No momento em que Rei passou pela porta do apartamento que dividiam juntos, Suzui sabia que ele não estava bem.
Era fácil de descobrir, já que normalmente o Batsubami avisaria que tinha chegado e lhe deixaria um beijinho na testa — que nunca falhava em o deixar com o coração quentinho. No entanto, naquele dia, ele apenas tinha batido a porta e ido direto para o quarto deles.
Sabendo que era melhor deixá-lo se acalmar, Ryouta apenas continuou a digitar sua pesquisa que tinha de entregar ainda aquela semana.
Quando achou que já tinha adiantado o suficiente do dever, salvou o documento no computador e o fechou.
Não sabia se Rei estaria disposto a conversar agora, então talvez fosse melhor ir preparado para o quarto. Se levantou da cadeira onde estava e foi até a pequena cozinha.
Lá ele vasculhou os armários, e depois de pegar seu trunfo, passou a mão nas mechas castanhas apenas para se auto incentivar para então ir até o cômodo onde seu namorado estava.
A porta estava entreaberta, então Suzui bateu duas vezes na madeira.
— Posso entrar? — Sua voz tinha saído insegura e baixa, no entanto ele tinha certeza que o outro havia lhe escutado.
E embora o Batsubami não tenha respondido, ele resolveu entrar assim mesmo.
Como imagina, ele estava enrolado no lençol da cama, apenas o rosto e sua franja a mostra. Seu rosto não tinha nenhuma emoção evidente, o que deixou Ryouta levemente preocupado, já que sabia que ele estava recapitulando o que provavelmente tinha estragado seu humor.
— Rei? — Chamou-o ao sentar do lado dele, no entanto apenas ganhou um olhar vazio em sua direção. — O que houve?
Ao invés de responder a pergunta, o Batsubami apenas deitou a cabeça no ombro de Suzui.
Sabendo que colocar o braço na cintura dele para tê-lo mais perto ia apenas deixar o outro mais desconfortável, o moreno colocou a mão em cima da dele. Dessa forma o pescoço dele tocava seu antebraço, e Ryouta poderia puxá-lo para tentar passar um maior conforto em um semi-abraço.
Não demorou muito para que Rei começasse a tremer sob sua pele, coisa que começou a aumentar a preocupação que já dominava o peito de Suzui.
Quando os olhos caramelos lacrimejantes viraram em sua direção, ele sabia que não gostaria do que provavelmente ouviria.
— Eu não sou o suficiente? Não sou verdadeiro o suficiente?
O coração do moreno doeu ao escutar aquilo. Tudo o que podia fazer no momento era apertar o outro em seus braços e deixá-lo falar, pois sabia que aquele não era o seu momento.
— Não acredito que elas acharam que me colocar no papel da protagonista fosse algo bom. — Rei continuou a falar, seu tom de voz ficando cada vez mais agressivo e debochado conforme relatava o que tinha acontecido. — Queriam que eu fosse a mulher da peça, disseram que iria me ajudar a parar de atuar como um homem.
Ryouta se recordava que o Batsubami tinha comentado sobre o projeto que tinha de fazer como um estudante de artes cênicas: teriam que trabalhar em um grupo escolhido pela professora em questão e fazer um roteiro, para então produzir uma pequena peça.
Pelo visto o pessoal do grupo dele não eram pessoas que sabiam trabalhar em grupo, visto que usavam sua opinião particular para tomar decisões pelos outros.
— Falei que não iria fazer isso, porque me deixa desconfortável, óbvio. — Retrucou Rei, a raiva presente na sua fala embora seu tom ainda estivesse normal. — Dois colegas me apoiaram, disseram que aquilo era absurdo, que estavam sendo preconceituosos.
Ele respirou fundo como se tentasse se acalmar, no entanto Suzui sabia que o outro estava apenas respirando para tirar a sensação angustiante que tomava a garganta dele em situações como aquelas.
