Eu sentia a chuva fria molhar meu cabelo, encharcar minhas roupas, mas isso não importava. O gelado misturava-se com as quentes e salgadas lágrimas que saíam de meus tristes olhos, borrando a leve maquiagem. O vento se intensificou, levando as úmidas e últimas folhas que ainda restavam nas árvores. Me abracei mais forte, minha fina jaqueta não era párea para a tempestade.
A noite já vivia a algumas horas desde que eu saíra de casa, na chuva. Agora eu caminhava pelo centro da pequena cidade, vazia, morta. Algumas vitrines ainda estavam acesas, junto com as luzes dos postes. As poucas sinaleiras também funcionavam, controlando um trânsito fantasma. Toda a cidade dormia enquanto a forte tempestade explorava cada rua, cada beco. Senti o celular vibrar em meu bolso, mas deixei-o ali. Parei em frente a um dos relógios digitais da avenida, que mostrava 2:56 horas da madrugada. O visor mudou, mostrando a temperatura assustadora de 5 graus. Então era por isso que eu tremia, fungava e espirrava. Mesmo assim continuava andando.
Uma das duas boates da cidade ainda estava aberta, com som alto e aquecedor ligado; todos ali presentes alheios a tudo o que acontecia aqui fora. Passei silenciosamente pelo outro lado da rua, indo sem rumo para lugar nenhum. Sozinho. O frio tomava conta de meu corpo, fazendo-me caminhar lentamente. Virei uma esquina sem olhar, deixando meus pés cansados traçarem o caminho.
Agora a tempestade atingia diretamente meu rosto, fazendo meus lábios endurecerem e meus dentes trincarem. Minha respiração pesada criava pequenas nuvens, carregadas pelas rápidas rajadas de vento. Agora não era apenas água que batia em meu rosto. Era neve. Minhas mãos se encolheram dentro da comprida manga, tentando em vão reter algum calor.
Eu já não me lembrava porque estava caminhando assim, com esse tempo. Alguma força me empurrava, me impulsionava a continuar, por mais que eu quisesse sentar num dos bancos e descansar, dormir. Um bocejo escapou pela minha boca e levei uma das mangas ao rosto, limpando meus olhos. O celular vibrou de novo e eu o ignorei novamente.
Notei que as casas da rua começavam a se espalhar, me mostrando que estava saindo do centro. Dobrei outra esquina, na mesma direção de antes. Atravessei a ruazinha de lajotas e continuei em frente. Algumas casas com lustrosos canteiros me eram familiares, assim como as árvores nos canteiros da calçada. Quando vi a simples casa amarela, meio desbotada, estaquei. Eu tinha voltado para casa.
Havia luzes acesas e fumaça saindo da chaminé de tijolos. Estranho... teria alguém em casa? Minha mãe talvez, para uma visita inesperada. Não. Segui em frente, entrando no portão e parando em frente a porta de madeira com o pequeno espelhinho. Enfim abri.
A sala estava deserta, mas uma ótima sensação de conforto tomou conta de meu corpo frio. Fechei a porta e fui me sentar no sofá em frente a lareira acesa, molhado do jeito que estava. Era eu quem teria que limpar depois mesmo. Tirei minha jaqueta e peguei a manta que ficava dobrada ali, me enrolando nela. Fechei os olhos sentindo um tímido calor aos poucos tentar me aquecer.
Por mais que fosse uma coisa boa, eu teria que tomar um banho. Estava me preparando para me levantar quando senti alguém se sentar ao meu lado. Senti seus dedos passarem suavemente pela minha face, secando algumas lágrimas de chuva. Os dedos sumiram, dando lugar para lábios quentes pousarem em minha bochecha, e a ponta de um nariz roçar no meu. Respirei fundo.
Meus olhos se abriram assustados. Era mesmo ele, o dono de tal aroma.
“Tom?” Murmurei.
Ele confirmou, mas eu não conseguia acreditar. Meu irmão... em casa. Ele deve ter visto a desconfiança em meus olhos, já que juntou nossos rostos, esperando uma reação minha. Eu queria conversar, descobrir, mas não consegui me segurar, tomei seus lábios com os meus. Um beijo carinhoso, apaixonado. Necessário. Logo sua língua invadiu minha boca, explorando o lugar já conhecido. Coloquei minha mão gelada em seu pescoço, fazendo-o estremecer, e intensifiquei o beijo. Mas ele me afastou.
“Bill, você precisa de um banho.”
Sorri em meio ao frio. Me levantei relutante do sofá, ainda enrolado na manta.
“Você vai me ajudar?” Perguntei com toda a inocência que encontrei, esperando-o levantar.
“Com toda a certeza.”
Fomos caminhando até o banheiro, eu apoiado em meu irmão. Entramos e eu olhei para a banheira de água fumegante, ainda enchendo, não vendo a hora de entrar nela.
Tom tirou a manta de mim, e eu tremi um pouco enquanto tirava a camiseta. Tirei meus tênis e as meias, logo seguidos pela calça e boxer. Ficar nu na frente de meu irmão já fora um problema, mas agora nenhum dos dois ligava. Ele foi conferir a temperatura da água, mas logo tirou a mão, fechando a torneira.
“Preparado para um choque térmico?” Indagou.
Me sentei na borda da banheira e lentamente coloquei um pé dentro. Credo, estava quente mesmo. Arregalei os olhos enquanto colocava o outro pé, e Tom riu. Ele arregaçou as mandas e sentou-se no chão ao meu lado, apoiado na banheira. Com a mão foi molhando suavemente minhas pernas, para eu me acostumar com o calor.
