Boné Vermelho
Boné Vermelho
Capítulo 140 min de leitura

Capítulo Único

Foto 1

Uma caixa de metal com a tampa aberta e as bordas descascadas, sobre um piso de taco. Dentro, envelopes de negativos, um maço de cartas amarradas com barbante, uma partitura dobrada e, por cima de tudo, um gorro de tricô que um dia foi vermelho.

Isso aí é um gorro de saci.

Eu sei que parece gorro de bebê esquecido em brechó. Foi o que eu pensei quando abri a caixa, e demorei uns bons cinco minutos para lembrar que fui eu que pus ele ali. Quer dizer, não fui eu. Foi a minha avó, a meu pedido, treze anos atrás. Eu tinha sete anos e uma certeza absoluta: tinha pegado um saci.

A culpa é do meu avô. Todo mundo tem um avô que conta histórias, mas o meu contava do jeito que se passa receita de bolo. Sem voz de suspense, sem era uma vez. Saci se pega com peneira, ele dizia, descascando uma laranja na mesa da cozinha. Peneira de taquara, jogada bem no meio do redemoinho. Depois é só tampar com uma garrafa. Do outro lado da mesa, a minha mãe revirava os olhos. A minha avó dizia que ele ia me deixar com medo de vento. Ele não discutia com nenhuma das duas. Terminava a laranja e me dava um gomo.

No Dia do Saci de 2013, que na escola era dia de fazer boneco de uma perna só com rolo de papel higiênico, eu roubei a peneira da cozinha e uma garrafa vazia de guaraná e fui para a praça. Ventava daquele jeito seco de fim de outubro, que levanta as folhas das tipuanas e faz elas rodarem no chão. Esperei um redemoinho de verdade, desses que sobem até a altura da cabeça, e joguei a peneira no meio dele com toda a força que um menino de sete anos tem.

Na garrafa não entrou nada. Mas, quando a poeira assentou, tinha um gorrinho vermelho caído aos meus pés. Lembro que estava quente, como se alguém tivesse acabado de tirar da cabeça.

Corri para casa. O meu avô estava dando aula, e eu queria que fosse surpresa: ia mostrar para ele só quando pegasse o saci inteiro. Então pedi para a minha avó guardar. Ela riu, disse que guardava sim, senhor, e guardou o gorro na caixa de metal do meu avô, a única em que ninguém mexia. Ela nunca acreditou em saci. Mas sabia onde ficavam as coisas que importavam. Depois disso eu esqueci. Criança esquece tudo, até de ter pegado um saci.

Na semana seguinte, apareceu o Pedro.

Ele estava sentado no banco da praça, com um boné vermelho grande demais para a cabeça e um tênis só. O outro pé estava de meia. Quando eu passei, ele me olhou de cima a baixo e disse:

— Você é o moleque da peneira.

Na hora achei que alguém tinha contado. Hoje eu tenho minhas dúvidas. O apelido pegou, e o Pedro também. Virou Pê, virou o meu melhor amigo, e treze anos depois ainda perde um pé de tênis por semana e ainda não tira aquele boné nem para dormir. Até hoje ele me chama de Peneira. Em casa eu sou só o menino. Ninguém me chama pelo nome, e vocês vão entender por que eu vou deixar para depois.

Eu moro com o meu avô desde os dezessete, quando a minha avó morreu. O quartinho dos fundos, que a gente chama de quarto da bagunça, ele chama de quarto da mãe dele. Nunca entendi direito por quê. Lá tem umas dez caixas de papelão cheias de negativos, porque o meu avô fotografou a vida inteira em filme, e eu estudo fotografia. Fui atrás delas. Mas, no fundo do armário, embaixo de todas, tinha uma caixa de metal que eu nunca tinha visto aberta.

Peguei o gorro. Era leve, quase nada, e estava morno.

Treze anos dentro de uma caixa de metal, num quarto sem janela, e estava morno.

Na mesma hora, o celular vibrou no meu bolso. Era o Pê.

tá fazendo o quê?

Foto 2

Ampliação de um negativo preto e branco, 1973. Uma rua estreita, fachadas de loja com letreiros pintados à mão, um homem carregando um fardo de tecido no ombro. No meio da calçada, de costas, uma mulher de vestido claro e um rapaz magro de cabelo escuro, com uma sacola de pano no ombro. No canto direito do quadro, meio fora de foco, um menino de gorro escuro, rindo para a câmera.

Os negativos mais antigos da caixa não são do meu avô. São do seu Wilson, um homem que eu vou apresentar direito mais para a frente. Ele tinha uma Pentax e um hábito que eu só entendi depois de mexer nos negativos: mandava revelar o filme inteiro, mas só ampliava as fotos que achava boas. O resto ficava ali, nas tiras, esperando. Trinta e seis poses por rolo, umas dez em papel, vinte e tantas que ninguém nunca viu. Anos depois, o meu avô herdou a câmera e o hábito.

Foi nessas que eu achei o menino.

Essa aí é a rua José Paulino, no Bom Retiro, em 1973. Eu sei porque o seu Wilson anotava tudo a lápis no envelope, numa letra redonda de repartição pública. Os dois de costas são o meu avô, com uns dezesseis anos, e a mãe dele, a minha bisavó. Eles tinham acabado de voltar do Pará e de ir morar no apartamento do seu Wilson, onde ela trabalhava, depois de uma história que eu vou contar mais para a frente.

No laboratório da faculdade, digitalizei a tira inteira e fui passando quadro por quadro na tela. A rua de dia. A rua de noite. Uma senhora na janela. E, em três fotos seguidas, no canto do quadro, sempre no mesmo canto, um menino de gorro. Rindo, como se soubesse da câmera antes do fotógrafo.

Achei graça. Moleque de bairro, desses que entram na foto dos outros de propósito.