— Sabe o que o ator principal disse? — A voz do Batsubami parecia fraca e aguda, algumas lágrimas desciam pelos seus olhos enquanto ele encarava Ryouta com muita dor presente neles. — Que ele não poderia ser preconceituoso porque era gay.
O moreno chegou a abrir a boca para poder dizer algo, porém suas emoções estavam tão bagunçadas quando as do jovem em seus braços. Ele queria ir até o parceiro de projeto do Rei e falar através dos socos — mesmo sabendo que levaria a pior —, queria agradecer aos colegas que apoiaram ele e dar um jeito de fazer eles saberem que tinham sido pessoas maravilhosas pelo simples fato de não terem ficado quietas. Suzui queria enterrar o Batsubami embaixo das cobertas e enchê-lo de mimos e amor, assim como gostaria de denunciar à diretoria o ocorrido.
Eram tantas as coisas que gostaria de fazer para que não precisasse mais ver o outro daquela forma. Entretanto, tudo o que conseguiu foi ficar ali parado enquanto Rei lhe contava o que tinha acontecido.
— Eu não aguento mais conviver com esse tipo de gente. — Sussurrou ele, voltando a recostar sua cabeça no ombro de Ryouta que o apertou em uma leve tentativa de demonstrar apoio.
— Você falou com a professora? — Foi a única coisa que o moreno sentiu-se capaz de perguntar sem acabar se emocionando.
— Falei — Rei agora brincava com a gola da camisa de Suzui. — Ela retirou os problemáticos do grupo e me pediu desculpas, sendo que ela não fez nada de errado.
Ele suspirou antes de se aninhar no corpo alheio, apreciando o calor que vinha de Ryouta.
— Você é o suficiente. — O Batsubami franziu as sobrancelhas com a súbita fala do moreno, demorando a entender o que ele estava tentando fazer ao dizer aquilo. — E você é verdadeiro o suficiente.
A forma como o peito dele aqueceu ao ouvir coisas tão simples era inacreditável, assim como o motivo pelas suas bochechas terem ficado rosadas por causa de um beijo na testa era embaraçoso.
— Você é um homem maravilhoso que sou grato de ter ao meu lado. — Continuou Suzui enquanto fazia carinho na mão alheia com o polegar. — Eu faria qualquer coisa para não ter que vivenciar outra situação como essa, até mesmo apostaria minha vida se fosse necessário.
— Idiota. — Rei retrucou porém sua voz não continha nenhum tom de raiva e um sorriso pequeno estava presente nos seus lábios.
— E para provar que quero apenas sua alegria e bom humor, — Ryouta disse de um jeito levemente divertido, um olhar brilhante cheio de amor direcionado para o Batsubami. — Trouxa uma pequena oferenda para esse deus a minha frente.
Então ele entregou o chocolate meio amargo que tinha trazido consigo da cozinha para o outro, que arregalou os olhos tamanha era a surpresa de ver seu doce predileto ali na sua frente.
— Você disse que não tinha mais. — Rei acusou enquanto pegava o pacote, não perdendo tempo em abrir.
— Retoquei o nosso estoque anteontem. — Suzui disse enquanto observava o outro morder um pedaço.
O Batsubami apenas assentiu, não realmente prestando atenção no que o moreno tinha dito. Ele tirou um pedaço do chocolate e colocou sob os lábios de Ryouta, que logo abriu e deixou o sabor meio amargo invadir sua língua.
Sua careta foi inevitável, assim como a risada de Rei. Ver que o outro estava mais relaxado e até levemente feliz deixava ele com o coração palpitante.
Porque Rei tinha sido o garoto que não só conquistara seu coração, como também tinha aceitado ser seu namorado — ele era um homem incrível que conquistaria o mundo dos palcos e câmeras, e Suzui estaria do lado dele para vê-lo conquistando tudo o que era seu.
No corpo que ele se reconhecia, independente do pronome que Rei percebesse combinar consigo, Ryouta estaria com ele nas vitórias e derrotas, sempre com um chocolate meio amargo em mãos.

