto, já que sempre fora muito reservado e interação social não era o seu forte, mas guardou suas inquietações para si mesmo. Sarada o convenceu sem muito esforço, ele faria o que quer que fosse se isso a deixasse feliz.
Naruto e sua família estavam lá, Kakashi, as amigas de Sakura e os amigos e o sensei de Sarada, todos aproveitando a companhia uns dos outros na sala de estar. O casal Uchiha, no entanto, ainda estava no quarto do andar de cima.
— Preciso mesmo da gravata?
― Hoje, sim. ― Ela sorriu, terminando de ajustá-la no colarinho do terno preto. ― Está incrível, Sasuke-kun!
Como sempre, ela sabia o que fazia e o preto sempre lhe caia bem.
Ela o deixou ali e voltou a ajustar os seus brincos diante do espelho. A silhueta da esposa foi seu foco por minutos a fio. O vestido justo e dourado ia até os joelhos modelando as curvas que ele conhecia bem. O par de brincos e maquiagem delicada realçaram ainda mais a beleza dela, mas faltava algo.
Sem que ela notasse, retirou da gaveta ao lado da cama a caixa fina de veludo preto e chegando por trás dela, puxou os fios rosados dos ombros para o lado. Os olhos verdes brilharam quando a gargantilha fina, dourada e delicada envolveu o seu pescoço. Ela se virou para ele, deixando-o ver mais de perto o presente tão brilhante quanto o sorriso em seu rosto, levemente rosado.
― Querido…
― Você está linda. ― O coração de Sakura se aqueceu ainda mais com aquele sorriso singelo e a mão de seu marido entrelaçando-se com a sua.
A batida na porta os distraiu e Sarada apareceu entre a brecha.
― Já está na hora!
A sacada da residência Uchiha estava cheia. Todos acompanharam a contagem regressiva e ao final dela, as felicitações acaloradas preencheram a casa e a chuva de fogos se espalhou no céu de Konoha.
Quando Sarada se aproximou, Sakura a puxou para um abraço e Sasuke as cercou. Ali, mais uma vez, ele se sentiu grato por tudo que tinha, pelo amor de sua esposa e de sua filha, a continuidade desse amor. Ao olhar para o céu salpicado de luzes coloridas, ele fechou os olhos.
Depois de tudo o que aconteceu, ele pouco tinha a pedir que não fosse clemência por seus atos. Tinha alcançado seu objetivo maior e sentiu-se completamente vazio após tê-lo alçando. Ele era apenas uma existência vagando para qualquer lugar, mas durante seu período de redenção, ele compreendeu a si mesmo e olhando para o céu repleto de estrelas, pediu que qualquer resquício da dor da perda o deixasse e também que se houvesse alguém que pudesse amá-lo, mesmo com todas as suas falhas, mesmo depois de tudo o que tinha feito, ele gostaria de ser a pessoa a quem aquele amor seria direcionado.
Hoje, ele tinha tudo o que desejou bem ali nos seus braços.
― Feliz natal, papai! ― Sarada, abraçada a ele, sorriu enquanto uma das mãos de Sasuke carinhosamente alisou os seus cabelos.
― Feliz natal, Sarada…
A filha deixou o abraço dos pais e animada seguiu até onde o seu time estava.
Os dedos do casal Uchiha se entrelaçaram mais uma vez e então um delicado beijo selou aquele momento almejado demais por eles. Quando se separaram, Sasuke a envolveu em um abraço, desejando que ela pudesse sentir todo o seu amor e sua gratidão.
— Obrigada, Sakura, por tudo…
― Feliz natal, querido…