Aí abri o envelope seguinte.

Aniversário da minha mãe, 1994. Ela fazendo oito anos, de vestido amarelo, soprando a vela. Atrás dela, na janela do apartamento, do lado de fora, no terceiro andar, o mesmo menino de gorro.

O mesmo. Não um parecido. A mesma idade, o mesmo jeito de rir com o canto da boca, o mesmo gorro afundado até as sobrancelhas. Vinte anos depois da rua José Paulino, sem um dia a mais na cara.

Eu fiquei um tempo olhando aquilo com a cabeça muito vazia, do jeito que a cabeça fica quando ela se recusa a trabalhar. Depois fiz o que qualquer estudante de fotografia faz: procurei uma explicação técnica. Dupla exposição. Reflexo no vidro. Um negativo trocado de envelope. Nenhuma servia. A janela era do terceiro andar e não tinha sacada.

O último envelope da caixa dizia só 2006, o menino. Era eu. Um bebê enrolado numa manta, no colo da minha avó Agatha, na sala do apartamento. O meu avô deve ter tirado da poltrona, porque o enquadramento está torto, do jeito que fica quando a pessoa não levanta. Na porta da cozinha, encostado no batente, olhando para mim, o menino de gorro.

Trinta e poucos anos e três fotos, e ele não tinha crescido nada.

Eu não mostrei para ninguém. Imprimi as três, guardei numa pasta e passei a noite acordado, com a pasta embaixo do travesseiro, como se ela pudesse fugir. Não sei explicar por quê, mas não liguei para o Pê.

Talvez porque, desde o primeiro quadro, alguma coisa naquele riso de canto de boca me parecesse conhecida.

Foto 3

Captura de tela de um celular. Uma mesa de lanchonete, dois copos de refrigerante, uma bandeja com batata frita. Na cadeira da frente, uma mancha vermelha e marrom, como se alguém tivesse se mexido muito rápido.

Esse é o Pê no meu aniversário de quinze anos.

Eu sei. Parece que ele estava passando correndo. Ele não estava. Estava sentado, roubando a minha batata, parado o bastante para eu tirar a foto com calma. Eu lembro porque reclamei da batata.

Depois da noite com a pasta embaixo do travesseiro, abri a galeria do celular e digitei o nome dele na busca. O aplicativo achou mais de mil fotos marcadas com "Pê". Passei uma por uma. Treze anos de amizade, e o meu melhor amigo não aparece direito em nenhuma. Borrado, de costas, cortado pela metade, coberto por um reflexo, escondido atrás de alguém. Numa foto da formatura do ensino médio, a turma inteira está nítida, e no lugar do Pê tem um risco vermelho, como tinta molhada passada com o dedo.

O único pedaço que sempre sai inteiro é o boné.

Eu sempre achei que fosse azar. A gente fazia piada disso. O Pê dizia que tinha alma de vampiro e não saía em foto, e eu dizia que ele só não parava quieto. Durante treze anos, essa explicação bastou.

Na quinta-feira, ele apareceu lá em casa como sempre aparece, sem avisar, com um tênis de cada cor. Esperei ele se distrair com a geladeira e tirei uma foto. Saiu o borrão. Tirei outra, e outra, e outra.

— Tá fotografando a geladeira? — ele perguntou, de costas.

— Tô fotografando você.

— Sua câmera é ruim, Peneira.

— A câmera é ótima. O problema é você.

Ele riu. Mas não se virou.

O meu avô estava na sala, na poltrona dele, de onde quase não sai mais por causa da coluna. O Pê nunca foi de ficar muito perto dele. Dava oi da porta, perguntava se estava tudo bem, e o meu avô respondia com um aceno de mão que eu sempre achei meio cerimonioso demais para um menino que ele conhecia desde pequeno. Naquele dia, notei pela primeira vez que os dois não se olhavam. Não era antipatia. Era o contrário. Era o jeito de duas pessoas que combinaram, muito tempo atrás, de não tocar num assunto.

No armário do quartinho tinha a câmera de filme do meu avô, uma Pentax pesada que ele não usava fazia anos. Eu podia ter carregado um rolo, fotografado o Pê e mandado revelar. A conta era simples: se o menino do gorro aparecia nítido no filme do meu avô, então o Pê também ia aparecer.

Eu não fiz isso.

Não por falta de curiosidade. Por medo da resposta. Uma coisa é achar um menino estranho em negativos velhos. Outra é descobrir que ele está sentado na sua cozinha, comendo o seu queijo, e que vocês dividem o mesmo apelido há treze anos.

Então eu deixei a Pentax no armário e fiz a outra coisa que eu sabia fazer: fui ler o que o meu avô tinha escrito.

Foto 4

Uma partitura impressa, amarelada, com marcas de dedo nas bordas. No alto, em letra de forma: Suíte nº 6 em ré maior. Embaixo, a lápis, numa letra miúda e inclinada: Para H.

O meu avô tocou violoncelo a vida inteira. Numa orquestra, primeiro. Depois dando aula, numa escola de música onde ele tinha uma turma de sábado cheia de crianças que seguravam o arco do jeito errado. Na sala lá de casa ainda tem o violoncelo dele, encostado na parede, e na prateleira em cima tem um chapéu branco de aba larga, um pouco amarelado, que ele trouxe da escola quando parou de dar aula. Eu cresci com aquele chapéu ali. Nunca perguntei de quem era. Chapéu de avô não é coisa que criança pergunta.

Bach escreveu seis suítes para violoncelo sozinho. O meu avô dizia que a gente passa a vida estudando as seis e nunca termina de aprender. A sexta é a mais difícil. Na caixa de metal tinha a partitura dela, gasta como se tivesse sido tocada mil vezes, e no alto, a lápis, aquelas duas palavras. Na hora, achei que fosse para a minha mãe. Helena. Fazia sentido: filha única, a suíte mais difícil, um pai que nunca foi de dizer as coisas em voz alta. Achei bonito e separei a partitura para mostrar para ela.

