Sou o Anjo da Confiança. Aquele que gosta que as pessoas confiem umas nas outras, que admira quem merece a confiança e que tem o poder de fazer duas pessoas confiar irrefutavelmente uma na outra. Esta é a minha última missão no planeta – que os caminhos entre uma simples rapariga e um rapaz famoso se cruzassem e que a confiança entre os dois surgisse. Oh, como estou assustado! Tenho tanto medo de falhar…
Ella, a rapariga simples, não é muito bem aparentada, não que não seja bonita, mas é tão introvertida. Gostaria mesmo de conseguir ver um sorriso naquela cara a mostrar como é realmente formosa.
Finalmente acabara de comer e de lavar a louça que tinha utilizado. Verificou se estava tudo bem os seus cães e gato e subiu as escadas para ir dormir, uma vez que tinha que se levantar cedo no dia seguinte.
Pôs o despertador do telemóvel para mais cedo do que o costume e ligou o rádio, acabando por adormecer com o embalo da discografia dos Guano Apes e do cansaço do final do dia.
Ao acordar, a primeira coisa a fazer, após o pequeno-almoço, seria dirigir-se ao supermercado de modo a fazer as compras do mês para sua casa.
Perto da prateleira das bolachas, Ella estava já em bicos dos pés e ainda sem conseguir alcançar as suas bolachas preferidas, nem sequer com a ponta dos seus dedos. Foi nessa altura que o viu – um rapaz… Ou uma rapariga? Ela não tinha a certeza, essa pessoa estava longe, a única coisa que ela pôde observar era que ele ou ela estava claramente a dirigir-se para si. Era alguém com cabelos compridos… e castanhos.
E aqui estou eu, o seu Anjo que vai ajudá-la a ter a confiança de um amor.
Quando finalmente chegou perto de Ella, sem pedir permissão, o rapaz, como confirmou mais tarde, apenas tirou o pacote de bolachas pelo quanto ansiava e passou-os para as suas mãos.
— Obrigado. — Foi a única palavra de conseguiu dizer, ainda que de modo sussurrado, antes de ser perder nos seus olhos fascinantes… e verdes. Quem é que poderia ter uns olhos assim? Pareciam tão… límpidos. Antes que pudesse definir tudo o que aqueles olhos transmitiam e representavam, o rapaz virou as costas e foi-se embora.
Reconheci o rapaz de imediato, era famoso. Será adequado para Ella? Eu senti tão bem tudo o que ela sentiu ao olhar naqueles olhos. Senti-me a mergulhar num oceano com o mais doce sabor. Ela própria sentiu-se assim. Sentiu-se como se, de repente, a cor verde e a palavra maravilhoso tivessem um novo significado na sua vida, significado esse que se chamava…
— Espera! — Desta vez, Ella falou mais alto para ele ouvir. — Sou a Ella!
— Olá! Sou o Georg.
Quando deu por si perguntou-se porquê deixar escapar algo tão lindo, um monumento. E que monumento. Agora que ela olhava... O rapaz ficava bastante... atraente naquelas calças de fato de treino.
- Então? É assim que se tratam as pessoas? Ajuda-se e vira-se as costas sem dizer nada?
— Pois, desculpa.
Desde aqui, e com um pouco da minha ajuda, eles começaram a partilhar tudo como se fossem apenas um. Se Georg estava feliz, Ella também o estava. Se Ella estava triste, Georg sentia-se triste. Quanto a mim, estava feliz, agora tinha a certeza plena de que eles eram ideais um para o outro. Nestes últimos tempos eu já não mexo no sentimento de confiança deles, já passaram tanto tempo juntos que aprenderam a confiar plenamente um no outro. Agora é esperar que o amor nasça e que o Georg não a magoe.
Estavam todos a celebrar os prémios que a banda à qual Georg pertencia tinha ganho da melhor maneira: bebendo, rindo e partilhando as memórias e as sensações. O estado de alcoolismo de todos, à excepção do de Ella, já estava avançado.
