Ainda era cedo
Ainda era cedo
Capítulo 18 min de leitura

Único

Quando a mãe morreu, ele comprou seis pães.

Só percebeu o excesso ao chegar em casa. Havia passado os últimos meses levando três para ela, três para si. Guardou metade no congelador e comeu o restante de pé, junto à pia.

O hospital ligou enquanto ele sacudia as migalhas da camisa. Precisavam que fosse buscar os documentos e uma sacola com os pertences dela.

Perguntou até que horas poderia ir.

A mulher respondeu. Ele anotou o horário no verso de uma conta de luz.

Depois lavou a faca.

Não conseguia dizer quando as coisas haviam começado a perder a importância.

Ainda havia notícias, acidentes, aniversários. Os ônibus atrasavam e as pessoas corriam para alcançá-los. No inverno, os moradores de rua procuravam as saídas de ar quente dos prédios. Quem estava com fome queria comer.

Mas algo se encerrava assim que a necessidade passava.

Ele se lembrava de ter visto um menino cair de bicicleta. O menino chorou, segurando o joelho aberto. Uma mulher o ajudou a levantar, limpou o sangue com água de uma garrafa e ficou ali até ele conseguir pedalar.

Na calçada, restou uma pequena mancha.

Mais tarde, ele passou pelo mesmo lugar e tentou recordar por que havia parado ali de manhã. Lembrou-se de tudo: da bicicleta vermelha, da água escorrendo pela canela, do choro. A lembrança estava inteira.

Continuou andando.

Na sacola da mãe havia um pente, uma camisola, os óculos e uma laranja.

A laranja o fez demorar um pouco mais. Estava descascada pela metade. Ela provavelmente se cansara e a deixara sobre a mesa de cabeceira.

Ele colocou os óculos no bolso para que não quebrassem.

O homem responsável pelo atendimento explicou os procedimentos. Havia decisões a tomar, assinaturas, despesas. Ele ouviu tudo com atenção. Escolheu um caixão que cabia no dinheiro disponível.

No enterro, uma tia chorou. Ele passou um braço pelos ombros dela e sentiu o tecido úmido sob os dedos.

— Você vai sentir falta — ela disse.

Ele concordou.

Nas semanas seguintes, sentiu.

Às vezes surgia uma pergunta que só a mãe saberia responder. Onde estava sua certidão de nascimento. Quem era o homem ao lado do pai numa fotografia. Quanto tempo deixava o feijão de molho.

Nessas horas, pegava o telefone.

Depois o colocava de volta.

A cidade continuava funcionando, embora já não tão bem.

Uma ponte ficou interditada depois de uma inspeção. As pessoas passaram a usar outra, mais distante. Meses depois, ninguém havia começado o conserto. As casas perto do rio desvalorizaram, algumas lojas fecharam. Os antigos donos encontraram outras coisas para fazer ou ficaram em casa.

Havia crimes.

Num bar, um homem foi morto por causa de uma cadeira. O assassino permaneceu sentado até a polícia chegar. Quando perguntaram por que havia feito aquilo, explicou a discussão sem parecer confuso.

Foi preso.

Ele soube da história pelo jornal e procurou notícias do julgamento durante alguns dias. Depois encontrou uma reportagem sobre a família da vítima. A mulher havia voltado ao trabalho. O filho mais novo ainda perguntava quando o pai chegaria.

Na fotografia, os dois estavam sentados num sofá. Havia espaço entre eles.

Ele deixou o jornal sobre a mesa.

À noite, usou uma das páginas para recolher um copo quebrado.

Conheceu Clara na loja onde levou os óculos da mãe.

Uma das hastes havia entortado dentro do bolso. Ele os deixara ali por semanas antes de encontrar.

— Quer trocar a armação? — ela perguntou.

— Só consertar.

Clara abriu um pano sobre o balcão e pousou os óculos com as lentes para cima.

— São seus?

— Da minha mãe.

Ela esperou, com a pequena chave de fenda entre os dedos.

— Ela morreu.

— Ah.

Ele gostou de que ela não dissesse mais nada.

Voltou na quinta-feira. Os óculos estavam prontos. Colocou-os no rosto por um instante, mas o chão pareceu subir e precisou tirá-los.

Clara riu. Ele também.

Antes de sair, perguntou a que horas a loja fechava.

Ficaram juntos por quase dois anos.

Ela deixava fios de cabelo no ralo, abria uma janela assim que acordava e cortava as frutas em pedaços pequenos. Ele aprendeu a comprar peras ainda duras porque ela gostava de esperar que amadurecessem.

Às vezes eram felizes. Ele sabia reconhecer aquilo enquanto acontecia: Clara dormindo no ônibus com a cabeça no seu ombro; uma tarde em que a chuva os reteve numa padaria; o pé dela procurando o dele debaixo da coberta.

Depois a tarde terminava, eles voltavam para casa, dormiam.

Quando brigavam, a raiva era real. Clara chegava a tremer. Ele sentia calor no rosto e dizia coisas calculadas para feri-la.