Debaixo da partitura estavam os cadernos.

Não eram bem diários. Eram cadernos de capa dura, de várias épocas, com datas, nomes de rios, uma ou outra frase solta, às vezes meia página, às vezes uma linha só. O mais antigo era de 1981. Tinha um nome de mulher que eu conhecia das histórias, a avó dele, dona Benedita, e um nome de homem que eu não conhecia, Caio. Pelo que eu entendi juntando as linhas, o Caio tinha sido alguém muito importante para o meu avô, e tinha tirado dele o lugar na orquestra e mais coisa ainda. Lendo aquilo, eu entendi que o meu avô tinha amado um homem, numa época em que isso não se dizia em voz alta. Fiquei um tempo parado nessa página. Não por espanto. Por ternura, e um pouco de vergonha de nunca ter perguntado nada sobre ele que não fosse sobre mim.

Depois do Caio, o caderno vai para o Pará. Uma vila na beira de um rio, uma festa de santo que durava nove noites, a avó dizendo para ele não seguir um moço de chapéu branco até a água. E, a partir da terceira noite, a letra muda. Fica mais apertada, mais rápida, como se ele tivesse medo de esquecer. Aparece pela primeira vez o H. Em 1981, cinco anos antes de a minha mãe nascer. Guardei a partitura de volta na caixa.

Ele canta para ninguém. Hoje cantou para mim.

É tudo o que o caderno diz sobre a terceira noite.

Eu li o resto sentado no chão do quartinho, com as costas na parede. Li sobre uma canoa, sobre uma chuva, sobre um chapéu que alguém tirou. Li a última página daquele ano, que só tem uma frase, Ia precisar de um violoncelo, e fiquei olhando para ela muito tempo, porque eu sabia o que vinha depois. Vinha a vida inteira do meu avô.

Levei o caderno para a sala. Ele estava na poltrona, com a TV ligada sem som. Sentei no braço da poltrona, abri na terceira noite e mostrei.

— Vô, quem é H.?

Ele olhou para o caderno. Olhou para o chapéu na prateleira. Depois olhou para mim, de um jeito que eu não conhecia, como se estivesse me medindo para ver se eu já cabia numa roupa.

Não respondeu. Fechou os olhos e começou a cantarolar. Era o prelúdio da primeira suíte, a primeira música que ele aprendeu a tocar inteira, aos onze anos. Eu já tinha ouvido aquilo um milhão de vezes. Ele foi até o meio da frase e parou.

Ficou esperando, de olhos fechados, como se alguém fosse continuar.

Ninguém continuou. Eu não sabia como. Ainda não.

Foto 5

Reprodução de uma foto antiga, colada numa ficha de arquivo. Um grupo de moças de uniforme diante de um piano de cauda. A terceira da esquerda, de tranças, é a única que não olha para a câmera. Na ficha, à máquina: Instituto Carlos Gomes, Belém, 1955. Alunas premiadas, classe de canto.

Essa de tranças é a minha bisavó, Nazaré Cardoso. Foi a única foto dela que eu consegui achar no Pará. Vou explicar como eu fui parar lá, mas antes preciso explicar os sobrenomes, senão ninguém entende nada.

O meu avô nasceu na Coreia. Chamava Kim Jinho. Perdeu a mãe pequeno e veio para o Brasil aos seis anos, com o pai, num navio de imigrantes que chegou em Santos. O pai dele trabalhava com costura no Bom Retiro e, anos depois, casou de novo, com uma cantora paraense que tinha estudado em Belém e no Rio: a moça de tranças. A família do pai nunca perdoou o casamento. O pai dele também não, no fim. Quando o meu avô tinha quinze anos, o pai bateu nela, e o meu avô ficou do lado dela. Os dois foram para a vila da avó, no Pará. Quando voltaram, o pai já vivia com outra mulher.

A minha bisavó criou o meu avô sozinha, cantando à noite e dando aula de piano de dia, até virar governanta no apartamento de um funcionário público que gostava de música e não tinha ninguém. O seu Wilson. É o apartamento onde eu moro hoje. O quartinho dos fundos é onde os dois dormiram quando chegaram. Por isso o meu avô chama de quarto da mãe dele.

Aos vinte e um anos, o meu avô assinou a própria adoção. Escolheu ser filho dela. E escolheu usar só o sobrenome dela. Desde então, ele é Jinho Cardoso. Casou com a minha avó, Agatha Agopian, filha de armênios do Bom Retiro, que fazia aula de piano com a minha bisavó desde menina. A minha mãe se chama Helena Nazaré Agopian Cardoso. Cada pedaço desse nome é alguém que escolheu ficar.

O meu sobrenome eu deixo para depois, junto com o resto.

Quando eu disse em casa que ia para o Norte, a minha mãe não gostou. Ela nunca foi lá. Disse que eu ia gastar dinheiro atrás de história que o meu avô inventava para me fazer dormir. O meu pai disse que era para um trabalho da faculdade, então ele pagava. Eu disse que não precisava. Perdi a discussão em menos de um minuto, como sempre.

Na véspera da viagem, o meu avô me chamou na sala. Apontou a prateleira com o queixo, porque a coluna não deixa ele levantar o braço muito alto. Eu peguei o chapéu e entreguei para ele. Ele passou o polegar pela aba, devagar, do jeito que se afina uma corda.

Depois pôs o chapéu nas minhas mãos.

— Ele não deixou comigo — disse. — Eu é que ainda não consegui devolver.

Não disse quem era ele. Não precisava.