— Pessoal, vou à casa de banho. Já volto. — Foram as palavras que saíram da boca de Georg.
Georg estava a demorar mais tempo do que o previsto, mas apenas Ella estava a dar por esse facto. Com medo que alguma coisa tivesse acontecido no caminho para a casa de banho decidiu procurar pelo rapaz dos cabelos compridos.
Não foi preciso perguntar se alguém tinha visto Georg, pois assim que olhou para um dos cantos do edifício viu-o com uma rapariga e ambos se beijavam sofregamente. Nesse mesmo instante, o sentimento de repulsa, ódio e amor que ela sentia aceleraram-lhe as batidas do coração e encheram os seus olhos de lágrimas, confundindo-a.
Estou com medo, muito medo mesmo. A partir do dia em que a confiança própria nasceu nos corações um do outro, estou proibido de mexer nos sentimentos deles. Todavia, não queria falhar na minha missão. Queria dar a Ella uma vida, um amor, uma confiança... Admito, estou com medo.
Georg separou a sua boca de a da rapariga e olhou em volta para se certificar de ninguém, especialmente Ella, tinha visto. No entanto, assim que o fez ficou estático – a primeira pessoa em que ele reparou tinha sido precisamente nela. Ella vira tudo, as suas expressões jamais o enganariam e, o desapontamento, era algo que se salientava no meio de tantas.
Dirigiu-se a Ella.
— Isto não é nada... Aquele beijo... Ela era uma fã que entrou sem saber como... E beijou-me antes de conseguir escapar... – Sussurrou.
— Não faz mal, a vida é tua Georg. Não me deves explicações.
— Mas eu sei que estás desapontada... Porquê?
— Porque eu pensava que o único sentimento que nutria por ti era apenas confiança aliada à nossa amizade... Mas quando te vi a... beijá-la... percebi que... não era apenas isso... Eu senti repulsa dela... Ódio... Ciúmes...
— Se não é apenas confiança aliada à amizade é o quê, Ella?
— Amor... – Foi a vez de Ella soprar as palavras tão baixo que Georg teve de se esforçar por ouvir.
— Tu amas-me? — No meio daquela conversa reveladora ele nunca esperaria isto da parte de Ella, que apenas olhava para ele de uma forma que não deixava quaisquer dúvidas quanto à reposta.
— Pequenina, eu também te amo... Só estava à espera da melhor altura para te dizer... Mas acho que o que viste agora não vai ajudar nada.
— Tu beijaste-a...
— Não, foi ela que me beijou, estou a dizer a verdade. Desculpa pelo que viste... Sempre confiaste em mim, não foi?
— Sim.
— Então confia no meu amor, por favor... — Os seus olhos verdes brilharam e Ella não pode dizer que não ao seu pedido, pois viu que ele estava a ser sincero, mas do que alguma vez fora.
Será que é agora?
Aproximou os seus lábios de Ella, dando-lhe um leve beijo e afastou-se. De seguida, Ella aproximou-se dele e beijou sofregamente, sentindo todo o carinho, amor, atenção e confiança que Georg lhe dava, e ela não pôde deixar de sentir que a fã que o beijara não tivera metade daquilo que ele lhe dava e soube, a partir daquele momento, que também nenhuma fã era tão especial para ele como ela.
Ella sentia a sua confiança à flor da pele. A poderia afirmar que confiava nele cegamente e o mesmo acontecia com ele.
Obrigado. Finalmente poderei voltar para casa e suspirar de alívio. Vocês merecem-se, acreditem. E tudo o que estão a sentir um do outro nesse beijo é a mais pura das verdades. Agora, embalem na confiança do amor e sejam felizes. Fá-la feliz Georg, porque durante muito tempo ela não soube para que direcção caminhar. Adeus, até para sempre.