Na manhã seguinte, conseguiam repetir palavra por palavra o que haviam dito.

Era possível conversar sobre a briga durante o café, como quem descrevia um filme.

Uma vez, ele perguntou:

— Você ainda me ama?

Clara estava tirando a casca de uma pera com uma faca pequena.

— Acho que sim.

— Como você sabe?

Ela parou, segurando a tira da casca.

— Quando você chega, eu fico contente.

Ele aceitou a resposta. Não tinha uma melhor.

No último inverno juntos, Clara queimou a mão.

A panela escorregou e a água caiu sobre os dedos. Ele a levou até a torneira. Ficaram os dois curvados sobre a pia, o braço dele em volta da cintura dela.

Clara chorava de dor.

Mais tarde, enquanto esperavam atendimento, ela encostou a cabeça na parede e disse:

— Achei que você não fosse levantar.

— Eu estava do seu lado.

— Eu sei.

Ele olhou para a mão envolta numa toalha molhada.

— Por que você achou isso?

Ela demorou.

— Às vezes eu penso que podia acontecer qualquer coisa comigo na sua frente.

Ele começou a responder, mas ela fechou os olhos.

A queimadura deixou uma marca perto do polegar. Ele a via quando Clara segurava uma xícara, quando procurava as chaves, quando pousava a mão no seu peito.

Acabou se acostumando.

Foi Clara quem decidiu ir embora.

Arrumou as roupas num sábado. Ele ajudou a descer as caixas e segurou a porta do carro enquanto ela acomodava uma planta entre os pés.

— Você pode me pedir para ficar — disse ela.

Ele olhou para o apartamento, quatro andares acima. A janela estava aberta.

Queria que ela ficasse. Soube disso com clareza. Queria jantar com ela naquela noite, ouvir a água do chuveiro enquanto lavava a louça, reclamar do frio quando ela se deitasse.

Mas também conseguia imaginar a noite sem ela.

— Você quer ficar? — perguntou.

Clara ajeitou a planta.

— Amanhã já não vai fazer diferença.

Ele segurou a porta por mais um instante. Quis dizer que faria, mas olhou para o lugar onde ela havia posto a última caixa e não disse nada.

Então Clara entrou no carro.

Ele lembrou.

Lembrou ao encontrar uma meia dela atrás da máquina de lavar. Ao comprar uma pera e deixá-la estragar na fruteira. Ao acordar com frio e estender o braço para fechar uma janela que ninguém havia aberto.

O sofrimento vinha de vez em quando. Apertava o peito, tirava a fome. Ele se sentava e esperava.

Depois conseguia continuar o que estava fazendo.

Isso o incomodava mais do que a partida.

Começou a guardar coisas. A meia, o caroço de uma fruta que tinham dividido, um recibo de restaurante. Procurava alguma resistência nesses objetos. Segurava-os até que a mão ficasse quente.

Numa noite, pegou os óculos da mãe e tentou lembrar seu rosto através das lentes.

Conseguiu ver a cozinha inteira: o rádio sobre a geladeira, a toalha presa numa gaveta, a mãe inclinada sobre uma panela.

Ficou ali por bastante tempo.

Depois guardou os óculos e foi escovar os dentes.

Meses mais tarde, recebeu uma carta de Clara.

Ela estava morando perto do mar. Trabalhava numa biblioteca e havia alugado um quarto com infiltração. Escreveu que, nos dias de chuva, precisava afastar a cama da parede.

Não explicou por que estava contando aquilo.

No fim, havia um endereço e uma frase:

Se vier, traz os meus óculos escuros. Acho que ficaram na gaveta da entrada.

Ele encontrou os óculos debaixo de contas antigas.

Limpou as lentes com a barra da camisa e os colocou num estojo. Comprou uma passagem para sexta-feira. Na quinta, quase a cancelou: a viagem era longa, teria de faltar ao trabalho, talvez Clara já estivesse arrependida de escrever.

Deixou a mala aberta sobre a cama.

Na manhã seguinte, terminou de arrumá-la.

Chegou depois das seis.

A casa tinha um portão baixo e manchas de umidade junto ao chão. Por uma janela, viu livros empilhados numa cadeira. Havia uma toalha secando no encosto de outra.

Ficou algum tempo na calçada, com o estojo dos óculos na mão.

Clara abriu a porta antes que ele tocasse a campainha.

Pareceu surpresa. Depois olhou para a mala.

— Você veio.

Ele levantou o estojo, e ela sorriu de leve.

Lá dentro, alguma coisa fervia no fogão.

Clara se afastou para deixá-lo entrar. Ele passou por ela, pousou a mala perto da parede e sentiu o cheiro de alho na panela.

A mesa estava posta para uma pessoa.

Ela foi até o armário, tirou outro prato e ficou segurando-o.

— Você vai ficar?

Ele olhou para a mão dela. A marca perto do polegar ainda estava lá.

— Acho que sim.