O Pê foi comigo. Disse que nunca tinha saído de São Paulo, o que era mentira, porque uma vez a gente foi a Santos. Eu fingi que acreditei. Na mochila, junto com a câmera digital e o chapéu, eu levei a caixa de metal, com o gorro dentro. Não sei por quê. Na hora, pareceu errado deixar. A Pentax do meu avô ficou em casa: filme e raio-x de aeroporto não se dão bem, e eu já tinha perdido um rolo inteiro assim.

A gente chegou a Belém na semana do Círio de Nazaré, a festa que deu nome à minha bisavó. A cidade inteira cheirava a maniçoba e a gente. No arquivo do Instituto Carlos Gomes, uma funcionária muito paciente me deixou tirar foto da ficha. A moça de tranças olhando para o lado.

Foi a única coisa da minha família que eu achei inteira no Norte. O resto, o rio levou.

Foto 6

Um rio largo e barrento visto do alto de um barranco. Do outro lado, uma faixa de mata baixa. No primeiro plano, a raiz exposta de uma árvore que o rio já começou a comer. Nenhuma casa. Nenhum barco. Nenhuma pessoa.

Os cadernos do meu avô nunca dizem o nome da vila. Dizem o nome da avó, dona Benedita. Dizem que tinha um barracão de madeira, uma bananeira no fim do quintal e um caminho de terra que descia até o rio. Dizem que um seu Raimundo tinha uma canoa que não usava fazia cinco festas. Para um caderno, é muita coisa. Para achar um lugar, não é nada.

Passei três dias perguntando. No porto, para os barqueiros. Na feira, para as senhoras das barracas de ervas, que me olhavam com pena. Numa paróquia, para um padre que procurou num livro de batismos e achou quatro Beneditas na década certa, em quatro lugares diferentes. Fui atrás das quatro. Uma vila tinha virado bairro, com asfalto e farmácia. Outra tinha sido engolida pela cheia de algum ano que ninguém sabia dizer. A terceira existia, mas ninguém lá tinha ouvido falar de nenhuma Benedita com neto em São Paulo.

A quarta é essa foto.

Um senhor que pescava ali me disse que, quando ele era menino, tinha casa até onde está a água agora. Apontou para o meio do rio. O rio anda, ele disse, como quem diz que o sol nasce. Para um lado ele come, para o outro ele devolve. Só não devolve igual.

O meu avô escreveu quase a mesma coisa num caderno de 2004. O rio não é o mesmo. Nunca é.

No último dia em Belém, achei mais uma coisa: no acervo do Theatro da Paz, num programa de concerto de 1999, a lista de uma orquestra de São Paulo em turnê. No naipe de violoncelos, terceiro nome: Jinho Cardoso. Fotografei também. O meu avô esteve aqui. Tocou num teatro com lustre de cristal, a poucas quadras do rio. Depois foi embora. Eu fiquei com o papel.

E com o rio.

Eu tirei umas duzentas fotos de rio naquela semana. Barrento, escuro, de manhã, de tarde, com chuva, com sol. Em pelo menos três eu tive certeza, na hora, de ter visto alguma coisa. A primeira foi no sábado da romaria fluvial, com a baía coberta de barcos enfeitados levando a santa: no meio deles, um dorso rosado subiu, soltou um sopro curto e afundou, como quem também tinha vindo ver a procissão. Nas outras duas, um rastro na água que não era de barco. Nas três, quando olhei no visor, só tinha água. Achei que fosse a velocidade do obturador. Achei que fosse eu.

Na última tarde, sentei no barranco da foto, com a câmera no colo e o chapéu do meu avô do lado, e me senti muito idiota. Tinha atravessado o país atrás de um lugar que não existia mais e de alguém que talvez nunca tivesse existido.

O Pê sentou do meu lado. Não disse nada por um tempo. Depois tirou um galho do meu cabelo.

— Você tá procurando no lugar errado, Peneira.

— E onde é o lugar certo?

Ele olhou para o rio. Ficou muito sério, de um jeito que o Pê nunca fica.

— Não é você que acha o rio. É ele que acha você.

Foto 7

Um barco de madeira pintado de azul e branco, amarrado num píer. No casco, à mão: Sereia do Guajará. Na proa, de costas, um rapaz de camisa branca aberta, acenando para alguém fora do quadro. Só o contorno dele está tremido, como se fosse a única coisa no porto que não parou para a foto.

Essa foto é do primeiro dia. Eu só entendi o que ela mostrava depois.

O barco é do Beto. Pelo menos foi esse o nome que ele me deu, e eu já aprendi que, com certas pessoas, nome é mais uma sugestão do que um documento. Ele faz passeio para turista e carrega encomenda para as ilhas, e conhece todo mundo do porto, principalmente as moças. Em meia hora de conversa, eu vi ele flertar com a moça do açaí, com a moça do caixa, com uma senhora de oitenta anos que ria igual adolescente e com um casal de turistas suecos, os dois ao mesmo tempo. O celular dele vibrava a cada dois minutos. Ele olhava, sorria e guardava.

— Aplicativo — explicou, piscando. — Belém é uma cidade muito solitária.

Perguntei se o porto era sempre cheio daquele jeito. Ele riu.

— Em Círio, Belém inteira é festa. Até a gente.

Na hora, achei que ele estivesse falando dos barqueiros.

Perguntei por uma vila com uma dona Benedita, uma festa de nove noites, um barracão. Ele desconversou com uma elegância impressionante. Falou do tempo, do Círio, da maré, do preço do combustível. Mas, enquanto falava, não tirava o olho do chapéu, que eu carregava pendurado na mochila.

Na hora de ir embora, ele segurou a aba com dois dedos, muito de leve.

— Isso aqui não é seu — disse.

Não era pergunta.

— É do meu avô.

Ele soltou o chapéu e me olhou de um jeito diferente. Depois sorriu de novo, o sorriso de vitrine de antes, e voltou para o barco.

