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Deserto em Tua Voz

lolat

Deserto em Tua Voz
Capítulo 13 min de leitura

Deserto em tua voz

- Então... – disse ele em uma voz fraca. Soava quase infantil quando falava daquele jeito. Mas não completou a frase.

Brendon nunca imaginara que a cena transcorreria daquela forma. Esperara que o outro gritasse, insultasse-o, chorasse, saísse correndo e batesse a porta, como sempre fazia quando os dois discutiam. Mas ainda aguardava, enquanto observava o corpo seminu, enrolado no lençol, sereno. Sentiu de repente como se seu corpo se houvesse tornado árido por dentro. Ele, Brendon, era um deserto. Não fazia sentido machucar alguém novamente.

O garoto louro sentiu uma mão tocar seus cabelos, timidamente. Puxou o lençol para mais perto de si, em um estremecimento. Cerrou os olhos, aproveitando aquele instante. Não era a primeira vez que trocavam aquelas palavras, mas sabia que naquele momento seu significado era diferente. Ainda assim, respirou profundamente e disse:

- Você não é um cara bom com as palavras? Não é isso em que você trabalha o tempo todo?

Brendon hesitou, retirando a mão dos macios fios dos cabelos dele. Deveria continuar? Ryan permaneceu a falar, no mesmo tom mórbido, sobre todas as perguntas que não conseguia calar em seu peito.

- Então, por que você está calado? Você escreve tantas coisas bonitas. Não mereço também umas poucas palavras? Você não sabe quanto esforço estou tendo que fazer para não abraçá-lo.

Sentia as lágrimas embaçarem seus olhos. Calou-se. Deixou que o líquido escorresse por sua face, tingindo círculos cinzentos no travesseiro.

Quando a mão fria do outro tocou seu braço, segurou-a na sua, pressionando-a contra a pele e conduzindo-a através de seu corpo, pousando por fim os dedos sobre o contorno de seu próprio rosto. Acompanhou a carícia que Brendon lhe fez.

Brendon beijou seus lábios úmidos de lágrimas e ambos se abraçaram, trêmulos como em uma primeira vez. Um recomeço. Não errariam de novo. Ele, Ryan, não erraria de novo.

Mas houve apenas o vazio, o cheiro de fumaça dum cigarro recém-aceso e um pedido de desculpas.

Ryan levantou-se, em silêncio. Vestiu-se, juntou o pouco que era seu e deixou o apartamento, sem dizer adeus.

Era ruim demais com despedidas. Com a mão trêmula, apertou o botão do elevador. Encostou a cabeça na parede, deixando que o choro escorresse por seu pescoço e lhe umedecesse cabelos. Queria gritar. Queria voltar de qualquer jeito.

Mas não fez mais nada. Havia amor em apenas um lado da cama. Não havia nada que pudesse fazer.