Contos de uma noite de Inverno.
A thousand sides
Sua respiração estava calma e seu cenho relaxado. Ela dormia o sono dos justos depois de três noites sem conseguir dormir por estar estudando para sua prova de Linguística III naquela semana. Já se passavam das quatro horas da tarde da terça-feira, único dia da semana que Charlie não tinha aulas pela tarde, e seus olhos se mantinha fechados dormindo como uma criança que não dormia há anos. Seu sono maravilhoso fora interrompido pela voz infantil da Princesa Anna em seu toque de celular. Esticou a mão e tateou o criado mudo até achar o maldito aparelho que lhe atrapalhara.
– Alô. – Atendeu com uma voz ainda sonolenta. – Oi irmã. Sim, eu vou. Ah é? Ah ótimo. Ok. Até daqui a pouco. Não, não... pode deixar que eu já vou levantar. Até. – Se despediu.
Muito contrariada, Charlotte virou-se de barriga para cima largando o celular em cima da cama, levou ambas as mãos até o rosto e esfregou-o de leve tentando acordar e se acostumar com a claridade do quarto. Encheu os pulmões de ar e soltou-os logo em seguida em um suspiro pesado. Que preguiça. Comentou mentalmente enquanto se levantava e ia em direção ao banheiro. Não demorou muito no banheiro, apenas tomou um bom banho para acordar e vestiu seu roupão felpudo branco indo em direção ao closet escolher uma roupa decente.
Cinema com a irmã. Faculdade. Alta probabilidade de encontrar alguém conhecido. Preciso de uma roupa decente. Raciocinou enquanto adentrava o pequeno local repleto de roupas organizadas e sapatos separados por cor e estilo. Soltou, novamente, um longo suspiro e pegou um vestidinho off-white soltinho com uma leve prensa na cintura e bolinhas escuras bem pequenas e escassas. Para complementar, vestiu uma jaqueta jeans escura e uma bota de couro preta de cano e saltos altos. Fez uma maquiagem leve, deixou os cabelos morenos soltos, lisos com alguns cachos na ponta e ajeitou sua franjinha que cobria toda a sua testa e boa parte de sua sobrancelha. Convocou sua bolsa com um aceno simples com a mão e com outro, arrumou a cama, em seguida saiu de encontro com a sua irmã mais nova. (...)
- Hello little sistá. – Cumprimentou forçando o sotaque britânico.
- Hey big sistá. – Respondeu a menor rindo.
- Já disse para não me chamar de Big, eu me sinto gorda assim. – Arqueou a sobrancelha franzindo o cenho logo em seguida. Seus olhos percorreram toda a recepção do cinema a procura de alguém conhecido, afinal, não pegaria nada bem no dia seguinte escutar que era antipática e mal-educada por não ter falado com alguém. Já era perdida o bastante para passar e não ver as pessoas. – Já comprou os ingressos?
- Já sim. Temos alguns minutos antes da sessão. – Comentou já se encaminhando para a bombienére do cinema. Parada obrigatória para as duas.
Não demorou muito para que ambas comprassem o que tinha de ser comprado para uma sessão de cinema. Obviamente não faltou pipoca, refrigerante, muito menos algumas guloseimas que faziam questão de comprar para adoçar a boca durante o filme. O filme. Aquele filme que tinha tudo para ser muito bom já que sua professora de Linguística – apaixonada por artes – enchera o diretor de elogios e mais elogios. Como não tinha nada o que fazer e precisava espairecer um pouco da última semana, lá estava ela cruzando a porta do cinema junto de sua irmã.
- Sobre o que é mesmo o filme? – Indagou adentrando a sala em busca de um lugar.
- Segundo a senhora Pristles é sobre um acidente que ocorreu em um aniversário de onze anos onde a aniversariante se jogou da sacada do apartamento. A polícia investiga o acidente e não descarta a possibilidade de ter sido suicídio. – Explicou enquanto se ajeitavam em seus lugares.
- Well, here we go. – Comentou em um suspiro tentando escolher a cara de “wtf” com a sinopse.
A morena fitou a expressão da irmã e soltou um risinho enquanto dava de ombros. Logo a sala se escureceu e a grande tela diante das duas acendeu-se dando início aos trailers. Charlotte levou a mãos direita até o grande pacote de pipoca e notou que ela havia esfriado devido ao clima de polar nórtico em que estavam. Que droga, ela esfriou. Fez um biquinho e ao passar a mão por cima da pipoca uma luz vermelha emanou da palma da sua mão esquentando, magicamente, a comida.
- Desliga o celular, ow! – Ouviu alguém reclamar à algumas cadeiras de si. Apenas riu de leve.
(...)