Na mesma tarde, no fim do píer, tinha uma mulher cantando. Uma dessas cantoras de rua, com uma caixinha de som e um chapéu no chão para as moedas, cantando música antiga para os turistas que esperavam a balsa. A voz dela era bonita de um jeito que dava vontade de chegar mais perto, e eu já estava indo quando o Pê me puxou pelo braço com uma força que eu não sabia que ele tinha.

— Aí não.

— Por quê?

— Porque não.

Ele não olhava para ela. Olhava para o chão, para a água, para qualquer lugar, menos para ela. A mulher parou de cantar no meio de um verso. Olhou primeiro para o Pê, com uma espécie de diversão. Depois olhou para o chapéu na minha mochila, e algo no rosto dela mudou.

— Ah — disse ela, do outro lado do píer, sem levantar a voz, e mesmo assim eu ouvi como se estivesse do meu lado. — É o chapéu.

E depois, olhando para mim:

— E você é o neto.

Voltou a cantar do ponto em que tinha parado. O Pê me arrastou para longe dali antes que eu conseguisse perguntar qualquer coisa.

Naquele dia, no hotel, eu escrevi no meu caderno: Belém. Todo mundo conhece o chapéu, menos eu.

Também escrevi uma linha que na hora não pareceu importante. No porto, um cara com um drone, filmando o rio. Camiseta escrito Mistérios do Norte.

Foto 8

Um píer de madeira à noite, fotografado do começo até a ponta. Postes de luz amarela, a água preta dos dois lados, ao fundo as luzes de um navio parado na baía. Na ponta do píer, nada.

Tinha alguém ali.

Naquela noite eu não consegui dormir. O Pê roncava na outra cama, com o boné no rosto, e eu fiquei olhando o teto do hotel e pensando no que ele tinha dito no barranco. Por volta das duas da manhã, ouvi.

Vinha da baía. Era longe demais para eu ouvir, e eu ouvi do mesmo jeito. Uma voz de homem cantando baixo, sem pressa, uma música que eu não conhecia numa língua que parecia português e não era. Não chamava ninguém. Cantava como as pessoas falam sozinhas quando acham que não tem ninguém ouvindo.

Vou contar uma coisa que eu nunca contei para ninguém. Eu sempre ouvi coisas assim. Desde pequeno. Um assobio na praça que ninguém mais ouvia. Uma risada no vento. Um canto, uma vez, numa praia, quando eu tinha dez anos. Eu aprendi cedo que, se você comenta, os adultos olham estranho, e se você não comenta, a coisa passa. Então eu nunca comentei.

Daquela vez, eu levantei.

O Pê acordou quando eu abri a porta. Não sei como, porque eu não fiz barulho nenhum.

— Não vai, Peneira.

— Você também tá ouvindo.

Ele não negou. Isso me assustou mais do que qualquer outra coisa naquela viagem.

— Não vai — repetiu. — Por favor.

Eu fui. Peguei o chapéu e fui.

O píer estava vazio, com aquela luz amarela que deixa tudo com cara de filme antigo. O canto vinha da ponta. Andei até lá devagar, com as tábuas rangendo, e na metade do caminho vi que tinha alguém sentado na beirada, com os pés pendurados sobre a água.

Um rapaz. Parecia um pouco mais velho do que eu, mas, naquela luz amarela, eu não teria como jurar. Cabelo escuro e molhado, camisa clara, descalço. Sem chapéu nenhum. Ele parou de cantar quando eu cheguei perto, mas não se virou. Quando eu estava a uns cinco metros, ele levantou a mão, sem olhar, como quem pede para parar.

— Daí não passa — disse. — Eu não posso chegar mais perto de você.

Eu parei. Tirei o chapéu da mochila e segurei com as duas mãos, do jeito que se segura uma coisa que pode quebrar.

Aí ele se virou.

Eu não sei descrever o rosto dele quando viu o chapéu. Não era surpresa. Era como alguém que espera um barco durante mais de quarenta anos e de repente ouve o motor.

— Onde você achou isso?

— É do meu avô. Ele guardava na sala. Ele tocava violoncelo. Ele vinha às festas no Pará, quando era moço. Ele...

Eu estava falando tudo no passado. Só percebi depois. Na hora, eu só vi o rosto dele mudar de novo, devagar, e entender uma coisa que não era verdade.

Ele não chorou. Virou de volta para a água e começou a cantar. Outra música, mais baixa, reta e calma do começo ao fim, sem mudar de tempo em lugar nenhum. Parecia alguém que estende a mão aberta e espera. Eu fiquei ali, parado a cinco metros, ouvindo um desconhecido cantar o enterro do meu avô.

Demorei muito tempo para entender o que estava acontecendo. Quando entendi, quase gritei.

— Não! Ele tá vivo. Ele tá em São Paulo. Ele tá vivo.

O canto parou no meio de uma nota.

— Ele não pode viajar — continuei, rápido, antes que ele sumisse. — É a coluna. Ele quase não sai da poltrona. Mas ele tá vivo. Ele me deu o chapéu antes de eu vir. Ele disse que ainda não tinha conseguido devolver.

O rapaz ficou um tempo muito longo sem dizer nada. Depois riu, um riso curto e quebrado, e passou a mão pelo rosto molhado.

— Teimoso — disse, baixinho. Não para mim.

Foi ele que me contou o resto. Que tinha prometido voltar, e que gente como ele não promete nada. Que o rio cobrou. Que durante muitos anos não pôde subir em lugar nenhum, e que o que ele fez virou, lá embaixo, o exemplo do que nunca se deve fazer. Que, com o tempo, deixaram ele chegar até a beira. Os portos, os píeres. Mas só até ali. Não pode andar pela cidade. Não pode se aproximar de ninguém.