“Não vai me acompanhar?” Sentei-me em fim dentro d\'água, quase transbordando-a. Ele negou com a cabeça. Soltei um leve gemido quando a água quente banhou minhas costas, com uma forte sensação de queimação. Afundei totalmente para limpar meu rosto das lágrimas. Por mais amigas que pudessem ser, eu não gostava delas.
Ao emergir, perguntei o que tanto me intrigava.
“Por quê?”
Ele me encarou longamente antes de responder.
“Eu achei que seria bom pra mim me distrair, mas no minuto em que coloquei o pé fora da cidade notei meu erro. Só não fui forte para voltar atrás na hora.” Ele se aquietou, fitando a parede ao meu lado. “Agora eu fui notar que foi mais ou menos um teste para mim, para ver se eu realmente o amava.”
“Você não precisava ter feito isso.”
Ele fechou os olhos e confirmou, logo voltando a abri-los.
“E nem você precisava ir visitar a tempestade.” Retrucou. “Você é louco.”
“Você me enlouquece.” O fiz sorrir. “E não brigue mais comigo sem nenhum motivo.”
Ele assentiu. Um longo e sincero olhar prendeu nossos olhos por vários minutos, até Tom se levantar, de súbito.
“Aonde vai?”
“Você precisa se esquentar por dentro também. Uma sopa não te fará mal.” Sorriu ao ver minha careta. Ele sabia que eu detestava sopa, mas não estava em condições de protestar. “E também vou trazer uma roupa.”
Antes de sair ele pegou uma das minhas toalhas pretas, colocando-a na borda, onde antes estivera apoiado. Eu estava com preguiça de levantar, ainda não me sentia muito quente, mas mesmo assim me ergui e tirei a rampa do ralo, deixando a água quase morna escapar cano abaixo. Peguei a toalha, passando-a por meu rosto, pescoço e braços, descendo pelo peito à barriga. Em meio aos meus movimentos pude sentir um olhar quente percorrer meu corpo ainda meio frio. Um arrepio o acompanhou.
“Suas roupas.” Avisou, colocando-as sobre a pia.
Sequei meus pés e saí totalmente da banheira. Sentei na borda e coloquei os dreads para frente, enrolando-os na toalha e jogando para trás. Me levantei e fui me vestir, ainda acompanhado pelos arrepios. Peguei uma boxer e a vesti sem o menor ânimo.
“Tom.” Chamei, e ele logo veio atender.
“Sim Bill?”
“To com preguiça de me vestir...” Respondi com a maior manha. Ele sorriu abertamente, logo se ajoelhando numa perna ao me lado e me vestindo com minha calça de moletom, colocou as meias de lã fina em meus pés. Tirou a toalha do meu cabelo e passou a blusa preta de mandas compridas, bem leve. Me esperou arrumá-la e colocou um casaco, também de moletom e também preto. Tirei os dreads de dentro dele e Tom passou a toalha neles, logo jogando-a no balcão da pia. Ele ficou ali, parado ao meu lado.
Olhei para ele, e um forte impulso me fez abraçá-lo, fazendo-o jogar seus braços em minha volta, apertando-me contra ele.
“A sopa está quase pronta.”
“Eu não estou com fome. Quero dormir.”
“Mas e”
“Quando eu acordar daí você esquenta.” O interrompi, sorrindo.
“Tudo bem.”
Ainda com os braços em minha volta me levou para o quarto e me colocou na cama, embaixo de um fofo edredom. Saiu do quarto, voltando em seguida com um copo d\'água e um comprimido. Obediente, tomei, sem nem saber para que era. Colocou o copo vazio no criado-mudo e sentou-se ao meu lado, me olhando de uma forma amável. Bati na cama na minha frente, pedindo para que ele deitasse comigo, e assim fez.
Ficamos ali, nos olhando, como se nunca tivéssemos nos visto antes. Ele murmurava o tempo todo, dizendo que tinha sido um burro, um idiota ao achar que ficaria melhor longe de mim. E eu respondia o tempo todo que não.
“Tom, deu. Você não foi burro. Você precisava disso para provar que sua vida é ao meu lado, e não longe de mim.”
“Mas Bill, você não entende? Eu não sei como eu pude pensar que isso seria melhor pra mim, esse é meu problema.”
“Foi uma experiência Tom. Agora você sabe que é ruim.”
“E também sei que nunca mais vou sair do seu lado.”
“Ah, mas você vai. Em algum momento vai ser obrigado a isso. E eu não vou me opor.”
“Por quê? Eu estaria indo para longe de você...”
Não consegui deixar de rir. E depois era eu quem não entendia. Ele ficou assustado com minha risada inesperada.
“Tommy, não sou eu que não entendo as coisas. Você pode ir quando quiser. Apenas volte.” Coloquei a mão em seu rosto e lhe dei um selinho.
“Ahn. Entendi.” Sorriu. “Eu não sou capaz de te abandonar de novo, nunca mais.” Me estreitou fortemente em seus braços e um arrepio me percorreu. Logo ele esquentaria meu corpo ainda gélido, sem nenhum problema. Agora eu sentia fome.
“Eu não permitiria isso. É o que eu disse. Apenas volte.” Me entreguei ao abraço, me esfregando levemente no corpo quente de meu irmão. “Tommy....” “Que foi?” Acho que ele entendeu só pelo meu tom de voz, já que sua mão desceu até minha cintura e ali se fixou.
“Agora eu estou com fome.” Ele sorriu abertamente, lindo como sempre. Não resisti a uma verdade: “Eu te amo”, bem baixinho.
“Também te amo. Mas vamos dar um jeito nessa fome...” Se deitou sobre mim e prendeu minha boca com a sua, dando início à uma noite longa e quente.
Essa, com certeza, foi a melhor reconciliação da minha vida.
Fim.
Möppy,
03.03.2010