— Um boto que não pode levar ninguém para o rio — disse, e sorriu de um jeito que doía. — Lá embaixo, isso é piada.

— E você não liga?

Ele olhou para o chapéu nas minhas mãos.

— Não me arrependo de nada. Se é isso que você quer saber.

Eu estendi o chapéu na direção dele. Ele balançou a cabeça.

— Não é você que tem que me devolver.

Quando eu olhei de novo, a ponta do píer estava vazia. Na água, um sopro curto, e mais nada.

Essa foto eu tirei logo depois. Foi a única coisa que a câmera conseguiu pegar.

Foto 9

Céu de fim de tarde sobre a baía, cor de laranja. No canto superior, um ponto preto fora de foco, pequeno demais para ser pássaro e reto demais para ser inseto.

Isso é um drone. O drone do cara da camiseta.

Na manhã seguinte, o Pê me acordou com o celular dele na minha cara. Era um vídeo com mais de duzentas mil visualizações, postado de madrugada por um perfil chamado Mistérios do Norte. Imagem aérea, noturna, granulada. O píer, a luz amarela, e um rapaz parado no meio das tábuas, falando sozinho com a ponta vazia, segurando um chapéu branco.

Era eu.

No vídeo, a ponta do píer estava vazia. Não tinha ninguém sentado na beirada. Mas o microfone do drone tinha pegado um pedaço do canto, muito baixo, por baixo do vento. A legenda dizia: Jovem conversa com o rio em Belém. O que ele está ouvindo? Ative o som. Nos comentários, metade das pessoas dizia que era montagem, a outra metade dizia que era o boto, e uma terceira metade, que não deveria existir mas sempre existe, marcava os amigos para irem lá ver.

O cara se chamava Diego. Descobri porque ele me achou antes do almoço, na porta do hotel, com o drone numa mochila e um sorriso de quem achou ouro.

— Você é o rapaz do chapéu. — Ele estendeu a mão, e eu não apertei. — Calma, irmão. Eu só quero a história. De onde vem o chapéu? Com quem você tava falando?

Eu disse que não sabia do que ele estava falando. Ele riu e mostrou o vídeo de novo.

— Hoje à noite eu volto com equipe. Hidrofone, câmera térmica, dois barcos. Se tem alguma coisa naquele rio, eu vou mostrar. Você pode me ajudar ou pode assistir. Mas eu volto.

Naquela tarde, o meu celular vibrou com uma notificação que eu nunca tinha recebido na vida: Você tem um novo match! Eu nem tinha aquele aplicativo. Ou tinha e não lembrava de ter baixado, o que dava no mesmo. A foto do perfil era a proa de um barco azul e branco. A mensagem veio logo depois.

Píer do Sereia. Pôr do sol. Não traz o chapéu.

O Pê leu por cima do meu ombro e fez uma careta.

— Esse cara não tem limite.

Mas foi comigo. Ficou sentado no píer, de boné enterrado na cabeça, e não quis subir no barco. O Beto também não insistiu. Os dois se cumprimentaram com um aceno de queixo, como vizinhos que nunca se deram bem e já desistiram de tentar.

O Beto soltou a corda e levou o Sereia do Guajará para longe da margem, onde a água ficava mais escura, e desligou o motor. Pela primeira vez desde que eu o conhecia, não estava sorrindo. O celular dele vibrou duas vezes no bolso, e ele não olhou. Falou baixo, como quem dá uma notícia de morte.

Disse que lá embaixo tinha gente acima dele e acima do Hwitaek. Foi a primeira vez que alguém disse o nome em voz alta, e eu senti a palavra cair no barco como uma pedra na água. Disse que essa gente tinha visto o vídeo. Ou ouvido, ou sentido, ou seja lá como eles ficam sabendo das coisas. E tinha mandado um recado.

Se os homens descerem com as máquinas deles, quem paga é o Hwitaek. De novo. E todos eles deixam esse trecho do rio, como deixaram tantos outros.

— Ele já pagou uma vez por causa de um de vocês — disse o Beto, e não era raiva, era cansaço. — Não sei se aguenta pagar de novo por causa do neto.

Foi nessa hora que o pontinho preto passou por cima da baía, voltando para o porto. Eu levantei a câmera por reflexo e tirei essa foto. O Beto olhou para o céu, depois para mim.

— É isso que vocês fazem — disse. — Tudo vira foto.

Eu não tive resposta.

Ele me deixou de volta no píer quando já estava escuro. Eu tinha vindo devolver um chapéu. Em quatro dias, tinha conseguido colocar o rio inteiro em risco.

O Pê não disse nada no caminho de volta para o hotel. Andava com o boné enterrado na cabeça, olhando o céu. De vez em quando, o pontinho preto passava lá em cima, voltando para a baía.

Na porta do hotel, ele parou e virou para mim.

— Tem um jeito de resolver — disse. — Mas você não vai gostar.

Foto 10

A orla à noite, tremida, quase toda escura. Folhas, sacos plásticos e poeira girando no ar, num funil que vai do chão até acima dos postes. No meio do funil, uma mancha vermelha.

Essa foi a foto mais difícil de tirar. Eu estava com medo, e a câmera estava girando junto com tudo.

O Diego chegou às dez, como tinha prometido. Dois barcos, quatro pessoas, um drone grande e um pequeno, um cabo comprido com um microfone na ponta para jogar na água. Tinha até um rapaz com uma câmera na mão fazendo transmissão ao vivo. Eu e o Pê ficamos no começo do píer, no escuro. O Beto estava no barco dele, amarrado ali perto, fingindo que consertava o motor.

— O que você vai fazer? — perguntei.

— O que eu sempre fiz — disse o Pê. — Bagunçar.

Ele andou até a ponta do píer, tirou as mãos dos bolsos e ficou parado, de olhos fechados, como quem faz força para lembrar de uma palavra. O vento mexeu um pouco. Umas folhas levantaram do chão, rodaram meia volta e caíram de novo.

Só isso.

Ele tentou outra vez. E outra. Na terceira, abriu os olhos, e eu nunca tinha visto o Pê com aquela cara. Não era raiva. Era vergonha.

— Não dá — disse. — Desde os seus sete anos, não dá.

E contou.

Contou que naquele Dia do Saci, na praça, ele estava lá. Que tinha voltado do interior para ver de longe a família de um moleque que ele conheceu no Bom Retiro, muitos anos antes, e que tinha ficado amigo dele do jeito que a gente fica amigo de alguém que nunca se assusta. Que ele estava rodando no meio das folhas, se divertindo, quando uma peneira de cozinha caiu no meio do redemoinho. O gorro voou. E saci sem gorro fica preso na forma de gente. No caso dele, num menino de sete anos com um boné grande demais, sentado num banco de praça, sem saber para onde ir. Preso, ele passou a envelhecer como gente. Cresceu junto comigo.

— E pela lenda — eu disse, sem ar —, quem fica com o gorro...

— Manda no saci. É.

Os barcos do Diego estavam ligando os holofotes. O drone grande subiu, zumbindo, na direção da baía.

— Esses anos todos — perguntei, e foi a coisa mais difícil que eu já perguntei na vida —, você tava comigo porque queria ou porque tava preso?

Ele demorou para responder.

— Você nunca me mandou fazer nada, Peneira. Nem uma vez. Você nem sabia.

Não era resposta. E era.

Eu lembrei da mochila. Da caixa de metal, que eu tinha trazido sem saber por quê. Abri o zíper com as mãos tremendo e tirei o gorro, desbotado, quase cinza, morno como no primeiro dia. Por um segundo, só um, eu entendi exatamente o que eu tinha nas mãos. Eu podia mandar o Pê resolver tudo. Derrubar os drones, afundar os barcos, apagar o vídeo da internet. Ele ia ter que obedecer.

Estendi o gorro para ele.

— É seu.

Ele olhou para o gorro, depois para mim, como o meu avô tinha me olhado na sala, medindo se eu já cabia numa roupa. Pegou. E pôs na cabeça.

O vermelho voltou de uma vez, como se alguém tivesse acendido uma luz por dentro do tricô.

O resto aconteceu muito rápido. Eu vi o Pê diminuir. Vi uma perna só onde antes tinha duas, vi os olhos brilharem no escuro de um jeito que não era de gente, ouvi uma risada que eu conhecia desde os sete anos e que, pela primeira vez, soava inteira. Depois o vento veio de todos os lados ao mesmo tempo.

O redemoinho levantou da ponta do píer e foi crescendo até ficar mais alto que os postes. O drone grande rodou no ar como uma folha e foi descendo, devagarinho, até pousar no barco do Beto, que o recebeu com um sorriso de vitrine e jogou uma lona por cima. O drone pequeno sumiu. O cabo do microfone apareceu amarrado em vinte e três nós, contei depois, em volta da âncora de um dos barcos. Os motores morreram juntos. Os holofotes piscaram e apagaram. O rapaz da transmissão ao vivo descobriu que o celular dele estava sem bateria, e o reserva também, e o reserva do reserva.

Ninguém se machucou. O Diego passou o resto da noite à deriva na baía, xingando, até um barco da capitania rebocar os dois. A transmissão dele só mostrou vento.

Quando a poeira assentou, o Pê estava sentado na ponta do píer, pequeno de novo, do tamanho do menino da praça, com o gorro vermelho na cabeça e o pé balançando sobre a água.

Ele podia ter ido embora naquela hora. Eu achei que ia.

Ele bateu na tábua do lado dele.

— Senta aí, Peneira. Ainda falta o chapéu.

Foto 11

Dois tocos de amarração na beira de um píer, à noite, sob a luz amarela de um poste. Num deles, um chapéu branco de aba larga, um pouco amarelado. No outro, um boné vermelho. Parecem duas cabeças olhando para a água.

Esse é o chapéu do meu avô, que nunca foi dele, e o boné do Pê, que nunca foi um gorro. A foto é de poucos segundos antes de o chapéu voltar para o dono.

O celular é do Pê. Um saci de iPhone. Ele diz que precisa, que o mundo mudou e que hoje em dia ninguém mais deixa recado em redemoinho.

A ligação foi na noite seguinte, a última da festa, véspera do Recírio, depois que o Diego foi rebocado e a cidade voltou a ter só os barulhos de sempre. O Beto tinha avisado: quando amanhecesse, o rio ia chamar o Hwitaek de volta, e ele só subiria de novo no Círio do ano seguinte. Era aquela noite ou nunca. O Beto levou a gente de barco até o píer mais afastado do porto, onde quase não passa ninguém. O Pê, de novo de boné e de duas pernas, porque, segundo ele, assim é mais fácil andar de tênis, ficou segurando o celular. Eu fiquei segurando o chapéu.

O Hwitaek estava na ponta do píer, sentado na beirada, como na primeira noite. Eu parei a cinco metros. Ele não precisou levantar a mão dessa vez.

Quem atendeu em São Paulo foi a minha mãe. Ela suspirou quando eu pedi para pôr o vô no vídeo, mas pôs. Encostou o celular no braço da poltrona e saiu da sala, porque achou que era bobagem minha e não quis ver.

O meu avô olhou para a tela. Eu virei a câmera para a ponta do píer.

Na tela, só tinha água.

Eu sabia que ia ser assim. Mesmo assim, doeu. Ele estava ali, a cinco metros de mim, e para o celular era só o rio, preto, com o reflexo amarelo de um poste. O meu avô ficou olhando para aquela água por muito tempo. Não disse nada.

Foi o Hwitaek que começou. Não falou. Cantarolou, bem baixo, o começo do prelúdio da primeira suíte, a música que o meu avô sempre cantava pela metade. Foi até o meio da frase. E parou.

Do outro lado, em São Paulo, o meu avô fechou os olhos.

E continuou.

A voz dele estava rouca, desafinada nas notas altas, do jeito que sempre esteve. Mas ele foi além do ponto onde sempre parava. Foi até o fim da frase, e da frase seguinte, e o Hwitaek entrou por baixo, segurando uma nota grave, firme, para a voz do meu avô andar por cima sem medo de cair. Eu não sei nada de música. Mesmo assim, entendi o que estava acontecendo. Eram duas pessoas tocando juntas o mesmo instrumento, de dois lados do país.

O Pê segurava o celular com as duas mãos e chorava sem fazer barulho nenhum. O Beto, no barco, tinha tirado o boné.

Em algum momento, sem parar de cantar, o Hwitaek olhou para mim e depois para o chapéu.

Eu entendi. Andei até a metade da distância, onde dois tocos de amarração ficam lado a lado na beira do píer, e vesti um deles com o chapéu. O Pê veio atrás, tirou o boné e vestiu o outro. Disse que tinha usado aquilo no lugar do gorro e que agora o boné podia descansar um pouco. Tirei essa foto e voltei para o começo do píer, de costas para a ponta. Tem coisas que não são para a gente ver.

Não vi quando ele foi até o toco. Ouvi as tábuas rangerem uma vez, devagar, e a música não parou.

Os dois terminaram o prelúdio juntos. A última nota se desfez sobre a baía, e o que veio depois foi o barulho da água batendo nas estacas do píer, e um sopro curto, em algum lugar no escuro.

Na janela pequena, o meu avô abriu os olhos. Disse só uma palavra. Eu não vou repetir aqui. É dele.

Ninguém falou em encanto. Ninguém perguntou o que tinha sido aquilo, quarenta e cinco anos antes, na beira de um rio que nem existe mais. Eu passei a viagem inteira achando que tinha ido ao Norte para descobrir isso por ele. Mas ali, ouvindo os dois, eu entendi que ninguém precisava dizer. Encanto não dura uma vida inteira. Encanto não deixa a pessoa casar, ter filha, dar aula de sábado para criança que segura o arco errado. Encanto prende. O meu avô viveu.

O que ele sentiu foi outra coisa. E ele sempre soube.

Quando eu olhei de novo para a ponta do píer, o céu já clareava do outro lado da baía, e o Hwitaek não estava mais lá. Num dos tocos, não tinha mais nada. No outro, o boné do Pê continuava lá. Eu não vi o chapéu voltar para o dono, mas sei que voltou, do jeito que a gente sabe que a maré subiu sem ter visto a água chegar.

O boné ficou no toco, sozinho, olhando para a baía, até o sol nascer de vez. O Pê só foi buscar depois. Disse que tinha se acostumado.

Foto 12

Filme preto e branco, 35 mm. Uma sala com janela grande e cortina clara. Numa poltrona, um senhor de cabelo branco, de olhos fechados, com a mão esquerda erguida no ar e os dedos dobrados, como se apertassem cordas que não estão ali. A mão direita, mais baixa, parada no meio de um movimento longo, de uma ponta à outra.

Essa é a única foto com gente.

Eu voltei para São Paulo no dia 27 de outubro, um dia depois do Recírio. No dia 31, Dia do Saci, a escola do prédio da frente fez desfile de criança com gorro vermelho e uma perna amarrada para trás. O Pê assistiu da janela da sala com uma cara que eu não sei descrever. Acho que era orgulho.

Nos dias seguintes, eu peguei o meu avô fazendo isso várias vezes. Na poltrona, na mesa do café, uma vez na porta do banheiro. A mão esquerda no ar, os dedos procurando cordas. A direita puxando um arco que não existe. De olhos fechados. Às vezes, cantarolando. A minha mãe ficou preocupada. Disse que ele estava ficando senil, que a gente ia ter que levar no médico, que ele passava o dia tocando para ninguém.

Eu não discuti com ela. Ela nunca foi ao Norte.

Eu sei que ele não está tocando para ninguém. Está tocando uma música que finalmente terminou.

Numa dessas vezes, eu carreguei a Pentax dele com um rolo de filme e fiz essa foto. Ele não abriu os olhos. Não precisava. Quando eu revelei, ele saiu nítido, porque ele é gente, e gente sai em foto. É a regra. Eu levei vinte anos para aprender, e mais um mês para entender.

É isso.

Esse é o meu trabalho. Doze fotos, onze lugares vazios e o meu avô.

Obrigado por terem lido até aqui.

* * *

No telão do auditório, a última foto fica parada: o meu avô de olhos fechados, tocando para ninguém. Eu termino de falar, solto o passador de slides em cima da mesa e olho para a banca.

— Alguma pergunta?

A professora que preside a banca tira os óculos e me olha por um tempo. Os outros dois professores estão quietos. Um deles, eu tenho quase certeza, anotou o nome do perfil Mistérios do Norte. Lá no fundo do auditório, na última fileira, alguém de boné vermelho está com os pés em cima da cadeira da frente, como se ninguém fosse reparar.

— Pergunta, não — diz a professora. — Só falta uma coisa para a ata. O seu nome completo.

E eu percebo que escrevi um trabalho inteiro sobre todo mundo, menos sobre mim.

— Rui — eu digo. — Rui Cardoso Leme.

Ninguém me chama assim. Em casa eu sou o menino. Para o Pê, eu sou o Peneira. Mas foi o meu avô quem escolheu esse nome, quando eu nasci, e a minha mãe aceitou sem perguntar por quê.

Agora eu sei por quê.

Lá no fundo, o Pê levanta o polegar.

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